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terça-feira, 7 de outubro de 2008

ANOS 60 - Walkyria Suleiman - NININHA

...
VIOLENTOS ANJOS
1968
E os ventos que sopraram
Me fizeram lânguida de ternura
Os ciclones levaram minhas bicicletas da infância.

E eu não tenho nem céu­
E eu não tenho nem jeito
E eu não tenho nem saudades
Eu me esfolo em joelhos alheios
E fico por aí sem reclamar­

Violentos anjos em seus aviões


OUTRO JEITO
1968
A manhã acontece de outro jeito.
As coisas são estranhas pra quem se estranha.
Deve estar muito perto,
Mas a distância se perde.
Eu não sei o caminho.
Me perdi em sorrisos alheios,
Na solidão de outros.
Reconheço os ruídos,
E eles não me são familiares.
Me encarno na tua dor,
Me encontro em corpos diferentes,
Sólidos, frágeis.
De pedra ou de água?
Somente você.

Pra que viver?
Não sei de onde venho,
Venho de um corpo,
Ou venho de um cultivo de longe não identificado?
Uma obra de conseqüência,
Um amor apaixonado,
Um sonho vadio,
Ou de algum laboratório germinativo?
Tudo é tão vago.

Minha espera,
O meu grande pensamento,
Está por vir.
Os acontecimentos não devem esperar.
Todas as grandes mensagens,
Precisam sentir que existe um além.
Muito além do infinito da folha de outono
Que os meus olhos perseguiram.
E o inverno engoliu.

Espreito sem medo,
Sem você,
Sem dor.

Ninguém me ouviu.
O mundo dormia.
O amanhã acontece de um outro jeito.


A ESCADA
1969

Começa no chão,
Vou subindo pelo friso
No rodapé
Na parede
E não há nada nela.
E meus olhos se perdem.
O frio é muito
E eu tremo um pouco.
Talvez... seja de medo.
O vento bate de leve
Tão de leve como minhas palavras.
Meu coração bate forte quando penso em você.

E eu começo no chão
No rodapé
Na parede.
Encontro pedaços coloridos da minha vida.
Do outro lado, um espaço branco
Tão cheio de preguiça.

É inútil falar ou insistir.
Eu falo, grito, choro... e
Pra me entender,
É preciso sentir como eu.
E quem sente assim. . .
Eu os perdi pelos caminhos.
E eu choro sem choro sem lágrimas.
As pedras da minha solidão
Cada vez mais me encurralam.
Talvez eu quisesse sair
Mas quanto mais penso
Mais me isolo.

Agora eu vejo que nunca pensei.
E agora, agora eu penso tanto
Que meus pensamentos se confundem.
E sai isso.
Uma boiada de palavras gravadas nessa folha
Que me implora por não rasgá-la.
São palavras soltas, presas dentro de mim.
E agora, me explica por que: porque você não volta.
Eu olho o chão
Subo pro rodapé
A parede
A janela
E vejo as estrelas.
Quanto mais as olho
Mais choro.


DISTÚRBIO
1969

Hoje eu me sinto como a menina
Que viaja pela primeira vez num ônibus.
Eu sou uma turista do ônibus da vida.
Que me leva pelos caminhos mais escuros
Pelas trilhas mais abertas
Pelos sorrisos mais cobertos
Da dor do mundo que carregam.
Pela solidão que descarregam.

Você me entende?
Entende que eu o amo?
Vivendo o passado
Eu te gosto.
Te gosto pelo teu jeito de ser tudo
No meio do meu, do teu
Do nosso nada
lncomensuravelmente grande, imenso.

Mas meu ônibus partiu.
Ouvi,
Por entre gritos de alarma
Por entre perdões
Por entre tiros de canhões
Meu pai me chamar: «vai perder o ônibus».

Eu amei você e o estágio.

Mas eu dependo do todo,
Deles vazios e complexos.
Parti.

Agora já é diferente.
Afinal com muita honra
Sou diferente em grandes detalhes.
E agora sou dona do mundo.
Nessa sala escura
Onde não vejo uma linha por onde escrevo.
Mas vejo por essa janela de vidro
O brilho de meus olhos
Até então opacos e baixados.
Vejo lá fora no céu uma estrela. Só.
Milhas de luzinhas de janelas
Que num lindo compasso
Acendem, escurecem, apagam, morrem.
Gente que entra gente que sai.
Gente que encontra que sofre.
Que faz amor, que se engana.
Que canta, e que espanca.
E é nesse instante que mais ainda
Me sinto dona do mundo.
Do mundo a que você pertence
E sendo assim, tem que me amar.

Agora já é tarde.
A última luz se apagou.
O homem volta pra casa.
O menino acorda e se sente sozinho.
E você se mata.
Sem ninguém.

Só sobrou uma estrela cadente.
Ela vai caindo, caindo
E inesperadamente cai em mim.
Estraçalha-me.
Dilacera-me.

Meus restos flutuam no espaço.
E se chocam com naves espaciais
Danificando-as.
...
...
LONGE
1969
De longe, vem o barulho
De mais longe ainda
O vento quente de Roma
Traz lembranças
Uma foto
Um cigarro já fumado
Palavras
No cinzeiro, cigarros apagados
E toda a minha solidão.
Seu rosto. . .
Saudade. . .
Outro cigarro
Agora mais sozinha.
Na fumaça, seu rosto
Se abro os olhos, escrevo você
Se fecho, vejo você
Se durmo, sonho você
Voltar, é remoto
Ficar é triste
Sem você, o tempo não passa
Tudo é vazio
O tudo se perde
Com você, nosso amor se perdia no tempo
Agora, o quarto, sua foto, o cigarro
A linha de fumaça, o vento, o barulho
Passam depressa

Eu estou calma e a vida corre
Uma vida inteira... Quebrada
Do agora, não sobrou nada
A não ser pedaços
De você
Do tempo
Do passado
DO TUDO
Do tudo de tão pouco espaço
Tão pequeno. . .
...
...
VAZIO
1969

Meus olhos estão olhando o vazio
Vazio sem destino, sem direção
É a imensa espera do inesperado.
Eu me sinto fraca e sozinha com a lembrança desse amor
Agora que acabou
Parece que nunca existiu.
Há em tudo que acaba, uma sombra do impossível
É como a flor que foi arrancada
E morre num vaso
Sem cor, sem lugar
Sentir esse gosto de eterno e inacabado
É horrível.

É sempre nessa hora
Que não é manhã nem noite, nem tarde
Que a tristeza vem escurecer minha alma
E clarear meus olhos
Com o brilho das lágrimas que não existem.

Nada tem razão
Nada tem condição
Eu vivo como uma incógnita
Que não consegue ver e ouvir tantas coisas
Que não tem sentido de ser
Vem chegando gente de todos os lados
Lados de gente

No meio nada
No fundo nada
No coração ódio.
A vida é um imenso nada
Embora eu goste dela
O mundo é todo mentira
Conversas que não se acabam
Frases cortadas
A calma de um olhar sem paz
A falta de esperança de um sorriso franco.

Agora, olhar a manhã, sonhar com a noite
E morrer com a tarde enquanto for cedo.

Ontem eu implorei que o sono viesse
Tive o medo criança da decisão
E abri a janela e gritei ao sono que viesse
E passei a noite acordada
Hoje eu tenho sono
E ouço passos sonolentos
E vejo rostos sonolentos
Sinto o sono e a displicência do mundo
Do mundo que dorme
Enquanto um anjo pinta o céu com cores de paz
Pra que o sol nasça.
O sol que se recusa a dar a luz
Pra que os homens se ofendam
Se agridam.
Pra esse mundo que se cobre quando chove
E as gotas fazem música de paz lá fora.
É bom sentir o sempre eterno dentro de mim.
Mas só eu o sinto
A manhã chega
Machucando meus olhos cansados
Todos vão embora
Eu levanto, abro os olhos
E estou sozinha.

Agora o que me resta de vivo
É a vontade de te ver
De te abraçar
Mas não sei onde está você
Seus olhos, sua alma
E esse vivo morre
E eu fecho o caderno
A caneta em cima
E vou embora

Vou tentar falar num mundo de surdos

Bem longe
A última folha cai, da última árvore
Do meu primeiro mundo.
...
...
DENTRO DA CASA
1968

Na casa grande
Os barulhos se confundem
Lá fora
A chuva fina cai
E os barulhos da cidade
Se misturam com a canção da chuva
Nada penetra na casa
Nem o vento
Nem a chuva
Nem o amor
E eu sofro pela paz
...
...
TRISTEZAS
1968
É um nada muito grande
É uma das minhas tristezas que vem chegando
Eu sei, eu sinto
É tão noite e eu queria você aqui
Na minha casa, na minha cama

Mas que adianta amá-lo?
Tê-lo...
Ter, não ter, não ser

Tenho saudades dos seus olhos
Dos tempos de domingo
Na praça, das conversas na praça
Saudades do sol que desapareceu
Agora só tem rosto pra colar no vidro frio
Da janela fria, da tarde fria
E lágrima de chuva pra escorrer no vidro frio
Com pena da lágrima quente que escorre quente
Nos olhos quentes

Ouço seus passos ecoando na minha cabeça
Sua respiração, seus olhos
Seu corpo palpitando no meu sangue
Choro e só você me compreende
Me abraça, me beija
E eu durmo,
Enquanto você me protege.
...
...
PEGADAS
1969
Sinto escorrer como o orvalho desta noite
Minhas vontades e sentimentos.

Tanto tempo que passou
Tanto tempo que vi perdido
Tanto tempo que virá
E que humildemente digo que não sei.
Às vezes mulher, às vezes deusa ou criança
Eu chorei.
Sentimento velho, calejado
Lágrima de pássaro.

Persigo a imagem nunca achada
Procuro a mão que busquei
E que se perdeu na distância.
Carrego sonhos que absolutamente não são meus
Sonho com a paz, eu que faço a guerra
Quero e falo do amor
Eu que nunca amei
Canto a canção sem saber seu nome, seu autor

Sou cantor.
Procuro por entre meus passos
Pegadas do teu corpo que desejei caminhar.
...
...
INTRUSA
1969
Essa pessoa que não reconheço
Me guia pelas tardes da minha vida
Meus amigos tomaram caminhos diversos
Já li todos os livros
E os dias vão se empilhando
Sem emoção a uni-los.

Minhas maneiras estão minguando
Conforme passam os anos
Essa pessoa me diz
Que antes a vida era cheia de truques
De modos que invertiam
Embrulhavam e mudavam a realidade.
Parece tudo tão irremediavelmente perdido
Morto cremado
Sem túmulo
Essa prova concreta
Daquilo que nos abandona
Inopinadamente.

Sem bússolas
Sem túmulos
Sem cordão umbilical
Será que essa pessoa existiu?
Mas então
Que dor é essa no meu peito
Como se ela estivesse ali
Roendo
Lutando
Tentando encontrar uma brecha por onde escapar
Ô meus Deus
Que dor é essa?

Quem é esse alguém que invade meu quarto
E me sacode com seu riso?
Que caminhos são esses que fogem dos meus pés
Que fazem as pessoas rirem divertidamente
Enquanto eu, como uma equilibrista
Corro atrás deles
Desajeitadamente envergonhada?
Quem sou eu afinal
Que não me reconheço
E que fico por aí tropeçando em mim mesma
Embebedando a vida
E me desculpando por tudo?

Só me lembro que um dia
Eu quis ser vendedor a de pipoca na praça
Hoje, se essa invasora me fizesse a pergunta
Eu saberia o que responder.
Quando crescer
Eu quero ser uma criança.
Posso?
...
...
NOITE ANTIGA
1969

O manto negro se pregou sobre a cidade
Com estacas de solidão
A noite chegou
A noite cheia de fantasmas
de fatos vadios, passados.

Noite que chegou sem estrelam no peito do poeta
Que chegou vermelha no peito do guerreiro
Noite antiga
Constante.

Os grandes espaços me perderam
Me sugaram dentro da noite
Como se ela fosse subúrbio
Ou canais subterrâneos do dia.
...
...
MEU AMOR
1969
pro mário

Amor que densamente ecoa em meu peito
Que lentamente me toma
Que foi tecido com as cores da manhã.

Penso às vezes se é forasteiro
Mas o certo é que invade.

Talvez quem saiba
E é quase certo
Que tenha entrado e gostado
E se instalado no aconchego
Do meu carinho farto.

Guardado como tesouro pirata
Como a boneca mais cobiçada
Como o sonho mais acalentado.

Esse amor inextinguível
Ás vezes me olha com olhar de dono
Pra depois me acarinhar
E comigo dormir no infinito do outro jeito.

Longe
Bem longe
Onde os motores não sabem caminhar.
...
...
EDUCAÇÃO
1968
Me disseram um dia
Que existiam as casas grandes
E as casas pequenas
E eu olhava as árvores e compreendia.
Disseram que haviam os pobres e os ricos
E eu achava que na casa pequena
Um pobre tinha mesmo do que eu
Mas que tinha.
Me ensinaram a sorrir conforme a ocasião
Assim como usar a roupa conforme a ocasião.
Me ensinaram a ser boa aos domingos
E a achar abominável a segunda-feira.
Me ensinaram a dar
Sem quere receber nada em troca
Mas trocando sempre conforme as necessidades.
Disseram o quanto era feio dizer palavrões
Mas explicaram-me
Que existiam palavras mais doces
Que amargavam a alma mais sutilmente.

Me ensinaram a dizer bom dia,
Estimo as melhoras
Meus pêsames.
Me falaram que não devia colocar o dinheiro em primeiro lugar,
Mas que sem ele
Não existiria a felicidade completa.
Me ensinaram a dizer te amo,
Mas disseram também
Que isso eu aprenderia mais tarde
Que por hora
Devia-se apenas decorar a frase.

Me ensinaram as leis
Me mostraram os códigos
Me falaram dos preconceitos
Me ordenaram as instituições
Me contaram das guerras
Me lavaram de dor
Me lacraram a cor
Me selaram a posse.
Me mataram sabendo
E eu morri sem saber.
...
...
VIDA
1968

Tenho querido pequenos e próximos objetos
Tão imediatos
Que amanhã já sei que dançarão.
Essa disponobilidade
Me dá uma grande força.
Afinal
Não é desse modo que se ama
Que se bate
E se reclama?
Ah vida.....
Te quero tanto e quanto
Te abraço assim, mansamente louca
Discretamente apaixonada.
Vida vem
Vida vinha árvore minha.
Deixa eu desejar!
...
...
ESTILHAÇOS
1969

O que eu pensei ser
O que eu não soube ser
Um pouco do dia-a-dia
Tudo isso
E todas as dores.

Hoje eu me vi sozinha
Sentada e encolhida
Sem me haver sentado
Sem sentir que a vida foi me encolhendo
Como um trapo
Esquecido num varal de uma casa abandonada.

Eu, de todos os dias impossíveis
Eu, que amei loucamente as coisas possíveis
Me cansei dos dias
Me fartei incrivelmente das coisas.

Quis escrever sem saber ao certo
O quê
Quis viver
Sem saber
Como
Me procuro
E o endereço foi me dado errado.
Tento o telefone
E ele não atende.

Como as ruas se cruzam
Como existem portas inatingíveis.
Existem coisas solúveis e insolúveis,
Existem idealistas e conformistas
E eu,i dealista insoluvelmente solúvel
Não me conformo.

Me cortaram as pernas
Surgiram outros caminhos.
Me amputaram as mãos
Queimaram meus livros, meus papéis.
Arrancaram-me os olhos
Tiraram-me o vermelho da aurora
Minhas estrelas
Teus olhos meus...
E a gora tenho palavras
Amontoadas
Montanhas delas
E eu sobre elas procurando palavras para dizer.

Eu dos mil dotes
Eu que nunca fiz nada certo
Eu que tive tantas certezas....
Palavras, mas o quê falar?

Quando puder dizer o que quero
Já não sentirei o que penso.
Quando tudo puder ser
Eu não serei mais.
...
...
SÁBIA DECISÃO
1969
Na véspera do que não serei
Tomo a decisão:­
Amanha resolverei tudo!
No dia que já não sou,
Me decido:
Amanhã me procurarei.

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