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sábado, 23 de janeiro de 2010

Em defesa própria

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Desde que nascemos vamos desenvolvendo,
cada um a seu modo,
os mecanismos que nos defenderão do mundo,
das pessoas,
da dor, da solidão.

E assim uns são mais agressivos,
outros apelam para a chacota,
tem gente que tem a língua afiada,
tem gente que chora, se ofende, ignora.

De um modo ou de outro vamos aprendendo
a usar a ferramenta certa para nos sentirmos protegidos
dos ataques que o mundo nos faz.

Que faz à nossa forma física,
ao nosso intelecto,
à nossa condição social,
à nossa liberdade e alegria, enfim,
com o tempo ficamos realmente craques na defesa.
E ficamos tão craques que temos respostas prontas
para cada tipo de agressão que sentimos,
e até já ficamos prontos para as agressões que apenas pressentimos.

Nesse campo de guerra crescemos,
aprendemos o que é pai e mãe,
irmãos e amigos,
aprendemos a dividir, a temer,
aprendemos finalmente o que é o amor.

E o que é o amor?
Não sei, mas vejo passar as imagens na mente,
e vejo mesmo quantos atos desvairados,
quantas pedras atirei,
quanto sofrimento infringi e fui protagonistas
em legítima defesa.

Fui treinada por meus pais para a defesa,
pois eles, como todo pai e mãe,
têm muito medo que sua cria seja machucada.
Depois me sofistiquei e adquiri armas jamais sonhadas,
armas que usei contra eles inclusive.

Nessa defesa própria,
na própria defesa de quem sou,
do que tenho por dentro,
me perdi nas barricadas.
São montanhas intransponíveis,
são desertos minados,
é uma vida toda na defesa
de um território jamais conhecido,
tão ocupada estava em defendê-lo.

Mas então, tem certas manhãs que me esqueço disso,
e entro feliz por essas portas.
E lá tem rios cristalinos, e sons envolventes,
e espaços infinitos para serem vistos e habitados.
Tem noites que sinto o cheiro do escuro,
me esqueço dos fantasmas,
entro nos castelos frescos do meu coração.
Tem sorrisos, tem pessoas,
tem toques que me chamam de mansinho em meio a imensidão.

Então eu penso.
E se eu simplesmente mudasse a premissa,
o pressuposto,
o paradigma?
E se eu não tivesse que me defender de nada,
de ninguém,
em tempo algum?

Que pessoa brotaria por debaixo das minhas armas,
da minha educação,
cultura e modo de vida,
armaduras, máscaras e personas,
maquiagens e modismos,
cartas de amor, beijos negados,
verdades escondidas, mentiras veladas,
tapas de pelica, disputas inúteis,
vitórias imaginadas, derrotas amargadas,
ignorância,
medo e presunção?

Mudar, abrir mão,
ser quem sempre fui,
ser de novo.

Só assim habitarei essa terra,
onde não preciso ser amigo do rei,
pois sou o próprio rei.

Não é uma guerra a mais pra se lutar.
É um desejo a se alcançar.
Naquelas manhãs,
nas noites escuras,
dentro da gente,
lá,
onde somos feitos pra brilhar.

Ilustração: Jack Vettriano
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48 comentários:

alam kenji minowa disse...

esse lá
ou
aquele aqui
onde estou?
e posso escolher?
ou
será uma constatação?

wall,
walleu!!
bjs

Sylvio de Alencar. disse...

Andei com você por essas palavras (que são mais que palavras), eu e Deus.
Tenho minhas portas para abrir, tão minhas, tão de todos.
Que usemos nosso valor para andar por terras mais... amenas.

EDUARDO POISL disse...

Que a minha solidão me sirva de companhia,
que eu tenha coragem de me enfrentar,
que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir, como se
estivesse plena de tudo".

Clarice Lispector


Desejo um lindo domingo para você.
Abraços com todo meu carinho

Sônia Silvino disse...

Passei para fazer uma visita e te desejar um belo domingo!
Bjkas!

Barbara disse...

Só me cabe reverenciar.
De tanta profundidade e verdade - que reconhece quem vive também em trincheiras.
Qual o teu segredinho prá ter um intervalo do cenário - trincheira?
Dá uma dica, porque tô cansada e se alguém me perguntar quem eu sou eu nem sei responder...
Como um vidrinho de essência que não ouso abrir.

Efigênia Coutinho disse...

"Em defesa própria"

Gostei, uma visão bem realista que da um seguimento sobre,
Efigênia

Wania disse...

Wal

Que lindo o que escrevestes...sábias palavras!

Fez-me lembrar das ostras que quando agredidas se fecham no seu mundinho e fazem pérolas, mas de nada adiantaria isso se não voltassem a se abrir novamente, nem conheceríamos estas raras belezas!

Seria muito bom se pudéssemos "baixar a guarda" e usufruir de peito aberto desta terra a Céu Aberto onde somos o próprio rei... não precisaríamos passar pela dor para fazer pérolas!!!

Lindo, amiga!
Bjssssssss

Kimbanda disse...

Olá Walkyria, bom dia amiga.
Deu para pensar... e escancarando minhas portas, concluo que no meu caso pessoal, tarde interiorizei que todas as ferramentas que fui arranjando para minhas defesas, têm sido inúteis ou muito pouco eficazes, em virtude de ter um feitio que pende na mesma após tantas más surpresas, a partir para o desconhecido acreditando. E porque se à partida estiver à defesa também acontece perder oportunidades que a vida não nos volta a brindar.
Vou preferindo, sofrer consequências por me aventurar de braços e mente aberta, para não perder sensibilidades. Claro que não é fácil ir "levando" a toda a hora com que o que nos magoa, mas talvez assim sejamos mais nós, genuínos, mais libertos, mais receptivos.
Estendo os meus braços a um Kandandu amigo e sincero para ti.

Lídia Borges disse...

Reflexões em forma de poema!

Um beijo

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

da maneira que o mundo vai, não demora voltarmos a idade média e nos perdermos por mosteiros e labirintos por medo de gente

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Alam, às vezes me sinto muito oprimida, e duvido de poder escolhar. Então apenas constato. Outras não. Então me pergunto qual dos estados será o vrdadeiro.

FMF disse...

No teatro da vida somos agressores e agredidos. Vencedores e derrotados. Para o nosso equilíbrio é necessário termos sempre presente que somos actores num palco. No fim da actuação voltamos à nossa essência pacífica, de amor e à confraternização.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Sylvio
foi muito sentido esse seu falar. Me identifico muito com vc, e vc sabe.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Eduardo
que eu saiba ficar com o nada e me sntie plena....ah, me parece um sonho desses impossíveis.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Soninha
obrigadão!

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Bárbara, Bárbara
tô atrás desse segredo. Cada vez que saio das trincehiras e acredito-me livre, mais à frente vem outra. E tenho seguido, amparada pelos humanos que sentem como eu. Tipo vc. Obrigada pelas palavras.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Efigênia, visões de mundo, de mundos, nem sei mais.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Kimbanda
"E porque se à partida estiver à defesa também acontece perder oportunidades que a vida não nos volta a brindar.
Vou preferindo, sofrer consequências por me aventurar de braços e mente aberta, para não perder sensibilidades. "

Que lindo, que depoimento de alguém que descobriu mistérios tão óbvios, que a gente nem vê.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Ei Lydia
vamos refletindo por aí...

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Wania
que exemplo de mestra que vc deu, você, sempre tão alegre, sempre ligada nas possibilidades evolutivas. Fiquei pensando que se fechar e fazer pérolas, é muito certo e meio que destino do coração. O duro é se fechar e não fazer nada....

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Ediney
e olha que existem várias teorias que no final dos impérios, se volta mesmo pra idade das trevas.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

FMF....será essa mesma a nossa essência?

betina moraes disse...

wal,



o questionamento que você fez, na prosa tão bem estruturada de sua escrita, me obriga a pensar se eu não tenho algo para desamarrar de mim.


acho que (me lembrei do rollo may) todos somos corajosos com um monte de coisas, mas quando chega a hora de mexer em nossas estruturas todo o mundo tenta não fazer...

você não tem medo! eu admiro muito a forma como você existe em sua escrita aberta e na vida deste céu que você nos propõem.

suas palavras estão imperdíveis!

estava sem poder ler meus blogs favoritos, hoje vim tentar me por em dia!

betina moraes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Sharli Fly Clown disse...

(perdoa o meu portugues, ainda eu tem que aprender muito).

Muito obrigado pela sua visita a o meu blog.

E muito obrigado porque eu tenho a oportunidade de conhecer o seu blog.

Eu gosto muito das suas palavras, dos seus pensamentos.

Brilhar, como um menino...

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Sharly, obrigada pelo esforço de me entender. e no teu blog, vi que você é um menino que brilha!

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Betina
você, minha amiga, vai fundo dentro da gente. Nos seus contos, tão condensados e intensos, você revela isso, o entendimento do ser humano.

Quando aqui você comenta, sempre vem junto um pedaço de vc, da sua alma, da sua coragem.

Te agradeço muito pela leitura, a sua opinião tem muito valor e mais, tem muito sentido, para mim.

Silenciosamente ouvindo... disse...

Eu também prefiro as consequências
de viver em plenitude, apesar de
já ter sofrido bastante, mas continuo a ser igual a mim mesma
até ao último suspito.Gosto
de vir aqui, mesmo quando não deixo
comentar.Eu sou muito silenciosa...
Beijinhos

Luma Rosa disse...

Menina!!

Você se abriu!! Tão linda!!

Fiquei sem palavras!

Beijus,

sam rock disse...

Moitas veces cando acababa o combate, desde a nosas trincheiras fálabamos sobre asuntos familiares con soldados que minutos atrás eran os nosos inimigos, a pesar de saber que nun momento dado íamos a seguer loitando.

Unha aperta desde o frente da vida

campoazul disse...

Hola Walkyria, quiero que sepas que es la tercera vez que me paso por tu blog, pero no he podido leerte para mi pesar, porque el traductor me da error, lo seguiré intentando...

Un beso.

ALUISIO CAVALCANTE JR disse...

Querida amiga.

Há quem ache que ao abrirmos o coração enfraquecemos pois nos mostramos por completo.
Mas quem abre o coração entende o amor por inteiro, e nisto reside a nossa força.

Precisamos descobrir isto enquanto é tempo, pois sonhos também envelhecem quando impedidos de serem vividos em sua plenitude.


Fica com os sonhos sempre.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Silenciosamente ouvindo
denota respeito, cumplicidade. Eu tbm não comento sempre, às vezes fico boquiaberta com o que leio, gosto, mas não comento. Volte, me faça companhia, sem comentários.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Ah Luma
vivo me abrindo aqui, nem sei como vcs me aguentam,rsrsrs. Beijão

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Ah Sam, meus inimigos....tão perto e tão dentro de mim. Um grande beijo.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Campo azul.... sempre me admiro da tua força para me compreender. Eu tbm tenho enfrentado isso para ler seus fantásticos contos.

alice disse...

estarei em breve numa conferência para tentar falar sobre poesia e ciência, e creio que esta foi uma das leituras mais proveitosas porque é sem dúvida o constante questionamento do ser humano que a poesia veicula para a ciência estudar... mais uma ponte entre ambas :) gostei muitíssimo. beijos.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Alice
eu sei da conferência, li em seu blog, que persigo, rsrsrs.
Que bom que vc gostou e que, de algum modo, pode refeletir uma procura mais geral, não só minhas elocubrações.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Aluisio
sonhos tbm envelhecem e, quando nos é dado vivê-los, não os queremos mais...é certo mesmo

betina moraes disse...

wal...

um trecho do que penso sobre você:

você, minha amiga, vai fundo dentro da gente. Nos seus poemas, na sua prosa tão condensada e intensa, você revela isso, o entendimento do ser humano.


um beijo, querida!

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

ahahaha Betina,
verdade, olha que falamos a mesma coisa uma da outra simultaneamente. Então, uai, deve ser verdade verdadeira!

Cosmunicando disse...

então... é por isso que volto ;)

dani.penna disse...

Wall querida:
Mas você já é - ao mesmo tempo a guerreira sempre na defensiva, e a feliz rainha dessa terra... Sempre que quiser, e de novo, e de novo! Mudar o presente é ainda mais fácil que mudar o passado - e alguém me disse que até mudar o passado é possível...
beijo

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Mercedes, volte sempre minha amiga

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Dani, Dani,
eu poderia dizer que o passado muda a gente também, e vice-versa. Mas seria apenas um jogo de palavras.
O que importa aqui, é o que eu disse no post acima, sobre os amigos. Disse que eles nos fazem voltar, nos lembram quem somos. E foi o que vc fez. Obrigada por me falar.... e saudade docê.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Nossa Mercedes, eu não conhecia o Literapura, demais!

ju rigoni disse...

Reflexivo, certeiro... Lindo, Wal!

Vai comigo, aqui dentro...

Bjs e inté!

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Ju
acho bonito quando alguém diz isso, que "vai comigo", ou "levo comigo", me parece que não existe propriedade, todos sentimos as mesmas coisas.... adoro.


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