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terça-feira, 27 de setembro de 2016

Dias piores virão

" A eleição de outubro será a marca de corte de uma nova etapa do golpe, a sua fase 2. Muito mais dura, muito mais violenta, muito mais anti-democrática, muito mais objetiva em relação aos objetivos que levaram à grande articulação para derrubar Dilma.
O que se está vendo até agora não é nem o café pequeno do grande banquete que vem sendo preparado para contentar não só as elites econômicas, como os mais variados interesses que se uniram neste projeto.
Até as eleições, Temer e seus aliados vão tomar cuidado. Porque eles sabem que têm necessidade da desculpa das urnas para dar alguma legitimidade ao que virá.
Mesmo que seja uma legitimidade ilegítima, a mídia já prepara o discurso do dia seguinte eleitoral.
O PT será o maior derrotado nas urnas (e ao que tudo indica isso de fato ocorrerá) e a interpretação será a de que o Brasil quer seguir em frente. Não está mais disposto a olhar para trás. E que os votos no PT deram esse recado.
A interpretação permitirá, entre outras coisas, agir de forma muito mais violenta com os movimentos sociais, que serão tratados como braço armado do petismo.
A fase 2
Entre os acordos do golpe, o mais importante é o econômico. Ele prevê privatizações em massa, entrega do Pré-Sal, reforma da previdência, com ampliação do tempo de trabalho, e reforma trabalhista, que deve aumentar a jornada de trabalho e permitir contratações com imensa flexibilidade, o que enterrará a CLT.
Os dois últimos pontos são altamente tóxicos do ponto de vista social e vão ser fundamentais, quando de fato se tornarem propostas no Congresso, para engrossar o caldo das ruas.
Esses manifestações se forem crescendo poderão parar o país num grande Fora Temer. E o governo, cujo ministro da Justiça, Alexandre Moraes, é “especialista” em lidar com movimentos sociais, sabe disso.
E tem uma fórmula que considera imbatível para lidar com o problema. Bombas, porrada, prisões arbitrárias e a transformação dos atos em imensas zonas de conflito, para amedrontar os mais cuidadosos.
Depois das eleições, haverá uma enxurrada de prisões de lideranças sociais em todo o país. Num primeiro momento as secundárias, para buscar a desarticulação dos movimentos, mas se isso não for suficiente, a mira vai se deslocar para gente como Boulos, Stédile, Wagner da CUT, presidentes de sindicatos importantes, lideranças dos movimentos de mulheres, a garotada do Levante, do MPL, da UNE etc.
Até agora, por exemplo, o governo Temer não deu explicação alguma para o caso do capitão do Exército que estava infiltrado em movimentos de jovens. Como se aquilo não representasse uma grave ameaça à democracia.
A mídia e os nossos tão atentos repórteres e colunistas desses veículos tradicionais, também ignoraram o fato.
Mas esse é um pedaço importante do rabo que deixa à vista o pitbull do golpe.
Esses agentes estão atuando em todos os cantos do país não só para passar informações, como para criar tumultos e plantar provas que levarão vários manifestantes à cadeia.
A prisão dessas lideranças será justificada sempre como em defesa da ordem e da democracia. E a partir de outubro/novembro estará ancorada no discurso do resultado eleitoral. Na história da minoria que quer bagunçar com o país.
A perseguição terá outros capítulos
Se as lideranças sociais da cidade serão presas e se no campo pode vir a ocorrer a eliminação pura e simples de muitas delas, o clima de terror não está limitado a esses grupos.
Em setores médios, por exemplo, haverá uma imensa caça às bruxas daqueles que não estiverem dispostos a fazer a lição de casa do golpe.
Nas redações dos veículos tradicionais ainda há uma parcela de 10% a 20% de jornalistas que são corretos. A grande maioria, infelizmente, ou faz cara de paisagem ou assumiu o discurso dos donos dos veículos, que estão entre os principais acionistas do que virá.
Os jornalistas corretos serão intimidados a se calar ou a aderir. Caso não aceitem, serão demitidos. O medo, colocará muitos em situação de submissão. A coragem, fará muitos se tornarem donos do próprio nariz em novos veículos de resistência que serão criados.
Mas a situação dessa nova mídia, mais independente e livre, também não será fácil. O envolvimento do poder judiciário com muito do que virá não será algo apenas para inglês ver. Como nunca foi nos golpes que o Brasil já viveu. E a judicialização será o caminho para derrotar a blogosfera.
Alguns blogueiros já estão gastando mais tempo com advogados do que com produção de reportagens e artigos. E a tendência é a intensificação deste caminho por parte não só do governo, mas de todos os setores que compõem a nova aliança de poder.
Artistas e grupos culturais dissonantes também serão acossados, como já ficou claro na perseguição a Aquárius. Haverá ainda imensa asfixia econômica às universidades públicas e instituições de pesquisa. Exatamente para limitar a ação dos setores de opinião mais independentes.
Programas sociais
O governo não vai desmontar todos os programas sociais de uma vez. Vai fazê-lo aos poucos e garantindo que restem exatamente aqueles que permitirão maior controle da base atingida.
Essa estratégia será utilizada para fortalecer o campo político aliado nas regiões onde as ações dos governos Lula e Dilma provocaram maiores transformações, em especial no Norte e no Nordeste.
Programas que hoje são gerenciados de forma técnica serão municipalizados para se transformarem em moeda eleitoral. O governo federal entrará com os recursos. E os aliados municipais garantem o cabresto. Até porque o PMDB sabe que fortalecer o cabresto municipal é a sua chance de continuar à frente do governo central.
Se isso vier a dar certo, em pouco tempo boa parte das bases sociais do Lulismo poderão voltar à dependência do passado e acabarão não tendo muita condição de reagir à tutela dos coronéis locais.
Como já ensinou o velho Marx, o lumpesinato não faz a revolução. E sequer consegue resistir.
Nas grandes cidades, o aumento do desemprego e da injustiça social também vai produzir novos bolsões de miséria. E uma imensa nova geração de lúmpens.
A Lava Jato e 2018
É fato que essa agenda não é assim tão simples de se impor por conta das contradições da sociedade e dos conflitos internos dos grupos que se aliaram para o golpe. Mas é este o projeto que está na mesa. É o projeto que será tentado não num parto natural, mas à fórceps.
É isso que com um detalhe aqui ou acolá passa pela cabeça de todos que se uniram nessa aventura monstruosa de colocar a democracia brasileira em risco.
Na cabeça desse grupo não há espaço para perder as eleições de 2018, mesmo que seja necessário dar um novo golpe, que seria a fase 3, implantando um semi-presidencialismo e unificando todas as eleições para 2020.
A Lava Jato, depois da denúncia contra Lula, já chegou onde deveria. E a própria denúncia contra Lula, pode ter decretado o seu fim.
A vaidade de Deltan Dellagnol parece ter sido fatal para a operação. E já há quem trabalhe com a hipótese de que o bad boy com cara bom moço foi encorajado a fazer uma peça acusatória, mesmo que sem sentido e frágil, para que pudesse vir a ser desmoralizado depois.
Não há outra explicação para os textos de um certo blogueiro da Veja que não seja a voz de um ministro do Supremo com o qual ele compartilha longos telefonemas. E ao mesmo
tempo os interesses de um certo ministro das Relações Exteriores que ele chama de amigo. E de quem se orgulhava de compartilhar da “intimidade da família”.
O blogueiro saiu atirando na acusação de Dallagnol mesmo sem lê-la, como pode ser conferido no seu primeiro texto sobre o tema.
Sinto informar, mas enganou-se redondamente quem comemorou a ação como um ato de honestidade intelectual. O que se deve depreender daquilo é a tentativa de fazer a Lava Jato subir no telhado. Mas não sem antes empurrar Lula do telhado das acusações que ele vem enfrentando com dignidade e coragem de admirar.
Voltando às eleições
O campo progressista tem pouca margem de atuação neste momento. O momento é muito mais de esperar os erros do lado de lá para tentar ganhar alguma força do que sair agindo na base da louca, como se diz no Nordeste.
É quase certo que as urnas de outubro trarão notícias terríveis para o PT e muito ruins para os outros partidos aliados dos governos Lula e Dilma.
Mas mesmo neste mar revolto, algumas coisas deveriam ser tentadas. E há o que se tentar.
Em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Recife e Fortaleza, por exemplo, que são grandes e simbólicas, há em menor ou maior dose, alguma chance de vitória do campo progressista. Ou mesmo de derrotas menos impactantes.
Se a hipótese de que uma derrota fragorosa da esquerda pode levar ao endurecimento das ações do governo faz sentido, seria razoável buscar com todas as forças acordos ainda no primeiro turno que evitassem, por exemplo, que candidaturas progressistas morressem abraçadas já nesta fase inicial.
Um movimento nacional de unificação de candidaturas com o objetivo de defender a democracia e tentar garantir desde já alguma unidade para o que virá deveria ser tentado e colocado como ponto central das articulações nos próximos dias.
E os movimentos sociais é que deveriam chamar os partidos para sentarem e construírem acordos, porque mais do que os partidos, quem vai pagar a conta principal da repressão na fase 2 do golpe serão os movimentos.
Mesmo se isso vier a acontecer será muito difícil sair dessa eleição cantando vitória. Mas não é disso que se trata agora. É de buscar criar um campo de alianças mais solidário, generoso e capaz de resistir.
Que entenda o momento atual com a dimensão que ele tem e não como um pequeno freio de arrumação que pode garantir a alguns um pouco mais de espaço no futuro breve.
Se o golpe for bem sucedido na sua fase 2 vai sobrar muito pouco para o campo progressista nos próximos cinco a dez anos. E pode ser ainda pior. Talvez isso permita empinar um projeto baseado numa ação de força para até 15, 20 anos.
Um projeto com base num sistema de exceção um pouco mais sofisticado, mas na mesma linha do Brasil ame-o ou deixe-o é o que se vai tentar.
E aí, amigos, como já disse o Jânio de Freitas, talvez o passaporte atualizado seja muito mais do que um capricho, mas uma necessidade para conseguir resistir e sobreviver."

Infelizmente não sei o autor, mas vidente ele não é. Apenas estudou história e está acordado onde quase todos estão dormindo.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Lula Ladrão

Agradecimento eterno ao Duvivier e à trupe toda da Porta dos Fundos. A coragem e determinação, o comprometimento em nos fazer falar através deles, o uso de sua fama e sucesso para passar mensagem que todos nós queríamos passar, tudo isso, e muito mais, não esqueceremos jamais. Nem o futuro. Gratidão

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Paroles....

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Atualização, resposta de Roque Soto


Porque ele sempre está presente na minha vida. Porque existe essa praia, com parreiras e vinho doce, como o produto do amor, porque, porque.....aguentamos perguntas, vivemos na repressão, então, somos crianças perguntando, as mais de 400 perguntas por dia, que uma criança de 4 anos o faz! 

Blogger Roque Soto disse... 

Neguémonos
a ser tiempo en el espacio, 
amémonos, 
practiquemos el milagro 
de ser uno y sólo uno, 
mitad ángel, 
mitad diablo. 

Alma, 
Luis Eduardo Aute 

Buen fin de semana 
21/07/16 14:16

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Céu, purgatório e inferno.



E, quando eu penso que não tem mais jeito, que essa raça não deu certo, que Luzcifer, o Porteiro (cifer) da Luz (Luz), tinha razão ao abandonar o céu e seguir com sua legião para fora da influência DIVINA, o tal inferno, depressinha os poderosos deram posse e uso capião a Deus, nomeando-o em sessão extraordinária, na Câmara Celestial, com voto aberto,  dono do condomínio inteiro, a saber: céu, pergatório e inferno, com promissória no mesmo médico, estações de tratamento pré-céu, limbos e tudo o mais que tem direito um desterrado, excomungado, malhado e errado. 

Não se pode ser gauche na vida, sob pena de purgar no purgatório, comer o pão que o Diabo amassou, queimar, arder, se drogar, beber, queimar na fogueira com infiéis, índios, padres, bichas, mulatas, mulheres e adolescente, sinuosas e desnudas, animais da floresta e seres elementais de caráter duvidoso. 

Enfim, quando peço, encarecidamente a Deus, Fim Do Mundo Humano DJÁ! ....vem um vídeo desse, ultraHiperMega capitalista, que usa da nossa sensibilidade pra vender plano de saúde. 

Mas, como o Demônio, no fundo, tem pena da gente, ele dá um jeito nessa propaganda imoral, nos dá alento nesse deterro na TERRAemTRANSE.

Obrigada Luzcifer e Arimã. Realmente sem vocês e suas legiões, seria impossível viver. Porque os seres espirituais, do outro lado do rio, não sabem ser sarcásticos, irônicos, rogar pragas, desdenhar e apavorar. Como bons políticos que são, fazer conchavos com vocês, os seres espirituais do outo lado do alado. E ficamos com o pior dos sentimentos....Esperança!

E toca o barco, que tem muita maré ainda pra marear.

terça-feira, 5 de julho de 2016

CathaNininha



 É phoda ter uma Catharina em casa. 
 Ela já nasce nascida, 
 atrevida, re-mexida, 
 comprida e marcada pra viver. 

 É duro ensinar uma Catharina que já nasce parida, 
 na intriga de rapunzéis matutinas 
 e pardais sub- factóides, muito Guedes, 
 de Fátima a Beto, 
 me mostrando a dor de perceber que, 
 apesar de ter feito TUDO, TUDO, 
 ainda levo na cara a marca do ferro, 
 do não quero, 
 do berro! 

 É phoda deixar uma Catharina Suleiman sobrevoar o Monte Fufji 
 de biquini e caviar, 
 estranhando a espanhola na sacola,
 cheia de dias chuvosos e manhosos. 

 É phoda ver uma Catharina parida na invasão do TUCA, 
 com 9 meses e meio de ditadura, 
 anistia e muita caristia, 
 ir velejar em terras de Cabral...... 

 É phoda ver a parida parir e preferir o macho à própria parideira. 

 É phoda ver um pedaço de uma Catharina, 
 andando e falando neste mundão de Orlandos, Jorges e Dudus, 
 e só conseguir amar a Catharina inteira, 
 quando criança, 
 Giovanotta e cheia de Dores..... 

 É phoda ver uma CathariNininha fumar, 
 beber, se jogar, 
 pintar e escrever sua vida nos muros da cidade, 
 quando toda cidade te odeia 
 e você é um cão sem dono
 do bando do Bernardo. 

 É phoda ter no porta-retrátil,
 a foto da sereia Betiníssima.
 Ser marinha e poeta,
 desterrada em águas lusitanas,
 atravessando os mares da cidade paulistana.

 É phoda ver uma Catharina correndo, 
 em vão, nos desvão do Prado,
 de Caios,  
 Daniéis 
 e Fábios. 

 Nessa noite senhora,
 nesta hora, 
 acendo meu cigarro de palha. 
 Acalmo meu coracão:
 sei que as galinhas estão na cama,
 dormindo com Romeus, 
 Alans, Minowas e Anas, 
 Rosas, Belas e Ribeiras, 
 e Japonesas princesas.

 Ora, ora....
 olho a janela que me emoldura,
 quase a reboque, 
 e procuro a negra mordedura,
 na cara dura, 
 negra como um negativo Kodak,
 tempos de variados Golpes.
   
 É phoda.... tanta saudade, 
 tanta maldade e realidade. 

 Monarquista celestial, 
 puritana bacana, 
 ela voa! 

 Terríveis anjos em seus aviões.... 

 Saudade de você, 
 Gigi, tão Helena, 
 que vuou, vuou, vuou...... 

 Mas, amanhã, 
 sempre existe a esperança equilibrista, 
 de que não haja outro dia. 

 Fim da agonia! 

Amém!

Foto - Obra de CatharinaSuleiman




Taki o comente que fiz pro ilustre ZARCO!

Ludwig Zarco, como não poderia deixar de ser, matou a charada dirigida a ele. A Catharina achou que eu estava falando da filha dela, que perdi a infância.... e patati patatá.....djura?

Tava falando da minha irmãzinha, Regina Helena Cunha Lima....a para sempre GIGI, que morreu num, vôo rasante, no Centro da Cidade......
Voa minha flor...vc sempre foi anja.

TERRÍVEIS ANJOS EM SEU AVIÕES.....
porque a gente, (separado viu inhorantada,) sempre fumos anjos teríveis....taki seu livro minha GIGI, e minhas poesias todas...que não me deixam mentir, ajudam!

Queria tanto, que todos que se reconheceram, me contassem, como o Zarco, tão ilustre, muito mais que TODOS vcs juntos..... me disse, numa tarde que durou uma vida, muita risada e fofocaiada.....


-Aquele vôo, Gigi...... Tudo bem Walkyria.... a vida vale a pena, não voe sem me avisar, posso estar viajando no dia enterro, e não fazer valer sua vontade de ser cremada, para não ficar com a SULEIMANZADA, mesmo depois de morta!...ahhaahhahaahah

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Antes a Rocha Tarpeia

Dias desses, tomada pelos acontecimentos evitáveis e inevitáveis da vida, encontrei-me com Ludwig Zarco. 

Como convém a pessoas ilustres, procurei-o em horário adequado, dando-lhe a vantagem de escolher se me recebia ou não.

Dito isso, conversamos sobre ideias, como é mister das pessoas evoluídas - ele, não eu.

Em meio as ideias que ele sabe controlar, malabarista exímio de palavras cheias de conteúdos, com sua permissão, pincelei algumas realidades que me assolam - aquele tipo de realidade de que ele é ávido: a que expõe nossa pobreza ou nobreza, como seres humanos.

Fez-se silêncio.

Com o olhar límpido e pensativo ele disse ao léu: Antes a Rocha Tarpeia.

Ah gentefina, como assim?
E esse foi nosso encontro.

Eu, que não quero ser ignorante, que me agarro a toda chance de aprender, corri pro meu MAC e procurei….
É um conto de Machado de Assis.
Agora, com a alma pacificada, ensaio um olhar Ludwig Zarco e digo: Antes a Rocha Tarpeia.

Recomendo fortemente a leitura.


Texto Fonte:
Obra Completa de Machado de Assis, Vol. III
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Publicado originalmente em Almanaque da Gazeta de Notícias, 1887.










Como é que me achei ali em cima? Era um pedaço de telhado, inclinado, velho, estreitinho, com cinco palmos de muro por trás. Não sei se fui ali buscar alguma coisa; parece que sim, mas qualquer que ela fosse, tinha caído ou voado, já não estava comigo. Eu é que fiquei ali no alto, sozinho, sem nenhum meio de voltar abaixo.

Começara a entender que era pesadelo. Já lá vão alguns anos. A rua ou estrada em que se achava aquela construção era deserta. Eu, do alto, olhava para todos os lados sem descobrir sombra de homem. Nada que me salvasse; pau nem corda. Ia aflito de um para outro lado, vagaroso, cauteloso, porque as telhas eram antigas, e também porque o menor descuido far-me-ia escorregar e ir ao chão. Continuava a olhar ao longe, a ver se aparecia um salvador; olhava também para baixo, mas a idéia de dar um pulo era impossível; a altura era grande, a morte certa.

De repente, sem saber de onde tinham vindo, vi em baixo algumas pessoas, em pequeno número, andando, umas da direita, outras da esquerda. Bradei de cima à que passava mais perto:

— Ó senhor! acuda-me!

Mas o sujeito não ouviu nada, e foi andando. Bradei a outro e outro; todos iam passando sem ouvir a minha voz. Eu, parado, cosido ao muro, gritava mais alto, como um trovão. O temor ia crescendo, a vertigem começava; e eu gritava que me acudissem, que me salvassem a vida, pela escada, corda, um pau, pedia um lençol, ao menos, que me apanhasse na queda. Tudo era vão. Das pessoas que passavam só restavam três, depois duas, depois uma. Bradei a essa última com todas as forças que me restavam:

— Acuda! acuda!

Era um rapaz, vestido de novo, que ia andando e mirando as botas e as calças. Não me ouviu, continuou a andar, e desapareceu.

Ficando só, nem por isso cessei de gritar. Não via ninguém, mas via o perigo. A aflição era já insuportável, o terror chegara ao paroxismo... Olhava para baixo, olhava para longe, bradava que me acudissem, e tinha a cabeça tonta e os cabelos em pé... Não sei se cheguei a cair; de repente, achei-me na cama acordado.

Respirei à larga, com o sentimento da pessoa que sai de um pesadelo. Mas aqui deu-se um fenômeno particular; livre de perigo, entrei a saboreá-lo. Em verdade, tivera alguns minutos ou segundos de sensações extraordinárias; vivi de puro terror, vertigem e desespero, entre a vida e a morte, como uma peteca entre as mãos destes dois mistérios. A certeza, porém, de que tinha sido sonho dava agora outro aspecto ao perigo, e trazia à alma o desejo vago de achar-me nele outra vez. Que tinha, se era sonho?

Ia assim pensando, com os olhos fechados, meio adormecido; não esquecera as circunstâncias do pesadelo, e a certeza de que não chegaria a cair acendeu de todo o desejo de achar-me outra vez no alto do muro, desamparado e aterrado. Então apertei muito os olhos para não despertar de todo, e para que a imaginação não tivesse tempo de passar a outra ordem de visões.

Dormi logo. Os sonhos vieram vindo, aos pedaços, aqui uma voz, ali um perfil, grupos de gente, de casas, um morro, gás, sol, trinta mil coisas confusas, que se cosiam e descosiam. De repente vi um telhado, lembrei-me do outro, e como dormira com a esperança de reatar o pesadelo, tive uma sensação misturada de gosto e pavor. Era o telhado de uma casa; a casa tinha uma janela; à janela estava um homem; este homem cumprimentou-me risonho, abriu a porta, fez-me entrar, fechou a porta outra vez e meteu a chave no bolso.

— Que é isto? perguntei-lhe.

— É para que nos não incomodem, acudiu ele risonho.

Contou-me depois que trazia um livro entre mãos, tinha uma demanda e era candidato a um lugar de deputado: três matérias infinitas. Falou-me do livro, trezentas páginas, com citações, notas, apêndices; referiu-me a doutrina, o método, o estilo, leu-me três capítulos. Gabei-os, leu-me mais quatro. Depois, enrolando o manuscrito, disse-me que previa as críticas e objeções; declarou quais eram e refutou-as uma por uma.

Eu, sentado, afiava o ouvido, a ver se aparecia alguém; pedia a Deus um salteador ou a justiça, que arrombasse a porta. Ele, se falou em justiça, foi para contar-me a demanda, que era uma ladroeira do adversário, mas havia de vencê-lo a todo custo. Não me ocultou nada; ouvi o motivo, e todos os trâmites da causa, com anedotas pelo meio, uma do escrivão que estava vendido ao adversário, outra de um procurador, as conversações com os juízes, três acórdãos e os respectivos fundamentos. À força de pleitear, o homem conhecia muito texto, decretos, leis, ordenações, citava os livros e os parágrafos, salpicava tudo de perdigotos latinos. Às vezes, falava andando, para descrever o terreno, — era uma questão de terras, — aqui o rio, descendo por ali, pegando com o outro mais abaixo; deste lado as terras de Fulano, daquele as de Sicrano... Uma ladroeira clara; que me parecia?

— Que sim.

Enxugou a testa, e passou à candidatura. Era legítima; não negava que pudesse haver outras aceitáveis; mas a dele era a mais legítima. Tinha serviços ao partido, não era aí qualquer coisa, não vinha pedir esmola de votos. E contava os serviços prestados em vinte anos de lutas eleitorais, luta de imprensa, apoio aos amigos, obediência aos chefes. E isso não se premiava? Devia ceder o seu lugar a filhos? Leu a circular, tinha três páginas apenas; com os comentários verbais, sete. E era a um homem destes que queriam deter o passo? Podiam intrigá-lo; ele sabia que o estavam intrigando, choviam cartas anônimas... Que chovessem! Podiam vasculhar no passado dele, não achariam nada, nada mais que uma vida pura, e, modéstia à parte, um modelo de excelentes qualidades. Começou pobre, muito pobre; se tinha alguma coisa era graças ao trabalho e à economia, — as duas alavancas do progresso.

Uma só dessas velhas alavancas que ali estivesse bastava para deitar a porta abaixo; mas nem uma nem outra, era só ele, que prosseguia, dizendo-me tudo o que era, o que não era, o que seria, e o que teria sido e o que viria a ser, — um Hércules, que limparia a estrebaria de Augias, — um varão forte, que não pedia mais que tempo e justiça. Fizessem-lhe justiça, dando-lhe votos, e ele se incumbiria do resto. E o resto foi ainda muito mais do que pensei... Eu, abatido, olhava para a porta, e a porta calada, impenetrável, não me dava a menor esperança. Lasciati ogni speranza...

Não, cá está mais que a esperança; a realidade deu outra vez comigo acordado, na cama. Era ainda noite alta; mas nem por isso tentei, como da primeira vez, conciliar o sono. Fui ler para não dormir. Por quê? Um homem, um livro, uma demanda, uma candidatura, por que é que temi reavê-los, se ia antes, de cara alegre, meter-me outra vez no telhado em que...?

Leitor, a razão é simples. Cuido que há na vida em perigo um sabor particular e atrativo; mas na paciência em perigo não há nada. A gente recorda-se de um abismo com prazer; não se pode recordar de um maçante sem pavor. Antes a rocha Tarpéia que um autor de má nota.



sexta-feira, 13 de maio de 2016

Carta à minha mamis









Oi mamis, como vai a vida aí, #seiláonde e #seiláse. 
Aqui tá tudo igual. Lutamos as mesmas lutas, brigamos pelas mesmas ninharias, damos murros nas mesmas pontas de faca.... Afiadas.


Se você resolvesse chegar agora, dar o ar da sua graça na minha casa, digo que você sentiria que não perdeu nada. Em todos os sentidos.

Sua prole, bem como a humanidade em geral, não evoluiu nada.
Era isso! Obrigada pelo seu melhor, porque foi isso que você me deu, e eu que me vire, é justo. 

Perdoa mamis pelos problemas que causei enquanto eu crescia nesse mundo inóspito e selvagem. 

Perdoa mamis pelas mágoas que atirei em seu coração enquanto eu não sabia ouvir nem mesmo o meu coração. 
E diga-se de passagem, ainda tem muita estática e ruídos surdos.... Nem sempre escuto o coração. 

Mamis, tem uma notícia boa. Estou vivendo, resistindo, aprendendo. 

Pode parecer que eu #meacho, mas hoje eu sou uma pessoa melhor. 

Essa é a novidade. 

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Terra em Transe

O COMPASSO DO DESCOMPASSO 

de Laura Moraes 






 "Na escola me perguntava como será que as pessoas continuaram suas vidas normalmente enquanto rolava um golpe militar. Enquanto pessoas eram torturadas e assassinadas. Enquanto a democracia era subtraída de suas vidas. Como não queimaram tudo, não arrancaram as próprias roupas, pararam avenidas e gritaram 24h o que estava acontecendo? Hoje eu entendo. 


O padeiro continua assando pão, a vida segue, a banda toca, a menina sorri e o golpe já é tido como dado. Tem gente resistindo, tem gente desesperada, tem gente que não se importa e tem até gente comemorando. 

Todo dia bato meu ponto sabendo que em muito breve não haverá mais ponto a bater, carimbo pra carimbar, política pra construir, diálogo a realizar, fomento a construir... 

É estarrecedor sair às ruas e tudo funciona normalmente.

Pego ônibus, 
atravesso na faixa, 
compro pão de queijo 

e todo mundo segue 
como se a nossa democracia não estivesse sangrando. 

Como se não estivesse piorando vertiginosamente a vida de tanta gente que nem sabe o quanto o golpe vai influenciar em suas vidas, suas liberdades, suas vivências, sua prática política enquanto povo protagonista de sua história e construção. 

Nunca imaginei que viveria isso e que resistir não é/foi suficiente. O que construímos, o que abrimos mão, o que lutamos... 

'Tempo rei, oh tempo rei, oh tempo rei 
Transformai as velhas formas do viver Ensinai-me, ó Pai, o que eu ainda não sei.' "

domingo, 14 de junho de 2015

Para que serve o Poupa Tempo - Por LUDWIG ZARCO

Apresento-lhes os Contos de figura ilustre, que convenci a revelar ao mundo, seus escritos meticulosos e precisos sobre a natureza, principalmente a humana, esse ser que tanto nos intriga e diverte.
Copio aqui, exatamente seu desejo de ficar anônimo, escrito com palavras simples e potentes.
Que assim seja.

"Walkyria, um pseudônimo que muito me agrada é “ LUDWIG ZARCO “. Este nome tem força extrema e exprime a um só tempo intensidade e defeitos que vejo em mim identificados. 

Mais do que isso não preciso revelar a você."



Para que serve o Poupa Tempo

          Já há algum tempo, ouço falar das vantagens do serviço Poupa Tempo, sem, entretanto, valer-me de tais serviços de interesse público. Tive agora o prazer de conhecê-lo de uma maneira um tanto quanto insólita e bastante inusitada. Aproveito para apresentar-me: Adolpho Lima, como sou conhecido no mundo forense, advogado e sócio majoritário da sociedade “ Faria Lima e Rebouças Advogados”,  estabelecida na Avenida Nove de Julho, no Itaim.
      
      Pessoa muito querida por quem já me apaixonei enésimas vezes, estava precisando de uma mãozinha     para pagar o licenciamento de seu carro, o mais rápido possível, situação que era de meu total desconhecimento. Ela eu conhecia bem : Patrícia Leal. Casualmente, encontrei-a , despertando em mim de novo uma emoção enlouquecedora. Acredito que nela também.  Ficamos horas a fio,  em pé , na estação Augusta do metrô,  conversando e relembrando o nosso maravilhoso passado e, entre um assunto e outro, contei-lhe que estava sem carteira de habilitação há vários meses. Ela lembrou-me então que conhecíamos um despachante comum, talhado na solução de casos como o meu. Mas não no dela.
      
      Daí me contou que havia sido parada por um policial militar, em um comando nas imediações do Estádio do Pacaembu , para verificação de documentos e teste de seu estado para direção de automóvel . Bêbada estava, segundo ela, mas não foi esta circunstância o alvo da autuação e apreensão de seus documentos.

      Havia se esquecido de efetuar o pagamento do licenciamento de seu veículo, possivelmente por ter outras prioridades no mês anterior de pagamento e não imaginava que a falta de licenciamento era motivo de apreensão de documentos. Disse-lhe então que, por sorte, não haviam apreendido também o seu carro, como se costuma fazer, ao que ela me respondeu: “ Graças a Deus, na hora, havia uma Juíza de Direito, criando o maior “barraco”, dando “carteirada” nos guardas e por isso o policial mandou que eu fosse embora o mais rápido possível, esquecendo-se do teste do bafômetro .”

      Perguntei-lhe então:  “ E por que você não procurou o despachante para resolver esse problema e efetuar o pagamento ? ”. Disse-me  que estava sem recursos e que o despachante havia pedido uma semana para liberação dos documentos, o que daria um custo  alto e demoraria muito. Quando tivesse dinheiro, iria ao Poupa Tempo, que solucionaria o caso no mesmo dia de sua ida.

      Ofereci então para ajudá-la, tendo ela, após  certa , mas pequena, resistência, aceitado minha ajuda. Combinamos de nos encontrar no dia seguinte para retirada do dinheiro em alguma agência do Banco Itaú e após, irmos ao Poupa Tempo, na antiga Praça Clóvis Bevilacqua ( alguns identificam o local como Praça da Sé  ). Depois disso, quem sabe, almoço com vinho e uma tarde a dois.

      Em razão de compromissos profissionais assumidos, enquanto ela aguardava meu telefonema, acabei por atrasar-me e só por volta das 13,00 horas fiz a ligação. O trânsito, nesse dia, estava caótico. Ela iria atrasar-se bastante para encontrar-me. Por isso, resolvi, até mesmo por sugestão dela e contrariando meus princípios e hábitos, ir ao Banco Itaú para saque do dinheiro. E lá, no Banco, Patrícia passaria com seu carro para pegar-me. Registre-se aqui que a quantia não era tão pequena e eu, à evidência, era  marinheiro de primeira viagem, no que tange a saques em quantia elevada. Escolhi , por comodidade,  a agência mais próxima de meu escritório, ou seja, na Avenida São Gabriel, onde meus funcionários de forma cotidiana efetuam os pagamentos de minhas contas pessoais ( como pai de quatro filhos, sou escravo dos carnês e dos boletos ), além das contas de  meu escritório de advocacia.

      Por não ser um “ habitué” de agências bancárias e também pela minha cabeleira branca e idade provecta, devo ter dado mil   bandeiras, enquanto estava na fila e depois no próprio caixa.  O funcionário do Banco pediu-me que recebesse o dinheiro, que não era pouco, num local interno da agência, para onde me dirigi. Qual não foi a minha surpresa, quando uma mulher, agente de segurança do Itaú, pediu-me que não saísse logo porque havia um motoqueiro na fila que inspirava desconfiança e que nunca havia sido visto naquela agência. Uns quinze minutos após, saí, encontrando-me no saguão da agência com Patrícia, que tinha ido a meu encontro. Ela  havia estacionado o carro no estacionamento ao lado  do Itaú . Nesse momento, veio a segurança  dizer que o “motoboy” havia saído da fila e ido embora. Patrícia disse-me que cruzou com tal motoqueiro, com cara de malandro, ao entrar na agência.      

     
Decidimos mesmo assim sair, pegarmos o carro no estacionamento ao lado do Banco e irmos logo ao Poupa Tempo porque já passava das 14,30 horas. Ao sair do estacionamento e ingressarmos na Avenida São Gabriel, vimos a uns 50 metros adiante o referido “motoboy” e uma motocicleta parada em frente a uma Padaria próxima -  que, diga-se de passagem, faz o melhor sanduíche de mortadela de São Paulo . Apesar de o carro em que nos encontrávamos ter vidro escuro , tão logo passamos em frente ao “motoboy”, ele montou na moto e veio em nossa direção. Seguimos pela São Gabriel e não viramos à direita na rua Itacema, como seria o mais lógico . Ele vinha nos seguindo. Resolvemos então entrar na rua Jesuíno Arruda . O rapaz da motocicleta, com capacete e traje de “motoboly” também entrou na Jesuíno Arruda, mantendo uma pequena distância de nós. Sua moto era preta, assim como sua vestimenta e capacete.  Pelo retrovisor  íamos observando o possível assaltante, que, ao que tudo indicava, estava esperando a oportunidade para abordar-nos, começando a correr a adrenalina em nossas veias. Embora apreensivos, estávamos vivenciando uma cena de aventura , em um pequeno trecho de ruas , em  nossas vidas . Com bastante emoção, embora num curto trajeto.

      No cruzamento com a rua  Renato Paes de Barros, decidimos parar em frente à Delegacia que ali está localizada. O  possível gatuno, por sua vez, virou à esquerda na própria Renato Paes de Barros, mas parou na esquina com o motor ligado, como vimos assim que descemos do carro. Entramos então num Posto de Atendimento da Polícia Militar, acoplado à Delegacia, e dissemos que havia uma motocicleta suspeita nos seguindo e que estava encostada agora ali na esquina. No mesmo momento, uma policial militar perguntou :   “ É uma moto preta, dirigida por um rapaz todo de preto? “.  Com a nossa confirmação, dois policiais, que também estavam no Posto de Atendimento, saíram correndo, com os revólveres em punho, com o objetivo de alcançar o referido meliante. Enquanto corriam pela Renato Paes de Barros, a policial atendente nos informou : “ Com certeza vocês foram sacar dinheiro no Banco Itaú da São Gabriel.

Suspeitamos que há um caixa  do Banco,  mancomunado com esse assaltante, da moto preta. Já recebemos inúmeras queixas de assaltos após saques nessa agência. Infelizmente, ainda não conseguimos pegar o motoqueiro para que ele abra o bico e nos conte quem é o caixa bandido. Já temos a agente de segurança nos auxiliando e que já desconfia de alguém. Mas por enquanto não acusou ninguém porque não tem prova. Assim que pegarmos o motoqueiro, vamos fazer ele entregar o serviço”.
   
      Alguns minutos depois chegaram os dois policiais esbaforidos e bastante cansados. Haviam corrido até a rua  Joaquim Floriano, atrás do motoqueiro, sem sucesso. Pudera, um dos policiais era bastante gordo e o outro tinha cara de anêmico e subnutrido. O drible do ladrãozinho era inevitável nas duas jocosas figuras.

      O motoqueiro sumiu do mapa. Os policiais  gentilmente nos escoltaram até o meu escritório. Se não tivéssemos parado na Delegacia, certamente seríamos assaltados uma vez que, naquele dia, houve o maior congestionamento da história. Da Delegacia até meu escritório, são poucas quadras. Entretanto, levamos mais de uma hora para chegarmos, com escolta e tudo, inclusive sirene em um dado momento. Certamente, foi a única boa ação daqueles policiais naquele dia, malgrado o trânsito infernal.
      
            Por isso, deixamos o Poupa Tempo para o dia seguinte, quando a novela prosseguiu.

Patrícia não dormiu direito naquela noite. Segundo me disse, por volta das onze e meia, quando me ligou, “  tinha sentido muita emoção no mesmo dia “. Sua cabeça estava um verdadeiro redemoinho, com muitos relampejos e sensações boas e ruins a um só tempo. Decidimos então postergar o Poupa Tempo por mais um dia e trocarmos a ida por um bom bate papo acompanhado de cerveja em um boteco conhecido. Foi uma delícia! Uma tarde inesquecível!

Voltemos ao Poupa Tempo. A quantia necessária ao recolhimento das taxas de licenciamento do carro já estava com Patrícia desde a hora magica da escolta policial. Não costumo e não gosto de carregar pacote de dinheiro e , no caso,  havia muito dinheiro em notas de vinte reais.

Chegamos ao Poupa Tempo por volta das 10 horas da manhã. Demoramos mais de uma hora para ser atendidos, apesar da fila preferencial aos sexagenários.. Esclareço:  tenho mais de 60 anos. Patrícia é bem mais moça, não tendo chegado nem aos cinquenta. Ainda falta muito.

A funcionária que nos atendeu, perguntou-nos, antes de mais nada, se tínhamos cartão de débito do Banco do Brasil, sem o qual não poderia ser aceito o recolhimento. Patrícia indagou então se não era possível o pagamento em dinheiro. A funcionária disse que sim, mas questionou: “ Vocês não tem todo esse dinheiro aí com vocês, aqui  na Praça da Sé ?  “. Na verdade,  Praça Clóvis Bevilácqua, onde a agência de atendimento se situa, no meu entender, repita-se. Quando dissemos que sim, ela retrucou espantada: “ Mas não é possível, é muito dinheiro ! “

Patrícia retirou de sua bolsa a totalidade da quantia necessária. A funcionária, ao ver aquela quantidade de notas de cinquenta e vinte reais, coçou a cabeça, com cara de poucos amigos e falou : “ Vai demorar para eu contar todo esse dinheiro. Vocês não estão com pressa, estão ?”. Para não discutir, já que passava das onze e meia, saí de perto e fui andar um pouco, deixando Patrícia ali no caixa do Poupa Tempo com a funcionária Valderice , como li na tarjeta enganchada em sua blusa.

Valderice, conforme contou a Patrícia, enquanto checava uma a uma cada nota , só tinha sido contratada naquele mês, não tendo muita familiaridade com contagem de dinheiro. Perdia-se na contagem e na checagem inúmeras vezes, recomeçando tudo de novo. Patrícia, por seu turno, resplandecia felicidade e seus olhos verdes estavam iluminados. Como a vida de cada um revela momentos singulares. Andava eu de um lado para o outro, impaciente e com minha carga de tolerância quase a zero e só me acalmava quando notava o semblante de Patrícia, naquele momento. Para mim, já estava achando que aquilo não ia acabar nunca e o mau humor já  me consumia a cada minuto ali vivido  . Era uma e meia da tarde e a contagem ainda não tinha chegado a seu fim .

” Por que tinha que ter ido acompanhá-la ao Poupa Tempo, se tinha uma série de coisas a resolver em meu escritório ? “ perguntei a mim mesmo, morto de fome .

 “ Por que o Poupa Tempo não tem máquina apropriada para contar dinheiro para tornar ágil o atendimento aos cidadãos que dele precisam ? “, pensei.

Observei então que as pessoas que vão ao Poupa Tempo são resignadas e quase todas, sem exceção, tiram o dia para solucionar lá apenas um único problema documental. Licenciamento de veículo de padrão superior, como era o caso do carro de Patrícia, quase nunca chega ao Poupa Tempo. Licenciamentos similares são serviços de despachante. Nós estávamos contrariando o cotidiano do Poupa Tempo e por isso me senti um intruso naquele território.

Saímos de lá, quase às três horas da tarde, após o pagamento de todas as taxas necessárias e desmembradas para recolhimento, uma a uma. A máquina registradora do Poupa Tempo não aceita recolhimentos acima de cinco mil reais de uma só vez, como era o nosso caso. Falo nosso caso porque me senti nessa situação toda, como se estivesse tratando de uma questão comum a Patrícia e  a mim.
As pessoas precisam muito do Poupa Tempo, como concluí. Contudo, o Estado prestador de serviços precisa aprimorá-los para melhor atendimento e para que efetivamente cada cidadão ganhe tempo , dirigindo-se àquele órgão. Cinco horas para regularização e pagamento de taxas de licenciamento de veículo é simplesmente um absurdo !

Absurdo ou não, saímos após andando pela Praça da Sé e entrando na Catedral, a pedido de Patrícia. Fazia mais de trinta anos que não entrava naquela igreja. Não consegui rezar nem uma Ave Maria sequer porque simplesmente não rezo. Patrícia rezou contrita e espelhava uma alegria imensa quando saímos da Catedral. Fomos até o Metrô juntos e de braços dados. Beijamo-nos calorosamente quando nos despedimos. Ela tomou o trem para a Vila Mariana. Eu para a Praça da República, que não era o meu caminho para o escritório mas que me permitiu ir para o Bar da Dona Onça, onde almocei pensando em tudo que vivi naqueles dias.

Não vi mais Patrícia. Ela não me ligou como havia prometido. Eu não lhe telefonei. Sinto uma saudade louca, mas meu orgulho não me permite procurá-la. Talvez ocorra o mesmo com ela.

Quem sabe !?!...

PS: Esta história é apenas ficção. Qualquer semelhança com fatos reais vividos por alguém é mera coincidência.

São Paulo, 18.6.2011. Escrito num dia de ócio total .
 
   


 

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