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domingo, 2 de novembro de 2008

Anos 70 - Walkyria Suleiman - Babi - Nina


EU NÃO ENTENDO DE NADA
1973

Pela folhagem da noite
Duas estrelas
Duas estrelas entre o verde
E a distância de uma vida escondida.

As palavras, as histórias, os fatos
Tudo constantemente separado
Pela falta de imaginação.
O quente
O quente silêncio a escorrer pelo quarto
A inundar vermelhamente o quarto.
Olho os quadros na parede
E reparo, de repente
Na solidão do meu tapete.

Tantos ruídos do outro lado
Tanto barulho que
Absolutamente não reconheço
Nada me é familiar.
E essa noite continua
Sem que eu me situe
Sem que nada esbarre em mim
Ou me reconheça
Como um velho amigo de escola.

Nem sei mais o que pensar
Pensar
Compassadamente
No tempo
De repente
Pronto
Já estou eu
De novo a esperar não sei bem o quê.
Mas eu sinto
Eu sinto
E isso é desespero!
Eu sinto a impotência de esperar
Da espera do GRANDE acontecimento
Mas que acontecimento?
O entendimento...
Eu não compreendo nada do que me acontece.
...

CIMENTO MOLHADO
1973

Eu tenho tido impressões
As impressões são um mistério
Algo que ultrapassa a minha vontade
Ou o conhecimento.
Quando a gente sente alguma coisa
É sempre motivado
Ou mesmo
É uma vontade de acreditar.

A intuição
É como fazer força pra se lembrar
Lembrar de algo que nem foi
É gratuita.

Mas a impressão
É como se a gente ouvisse o próprio nome
Sabendo-se que não existe ninguém a nos chamar.
É como se a alma fosse um cimento molhado
A espera de um nome
Que se desenhasse no momento exato da passagem
E ficasse
Eternamente gravado.
...

COMO SE SABE DO FIM?
1973
Hoje vou ouvir alguma música
Tipo chorável
Tomar um porre
Reler velhos cadernos
Fumar trinta cigarros.

Depois
Dormir com aquela
Indisfarçável esperança
De que amanhã será um novo dia
De que amanhã estarei nova.

Porra,
Será que esta noite vai acabar assim?
Impunemente?
Tá bom,
Eu sei que a noite acabou
Mas eu não acabei ainda!

(como é mesmo que se faz
nestas horas?)
...

LABAREDA
1971

Pro Geraldinho
O vento entrou calmo pela janela
Te encontrou agitado
Procurando estrelas.
Ondulou a cortina dos teus olhos
Explodiu teu sorriso
Inundando teus lábios
Escorrendo pelo rosto branco.
No teu sangue azul
Os talheres do mundo tilintaram.
Nos teus olhos negros
Toda porcelana se quebrou.

Sem seres príncipe
Sem seres deus
Fizeste tocar os sinos do mundo
Os pássaros dançaram nas tuas mãos agitadas
Que tocaram sonhos durante a madrugada.
Você se procura e sorri
Suas mãos sorriem
Pois sempre existirão madrugadas
Por que você é labareda.
Todas as fogueiras do mundo ardem no teu peito
Todas as chamas se incendeiam nas tuas mãos.
E elas queimam o mundo
Derretem os edifícios
Racham os vidros

Mas ninguém sabe....
Que quando o vento entrou calmo pela janela
Suas mãos meigamente buscaram meu rosto
E brincaram
Como duas crianças
Embaraçando meus cabelos.
...

MARINHEIRO
1971
Pro Geraldinho
O encantamento da noite
Me aconchega na minha cama
Me traz sua voz quente
Desperto do sonho e tenho você
Sonoramente manso
Olho as estrela
Encomendo-as pro nosso dia.

De repente uma tristeza calma
Medo de te amar,
Ou ainda
Medo de não te amar merecidamente.
Olho meu rosto
Penso se ainda poderei sorrir
Quando avistar teu olhar
Desembarcando com sua canoa de cordas
No oceano das grade metrópole.

Fica assim tudo tão pouco
Fico perdida na minha cama
Procurando por entre os lençóis
O encatamento que parece ter se desencantado

Olho pro céu uma última vez
A estrela, você em cada estrela
Fecho os olhos
E guardo embaixo do travesseiro
O meu maior amor
Pra você marinheiro
Que tem as mãos calejadas
De tanto tocar as cordas da vida
...

NAU
1972
Fim de noite
Nau silenciosa
Flores na lareira – eira, beira –
Vilas pequenas dentro da grande cidade – idade –

Não falo, choro –oro-
Penso nos meus sonhos de perder – arder –
Penso nos eu sonhos de encontrar – doar –

Diz quem é você
Fale do azul
Conte-me do longe – hoje –
Do outro lado do parque.
Fale da razão
Espere
Fale da primavera – era, era –
Que o resto será perdido.

Não, não lhe pergunto do amor
Pois não encontrei espaço para voar.
Tudo no amor é viagem – coragem? –
O resto?
O resto não importa – morta -
...

NOITE NA PRAIA
1972
É noite na praia
É noite na grande cidade
É noite em todas as cabeças.

É triste estar ciente do céu
E do mar que não quero olhar
Das pessoas que me cercam
Do mundo.

Desguardado de dor vejo seu olhar
Sem mágoa ou adeus ele se aproxima
E se perde na sua falta de expressão.
Seu olhar, por algum motivo, me fere.

A lua clareia minha mão
E sinto meu coração bordado de areia.
Tudo está claro demais pra haver dúvida
Pra que hajam temores.
Não sei do mar
Nem de estrelas
Por algum motivo que não entendo
Só sei de você
...

NOSSOS INSTANTES
1973

Pro Frede
Pela porta lateral da casa aberta
Entra meigamente o sol
E os ruídos silenciosos da alma
Se confundem
Na calma tarde do meu corpo.

Virar o rosto devagar
Olhar rápido e profundo
O lento,
O agitado,
A confusão clara
Que como um vento me habita.

A vontade de ter um sono calmo
Como um cansaço
O descompromisso com o corpo.
Uma lembrança engraçada
De uma paz
Uma lembrança esfumaçada.

Um pedaço de cabelo que cai no rosto
E que distraidamente eu acaricio
Um pedaço do passado
Que cai doce no meu corpo.

De repente
A impressão da casa ser
Uma grande rede
A balançar no mundo
De um lado para o outro.

A impressão de ser
De não estar
De só sentir
E acreditar que até o fim desse momento
Eu ouvirei
No meio destes ruídos silenciosos
O teu silêncio familiar.

Entra meu amigo
Entra rápido nessa casa.
Fica comigo
E sente
Como o meu corpo
A calma desse tempo.

Me guarda como a um instante
Que inesperadamente chega à lembrança
Que é um segredo
Que te faz sorrir.

Um instante que passa rápido
Mas que,
Como um pedaço de cabelo no rosto
É acariciado,
E como o passado
Cai doce no teu corpo cansado.
...

RIO DAS MORTES
1971

Olho pros lados e desespero o tempo
Penso no que dizer.
Rôo as unhas e penso no que dizer.
Invariavelmente você não me entende
Você nem finge que me ouve
Conotações de cada um
Mas por favor não conote errado
Quando de repente eu disser
Que quero teu corpo.
Pecar amando? Ah meu menino, é como se Deus mostrasse seu RG.

Mas não vamos falar nisso!
Falar do proibido
É estar fora das aspirações seculares.
E os séculos correm no meu sangue
E eu me transporto a Impérios passados
A lendas misteriosas
A amores fatais.

Volto pra você
E sinto o sangue minguando nas veias
Como este rio em tempos de seca.
Paro no caminho
Olho as placas do grande trevo
Elas não conseguem dizer
De que lado está a minha estrela

De repente as placas se cobrem
De musgos e imposições intransponíveis
O mundo está visceralmente contra mim.
Fecho as janelas
Tranco as portas e choro.

Minhas lágrimas irrigam as folhas
Me enraízo na terra
E uma ciranda de nuvens
Brinca distraidamente à minha volta.
...


SEM DESTINO
1972
Uma voz que não se ouviu
Uma distância interminável
Nas coisas que não aconteceram
Uma noite calma demais
Pra minha alma inquieta.

Um violão calado
Um poema sem fim
Magoado.
Uma dor cansada Tudo isso
E a dor das coisas que não foram
Das que passaram
Se esvaziaram.
As opções, a grande mágoa
A saudade.
Um cachorro late e eu, simples humana
Abro janela e lato para ele.
Um pássaro atravessa meu olhar
Passa sem jeito, batendo-se em tudo.
Foge com medo, sei que já foi pássaro de floresta.
Fugiu hoje pássaro de gaiola
Não se foge quando filhote
Só depois de perseguido

Dentro dessa primavera sem flores
Dói o inverno dentro do meu peito
Inunda meu corpo
Transborda minha alma
Choro.
O cachorro silenciou.
Olho-me
Fecho os olhos
E acabo a vida sem fim
...

SAÍDA SEM RUA
1970
Sem silêncio e sem tristeza
Saída sem rua, sem caminho, sem estrada
Apenas um grande verde e um imenso nada.

Com as nuvens correndo
E a casa,
O grande templo estático.

Sem sinos na Igreja fria e cinzenta
Sem fragmentos de vida
Ou velhas cartas.

Sou velho , sou criança
Sou poema, sou jornal
Sou aquilo que você não é.

Não me esquecendo de nada
Esqueço do tempo
E volto atrás daquilo que não fui.

Eu canto a canção como quero
Como um grão do infinito.
Sem pedaços de você
Sou do céu.
Eu seu que você jamais
Será aquilo que não é.
Mas eu canto mesmo triste.

E vejo a rua sem saída
Sem verde
Sem nada.

A Igreja continua cinza
A torre continua branca
E o canto continuará
Na boca dos mortos.

Vou à procura do que não fui
Para nunca mais ser.
...

FANTASIA
1976
Pra Carolina

Você chega com seu olhar de gata
Me amassa a roupa
Desarruma meu cabelo
E escorre por entre meus dedos
No momento em que penso que é minha.

Me pergunta coisas
Questiona as ordens
E desconversa o que não lhe interessa.

Você está sempre assim
Fresca e limpa
Ensaiando um sorrido ondulante
Me fazendo crer, à vezes,
Que a vida é uma grande dança.

Você chora e ri
Pula e se cansa
E quando penso que acabou
Você recomeça mais forte
Mais depressa.
Me chama de feia
E diz no escuro
Que nosso abraço parece fantasia:

- Mãe, você me queria?

...

RESPONSABILIDADES
1979

Éramos três amigas,
Tomando cerveja e fumando
Curtindo a alegria de fugir do cotidiano.
As crianças brincando no quintal
O trabalho feito e a vontade de estar juntas.

Falávamos naquela tarde
Da nossa energia criativa que luta em se manifestar
E nas maneiras que a subordinamos
Tendo sempre me vista o real, o útil, o possível
E por que não dizer,
Os impedimentos imponderáveis que nos colocamos
Agora que crescemos e devemos ser,
No mínimo,
Práticas e responsáveis.
Quanta besteira,
Quanta imaginação pra dissimular a covardia e o medo.
Enfim, vamos tocar essa vida pra frente
Por que essas crianças vão crescer
E a gente vai mesmo é si fudê.

...

EU SOU?
1978
Sim, eu sou.
Sou triste e desanimado
Não por consequência ou despeito
Nem me fiz assim com o tempo.

Sim, eu sou.
Sou poeta.
Rimo o poema rimando a vida
Fazendo do ruim o pior ainda.

Sim, eu sou.
Sou desgraçado
Mas sobretudo feliz
Desgraçado por ser assim
Alegre e triste
Feliz
Por ser essencialmente coitado.

Sim, eu sou.
Mas ninguém sabe
Pois ser feliz e desgraçado
Ser alegre e triste
Ser coitado
É não ser nada
Quando se é assim como eu
Fingido e amarrado.

...

VIAGEM
1974
Não está sendo nada agora, aqui
Pensando nas noites desconhecidas que virão
E mesmo as mais próximas ficam longe
Perdidas.

É terrível pensar na tua ausência perto de mim.

Terrível
Que basta-se a si mesmo
Em qualquer situação de vida
De riso
Ou daqueles olhares que
Têm tanta expressão sem chorar
E o terrível
É não vir o choro.

Lembro só agora
Daquela manhã cheirando a verão
Que fomos almoçar
E era junho
Junho sempre é bom.
Dezembro é sempre triste
Sempre azul cinzento
Sempre confusão em todas as cabeças
Dezembro é um domingo
Que dura um mês inteiro.

Serão quatro meses de domingo
De uma tristeza cinza
A inundar meu quarto.

...

8 comentários:

Josemir disse...

Bom dia WALKYRIA;
Eu não sei se é a mesma pessoa,mas se for ligue p/ mim
(21)98625464.
Lembrança de Ouro Preto nos anos 70,eu Pity e você Baby, nas escadarias da Igreja São Francisco de Assis,no riacho do pico do Itacolomy.No festival de férias

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Josemir, Pity, sou eu mesma. Mas não vou te ligar, escreve pra mim...
Incrível vc me achar.

walkyria.suleiman@terra.com.br

Josemir disse...

Quero ouvir a sua voz
Vou telefonar dizendo que estou quase morrendo.
Eu não te amo.talveis por uma semana sim
Quero ouvir sua voz de mulher hoje
A voz de menina ainda guardo na lembraça.!!

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Josemir....que conversa louca...nem a foto vc me mandou. Ouvir minha voz....será mesmo que vc ouviu minha voz quando eu era menias? E como é isso de querer ouvir agora? O que muda....

E talvez vc me ame por uma semana...qual semana? Semana da pátria? Semana santa?

Josemir...não brinca comigo....vc não sabe onde tá se metendo!

Tenho seu cartão até hoje,,,,posso até escanear pra vc ver....

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Tenho voa rouca, fumo, bebo....a morte é certa!

Josemir disse...

As folhas ja cairam o outono já passou,julho está bem próximoe eu sei que com ele o inverno chega.Eu penso,penso...por muito tempo eu pensei neste porcaria de inverno vinha tambem as igrejas Santo São Francisco,Ouro Preto. Que merda!... hoje não estou mais triste, minha procura terminou,agora só encho osaco de quem eu procurava.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Sua procura terminou....
vc não regula mesmo...

que procura?
e com terminou?

Josemir disse...

Meu primeiro contato depois de 40 anos 30/03/2010,será q vou esprar mais 1/2 século? Fala alguma coisa me telefona me chama me chama, nem sempre se vê,lágrimas, lágrimas cadê você.Essa é de Lobão


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