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terça-feira, 28 de outubro de 2008

SALMO PARA UMA AMIGA POETA

Para a dor da poeta Ana Luisa Peluso

Não são todas as estradas que vão dar no sol.
Há nuvens que nos desviam dos endereços íntimos.
Claras são as mensagens, mas não vemos o que precisamos ver...
Vemos só o que queremos ver.
(O que sentimos daquilo que vemos?
O que avaliamos daquilo que pensamos sobre o que vemos?)

Temos os lírios brancos e os campos de lavanda, e o que vemos?
Os gravetos, as pegadas na terra, as sombras.
Olhamo-nos, e não nos reconhecemos.
Em que Sala de Espelhos deixamos os nossos versos mais cândidos?
A poesia pode ser uma janela - um respiradouro.

Escrevo porque não sei me matar.
Na dor, dou testemunho de meu cálice transbordando.
Olho-me, e não me reconheço em mim.
Mas sinto algo-alguém acima de mim.
Quem realmente vela o meu pesadelo?
Aquele que anda nas nuvens e incendeia os oceanos.
Aquele que coloca rímel na minha tormenta ácida.

Vejo passos na linha do horizonte.
Cortam-me as esperanças, mas eu me fermento entre avencas
Arrancam-me as mãos mas eu escrevo na parede de um silêncio tácito.
Não quero ser vencido pela dor,
pois meu criar arranca as sandálias das minhas abstrações
e me faz voar acima de águas límpidas.

Que sal há nas lágrimas? Faço saladas de sonhos.
Que açúcar meu olhar desata?
Faço cadarços para vôos além de arrebentações.
E quando o vinagre de meu corpo sai como quireras líquidas,
junta formigas para irem distribuir realidades paralelas no meu Eu de mim.

A morte não existe, então por que deixar que ela vença?
Que sabedoria é o amor que tange, marca, mutila, preda e engessa hábitos torneados em dialéticas de ausências?

Tenho caravelas paradas no porto,
e caravelas não foram feitas para encalhes de marés.
Há um sextante no mais alto altar de minha espiritualidade
E eu só caminho peregrinador,
pois sei que água parada atrai tempestades em corpos estranhos.

Viajo-me no criar.
Alimento-me ostras de outras dimensões-travessias.
Visto-me de um cacto rosa, e no quartzo-róseo de meu íntimo,
procuro flores murchas em saídas de emergências.
Descanso o pulso do meu lado Sentidor,
em diálogos com amigos e irmãos secretos.

Dispo-me de amarguras e melancolias
E escrevo salmos-mantras-banzos-blues
Contemporâneos - como um cinzel na minha alma pisada
Só que eu bem sei
Que quando amanhecer um Sabat qualquer,
sabendo que meu reino não é desse mundo
Darei manjar de framboesas silvestres aos anjos
E a groselheira seca de minha alma reviçará
Pois é o espírito que ama o espírito

E depois de todas as cisternas, desertos, ilhas,
cimitarras, maus pensamentos e butins
Ao religar-me com o Criador, na prece pré-auroral
(frente a um tentativa de abismo)
Ele me levantará de mim mesmo,
de minha nudez de dezelo atribulado
E me lavará de todas as atribulações humanizadas

Porque "O Que Fez" é a minha rocha
E eu sou apenas uma migalha de sua luz,
honra e busca
Para sempre.

Silas Corrêa Leite

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