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segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Ensaio Sobre a Cegueira

Alguns filmes despertam mais o mecanismo pensante das pessoas que outros, e ainda têm a capacidade de gerar pensamentos e opiniões completamente diferentes, o que não as torna contraditórias. Se não fosse por nada, o filme Ensaio Sobre a Cegueira já teria, nesse sentido, um mérito reconhecível.

Por outro lado, alguns comentários me fazem crer que eu assisti a outro filme, e são a eles que me prendo nessas linhas.

A filmagem é divina, misturando metrópoles diferentes, sempre com a mesma tônica silenciosa e distante que as grandes cidades passam quando vistas de uma janela, ou de uma sacada. É como se vida fosse vista do terraço do nosso coração. Sempre o personagem da janela mostra esse distanciamento melancólico da realidade, enquanto aspira estar nela. Gostei bastante também da cor branca para a cegueira, que foi muito comentada, mas que eu vejo de modo totalmente diverso. Aquela cegueira branca me remeteu imediatamente à gestação, a um útero onde não vemos, ouvimos ou falamos senão através da gestante. Toda a filmagem tem um tom leitoso, e muitas vezes tive mesmo a impressão, de vê-los envolvidos num imenso mar de leite. Nesse sentido não somos cegos, mas estamos como que aguardando o momento em que abriremos os olhos. Mas para tal, a gestante tem que se permitir esse nascimento.

O roteiro, a direção, a fotografia, tudo nota máxima. Bem feita, tocante, irrepreensível. Mas faça-me o favor, é um argumento no mínimo velho e tendencioso. Fiquei pensando com meus botões, que ainda bem que nenhum cego pode ver este filme. Considerar que a cegueira gera aquela imundice e devassidão, é uma inferência muito séria, para não dizer leviana. Se assistirmos a um filme que se passa numa prisão - tipo terceiro mundo, ou num manicômio -, as imagens seriam as mesmas. Como inferir assim que uma deficiência física possa ser levada a tal termo? Bem, tudo muito é discutível, mas se eu fosse cega não gostaria nadica de nada dessa leitura.

E como explicar que o cast principal, apesar de cego, esteja sempre limpinho, bem arrumado e antenado? O que eles tinham de melhor que os outros? Seria o cachê? Entendo que o argumento é que uma mudança - ainda que pequena - em nossa fisiologia ou psique, poderia alterar a vida tal qual a conhecemos. Mas sinto muito, qual a novidade? E por que a gracinha de fazer um grupo multiracial?

Não consigo ver o personagem da Juliana Moore como o feminino que salva a espécie humana. Ela começa como uma dona de casa fazendo sobremesa francesa pro marido, com roupinha de moça do lar e argumentação de - “sossega querido, amanhã será outro dia”, pro maridão. Depois entra na ambulância, tipo protegendo a prole - nem é impedida pela autoridade, o que já não convence muito. A partir disso, ela fica a dona da bola, com justiça por sinal, por que além de pode ver, ela ainda entende a lei de Darwin, onde sobrevive o mais forte. Assim que deixam o abrigo, guiados pela vidente do grupo, esbarram em outro grupo formado por jovens. Nossa heroína mostra os dentes como uma loba, marcando território e afugentando qualquer valentão. Logo mais no super-mercado, quando ela descobre o mapa da mina, tenta sair furtivamente para levar sua caça à matilha cega, e ajudada pelo marido cego, consegue deixar a loja com sua “presa” garantida. Já na rua, vê um confronto entre idosos e crianças. Passa sorrateira, livre de qualquer responsabilidade ou compromisso, a não ser com os seus.

Então é isso? Qualquer situação ameaçadora é justificativa para agirmos de modo desumano e sectário, como aliás é a justificativa dos torturadores, dos julgados em tribunais especiais, e de governos ameaçados, para falar de alguns poucos? Essa tendência a formar grupos deve ter sido forjada na espécie humana em épocas pré-históricas, onde ficava evidente que os organizados sobreviviam aos solitários e desgarrados. Mas de lá para cá, já rolou muita água e muitos séculos. Hoje, estudiosos, pesquisadores e simples mortais, identificam que os laços criados com as pessoas, através do amor e da compaixão, podem superar catástrofes de qualquer ordem.

Ao final do filme ficou a impressão de que ela estava muito à vontade em seu roupão branco, dando as cartas para seus subordinados. Ela virou não somente o cabeça do casal, como também a comandante em chefe daquele pequeno grupo.

Quando ela percebe que um dos homens recupera a visão, ao invés de procurar seu marido, ou qualquer outro do grupo, ela corre para a sacada, e de novo vemos a melancolia daquele que está apartado do real. Mas que real? Ela não comemora a visão restituída. Ao invés disso, metaforicamente diz que está ficando cega.

Será que está aludindo ao fato que ela perderá seu papel de líder?
Será que invoca a sua condição anterior de dona de casa?
Não sei, isto não está claro. Mas está bem evidente que ela não fica nem um pouco feliz com a nova situação, sendo que segundos antes, está toda lépida sugerindo a pauta da reunião que quer ter. A pauta era alimentação e segurança da casa, argumento nada humanitário ou abrangente.

Não vi em nenhum momento do filme a mínima preocupação com a humanidade em geral ou em particular. A única preocupação era a sobrevivência. Nesse sentido a pergunta que fica na minha alma é: como eu reagiria numa situação desta? É verdade que a ocasião faz o ladrão? E como ficam os princípios e ideais que norteiam a nossa vida?

Não sei responder a essas questões, pois acredito que, apenas no limite provamos nosso código moral, ou princípios, ou normas de conduta.

Foi o que foi mostrado: um grupo de pessoas, numa situação ameaçadora, lutando sem critério algum por sua sobrevivência. É a velha pergunta de alguns estudiosos do ser humano. Temos uma natureza benevolente e amorosa, como sugeriu David Hume no século XVIII, ou Humberto Maturana neste século, ou ficamos com a grande influência de Thomas Hobbes, que acreditava que a natureza humana era violenta e cruel?
Perguntas que podem ser respondidas apenas dentro do coração de cada um.

Quem sabe, esse caráter tão subjetivo do tema do filme, Ensaio Sobre a Cegueira, possa ter sido o catalizador de compreensões tão adversas como as que tenho lido, ouvido e sentido.

David Hume, Filósofo do século XVIII
Thomas Hobbes, Filósofo do século XVI
Humberto Maturana, biólogo

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