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quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

ANOS 80 - Walkyria Suleiman - Walkyria

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MATO GROSSO
No planalto verde
O azul entra desbragadamente no meu peito.
Teu andar distante me comove
E eu olho pra ti, sem forças pra te seguir.
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Os grandes espaços se encontram com o céu
E eu me perco sem vontade de me encontrar.
E eu me encontro sem nunca ter me conhecido.
As velhas pessoas estão ficando
Cansadas demais pra me procurar.
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Irremediavelmente,
velhas vontades renascem sem previsões
Permanecendo grudadas, calmamente,
Como mariscos luminosos
Em meu corpo de pedra.
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DESENCONTRO
Na casa
Em que tanto tempo fui ausente
As conversas são as mesmas
Na sala grande.
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Cadeiras de fero
Mesa de mármore
Frutas de plástico
Que meus antigos olhos crianças
Devoravam.
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O verde entra pela janela
O silêncio domina a casa clara
Tudo é calmo e sossegado.
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O olhar da mulher era cansado
Olhar pros objetos muito cansativo
E eu, menina acordada
Saía pra rua
E voltava cansada.
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Fico sentada à janela
Esperando o pôr-do-sol
Que, em tempos antigos,
Anunciava o jantar.
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Hoje tudo mudou
Não há ninguém na casa
Espero em minha cama
A mulher que me contava histórias
Ela não vem
Está invariavelmente perdida
Em minhas lembranças crianças
Só sobrou a casa grande
Já cortaram a mangueira do pomar,
Derrubaram o viveiro
E meu balanço enferrujou.
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A casa escurece
E meus sonhos de reencontrar
Se perdem,
Num grande desencontro,
Dentro do meu peito.
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PEQUENA SOLIDÃO
Pro Mário
Magros olhos rastejantes
Olhos enviesados como passagens
Em corações subterrâneos
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Teus olhos estreitos
Negra caverna
Me lembram canais litorâneos
Minha vida sem lanterna
E toda essa escuridão
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Não quero nada além das canções
Não quero nada além do além
Pequena e calma solidão
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PROMESSAS
Pro Frede
Deixa-me entrar no teu templo
E eu prometo
Habitá-lo de pássaros.
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Deixa-me entrar no teu tempo
E eu prometo
Fazê-lo sempre Primavera.
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Deixa-me morar no teu sorriso
E eu prometo
Nunca deixá-lo morrer.
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Apesar da vida
Apesar da mágoa
Apesar de eu não saber sorrir.
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O TEU AZUL
Pro Frede
Foi um bilhete de domingo
Que ficou por aí
Nadando no tempo.
(...estava um silêncio de chuva
quebrando bonito...)
Você já pensou em revolta do silêncio?
(....mas o silêncio é uma arma...)
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O teu azul
Você
Meus sentimentos por tudo
Pensar em uns dias há dois meses
Quando eu olhei pra você
E pensei em ser feliz
Pensar no mar. Na noite...
Pensar em como eu gosto da noite,
E, no fim
Tristeza desse esquema imbecil que nós vivemos.
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O meu amor
O meu momento
Meu amor feito de vermelho
Feito de fogo
Com terra
Com corpos
Com sonhos.
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PÔ! O meu grande PÔ e o teu azul.
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Penso em você
E quero ter um sono bom
Assim como uma vontade de paz
A calma dos sentidos.
Pode ser?
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VERDADELIBERDADE
Dentro
Até onde minha vã razão
Pode alcançar,
Horizonte branco
Branco lugar
Limite da minha sanidade...
Tento
Ainda que em vão,
Te tocar,
Verdade.
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Verdade liberdade
Como pequenos grãos de areia
Esvaindo-se das mãos em concha.
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Concha
Veia
Sangue
Como os olhos dos anjos
E dos amantes.
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TEMPO
Quando eu não contava o tempo
Era criança, vontade,
Era lindo completar meu sonho
De sujar meus sapatos de verniz na lama
De pintar meu vestido branco,
Cheio de laços
Feito estrelas,
Minha roupa domingueira.
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Mas nada me deixavam
Não podia brincar na lama
Correr
Pular
Nada.
A esperança, era,
Que quando eu sentava na janela - e via a noite,
Eu sabia que iria crescer
Que chegaria então esse dia
Que eu poderia rolar na rama
Me molhar na chuva
Fazer castelos de lama
E minhas previsões me faziam dormir
Na calma noite da minha infância
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Relembro as sombras apressadas
No teto de outro quarto....
Ainda era bom pensar em ser grande.
O silêncio do quarto cheio de amor
De adultos calados
Onde eu,
Menina inquieta, era a luz.
Sombras das quais tinha medo,
E que em orações pequenas,
Pedi nunca pertencer.
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Hoje sou sombra
No quarto de alguma menina
Que dormiu de mãos dadas com algum sonho.
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Sinto uma tristeza angustiante
Em alguma parte dentro de mim
Ao constatar o que a vida se fez.
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Chove.
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Atrás da janela
Eu,
Sem vestidos de estrelas
Choro...
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AMOR SEM HORA
Sei do amor às primeiras feiras
Na feira com carrinhos da mão.
Sei do amor às 25 horas
Sei do amor aos 61 minutos
E em qualquer tempo
Por que meu tempo é sempre.
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POR DENTRO
Já estou sentindo de novo
Essa coisa que mexe
E remexe
Esse suspiro sufocante por dentro,
Entre órgão e alma.
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Será que é a vida?
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GRITO
Pro LuisEdu
Quando eu grito
E te quero
Quando espero te tocar,
É também
Pra não esquecer que existo
E que posso viver
Apesar.
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PRA DEPOIS
Hoje eu queria um dia bem lindo
Com vozes e pessoas bonitas
Pra aconchegar meu corpo.
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Fofas almofadas respirantes
De pele de cetim colorido.
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Depois, ah depois tudo bem
Eu deixaria o depois chegar.
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RABOS-DE-FOGUETES
Pro LuisEdu
Rápidos instantes
Clarões
Rabos-de-foguetes
Cometas.
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Quando tua apareces
E passas
Sempre em mim
Permaneces.
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TREM
Pro Clémen
Peter Pans pela vida
Estrelas impertinentes
Crianças dementes.
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A lágrima sangue azul da Prússia
Como Blues
Nada cegou nossa percepção.
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Na linha do horizonte que abraça o tempo
Milhares de fragmentos banham o coração
Desarmando o cérebro,
Me levando, inopinadamente,
Num trem cósmico
Direto pra eternidade.
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DE REPENTE
Eu estou deixando de me importar
E é isso que importa agora.
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Será por esse motivo que,
Tão de repente,
Eu esteja incomodando tanta gente?
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GUITARRAS
Pro Clémen
Sonhos
Paisagens pré-históricas
Mergulhos azul-petróleo
Braços, pernas
Memória.
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Contato
Pelo quente na pele nova
Nascendo vermelho
Incandescente.
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Sobretudo
Guitarra invisível
Envolvendo um tempo (sereno)
Espírito ambulante
No corpo que já não temos.
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BOIÇUCANGA
Pro Clémen
Seu nome na minha garganta
Boiçucanga
Yoga e tanga
Jack in the Box só para namorar
Bica branca a rolar
Batatas fritas amarelas
Quindim de plástico
Areia na roupa
Camiseta sem manga
Boca de sereia
Sorriso prata luar
Planeta meia-cura a nos abraçar
Estrela cadente
Faísca
Pigmaleão a me desencantar
Lenha verde estalando
Coração festejando dançando
Te amo
Te amo
Tamo
For ever?
Califórnia
Vinho e queijo
Pérola Negra do Texas
Avenida Paulista
Fliperama
Diz que me ama
Uma história que eram mil
Rodoviária madrugada
Medo desejo mudo
Prazer poesia
Explosão intergaláctica
E mais um pouco de amor!
Amor rock and roll
Show
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FELICIDADE
ProNê
Ser feliz
É ganhar um beijo
Nos machucados
E voltar pra casa
Com o vestido amassado.
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Ser feliz
É beber cerveja
No mesmo copo
E intuir assim
Sempre um outro modo.
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Ser feliz
É ter sempre esse tesão
E não saber
NUNCA
Que horas são.
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CELOFANE
Pro André
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Folha
Celofane improvável
Brilhante estrela
Na tarde de verão.
(e era inverno)

Folha
Celofane impalpável
Tua marca nos meus lençois
Pele pêssego úmida
E a vontade de sentir...
(a quem serve duvidar?)

Folha
Celofane inquebrável
Meu coração cheio de luz
Caminha em nesgas azuis.

Teu cheiro no meu
Momentos como armas
E lembranças...
Sedas e canteiros.

Ah...
O cheiro e a cor
Mesmo na extrema unção do amor.

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MEMÓRIA
O dia acabou
Se esvaziou de luz
E encheu a sala de sombra.
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De onde estou
Levanto a cabeça
E me vejo refletida,
Exatamente no vidro do quadro
Que tem por dentro a minha fotografia.
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Eu aqui, do lado de fora
Adentrando em mim mesma
Num eu
Que não é mais o meu eu.
Num eu, que nem me lembro como era.
Num eu que nem sei bem se existiu, na verdade.
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Deste ponto de vista
Que verdade pode haver nessa memória?
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Ai me Deus,
Será que perdi alguém nessa história?
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SOLIDÃO
Será?
Uma dor estranha
Uma dor de não ter dor alguma
Uma dor de discernir a possível dor
Uma dor quase intelectual.
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Mas não é.
Jogo duro esse de madurecer
Não se ilude nem mesmo a dor
Mas o quê é isso afinal?
Não é dor
Não é solidão
É um vazio cheio, talvez.
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Vazio Blade Runner
De olhos que viram
De corpo que sentiu
De coração que amou
De alma que atraiu.
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É um vazio grávido.
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Talvez, o único registro de nossas vidas
Sejam mesmo os nossos atos
E não os pensamentos.
O espírito daquilo em que acreditamos
Deve continuar vivo
Em tudo que fica
Em tudo que passa
Em tudo que está por vir.
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COMO DIRIA MINHA AVÓ
Estou naquele estado inquietante
Onde poderia engolir o mundo
Num gozo inacabável
Mas que me fecho
E me mordo
E me fodo.
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O mundo está aí pra quem quiser
Ou puder,
Ou merecer,
Como diria minha avó.
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E eu estou aqui,
Ai, ai ai....
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ESTOU DE PASSAGEM
Estou por aí de viagem
E isto é como uma canção que repito
Pra dar força pra tocar,
Que abre um espaço de mudança
Que me faz continuar.
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Estou de viagem
Me livrando da bagagem.
Cada peça que cogito em descartar
Me falta coragem,
Me dá um cansaço louco
E uma louca vontade de chorar.
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Estou assim de viagem
Com pena da bagagem
Que já está comigo há 26 anos,
E que de repente
Já não se encaixa mais
Nos meus planos.
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Como dói no coração
A lembrança dessas imagens...
E eu repito a oração
Só pra ter força pra tocar:
Estou por aí de viagem.
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O SONHO ACABOU
Estou por aí
De norte a sul
De noite e sempre.
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Estou assim,
Empurrando a vida
Recriando garras.
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Estou assim
Naquela idade xinfrim
Que ainda carrega o gosto maluco
De dez anos atrás
E que desconversa esse novo eu
Tão cheio de responsabilidades fatais.
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Às obrigações que se impõem
Digo um meio não
Entre o não-sei-se-combina
E o, será-que-é-só-isso?
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Pra você que espera de mim
Realizações tão pequenas
Como um horário ou um frango frito,
Aterrorizo quando esqueço do momento
Ou quando me compadeço
Dessas pobres aves peladas.
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Onde é mesmo aquele bar...
Aquele lugar
De quem o sorriso, o olhar?
Preocupações mirabolantes
E estratégias fabulosas
Me dão enjôo
E eu me viro do avesso
Procurando veias
Duvidando do sangue.
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Quero o sangue sim
Quero o sangue a ferver
A borbulhar no meio da noite
Quero a estrela decadente
E quero passeios em corpos diferentes
Quero o ar rodopiando entre meus sorrisos...
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...
E depois quero mais
Tudo e sempre
Até o fim e depois.
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Não quero essa figura tão pobre de mulher
Não quero esse sonho
Quero a vida
O inusitado
E “ai” (suspiro)
Esse respiro de viver.
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