.

.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Alcione Araújo

Falar em mentira exige de imediato falar de verdade, que é inacessível. Restam-nos as migalhas das versões. Posto de outro modo, vivemos muitas mentiras, que são essenciais.

O esquecimento é uma suave mentira que move a vida:
nos esquecemos de que vamos morrer porque a espera da morte nos paralisaria. Também esquecemos quem somos: me sepulto nos meus recônditos tão profundamente que preciso de um psicanalista para ajudar a me desenterrar. Se me olho ao espelho e pergunto quem sou eu, não consigo responder.

Quando Édipo quer saber quem de fato é, Sófocles o pune com o horror trágico. A cultura social me impõe papéis que são mais necessidades dela do que minhas, e eu os represento. A ficção é uma mentira que o meu imaginário quer acreditar porque, insatisfeito na moldura estreita da minha vida pessoal, quero ser muitos outros, adquirir vivências do que não vivi nem viverei.

Enfim, no limite, a vida é um constructo da cultura - apenas o nascimento e a morte são realidades, e há controvérsias sobre a existência de uma essência humana: somos superposições de camadas como cascas de cebola.

Alcione Araújo

Um comentário:

Chris Mayer disse...

A vantagem, de se ter noção dessa existência tão sem verdades, é que nos traz uma imensa liberdade de escolha. A escolha de qual verdade queremos viver. Inclusive a verdade de nossos sonhos e personagens.


voltar pro céu