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quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

QUINCY JONES


Uma nova esperança para a nação


COMO MUITOS americanos e cidadãos do mundo, acordei em 5 de novembro de 2008 com um sentimento renovado de objetivo na vida. Na véspera eu assistira a um acontecimento que jamais imaginara, a eleição de um afro-americano para presidente dos EUA. É verdade -se você vive tempo suficiente, qualquer coisa é possível.

Mas resignei-me à necessidade de moderar minhas emoções. Como todos os partidários de Barack Obama, eu me sentia encorajado pela força, a habilidade e a serenidade com que ele levou sua campanha adiante. Eu sabia que ele era a melhor pessoa para o cargo. Mas, como negro vivendo na América, eu sabia por experiência própria que não devia deixar que o que eu queria que acontecesse se distanciasse demais da realidade do que eu sabia que poderia acontecer.

Como muitos afro-americanos de minha geração, minha experiência foi imbuída da ideologia de que nós éramos, na melhor das hipóteses, cidadãos de segunda classe. Nascido em Chicago sob a Grande Depressão, meu futuro parecia traçado de antemão: eu seria um anônimo que faria o que o que fosse preciso para sobreviver. Por sorte, meu pai mudou-se para Seattle comigo e meu irmão, e ali encontrei a música e o caminho para um futuro diferente.

Como adolescentes, não tínhamos um Will Smith, um Michael Jordan ou uma Oprah Winfrey para nos servir de modelo. Os exemplos nos quais eu me inspirava eram os músicos que viviam na cidade e os que passavam por ela. Homens como Count Basie e Ray Charles, que me tomaram sob sua proteção e me contaram sobre o grande mundo lá fora. Ray e eu sempre repetíamos o mantra "nem uma gota sequer de meu valor próprio depende de sua aceitação de mim". Isso nos dava a coragem necessária para enfrentar as realidades duras e intransigentes daquela época.

Graças a essa experiência e aos anos no colégio Garfield High, onde o multiculturalismo era incentivado, tive desde cedo a convicção de que nossa convivência não se resumia a "nós e eles". Eu não era ingênuo; tinha consciência das atitudes raciais em meu país.Quando eu era jovem, fiz turnê no sul do país, racialmente segregado. A única pessoa branca no ônibus era o motorista -precisávamos dele para entrar nos restaurantes e nos trazer comida. Vimos os bebedouros e banheiros distintos para brancos e negros. Tocamos em salões nos quais o público ficava separado. Na Virgínia, dormimos numa funerária.

Passamos por cinco cidades do Texas sem parar, pois isso não era uma opção cogitável. Em Dallas, havia uma efígie de um negro com uma corda no pescoço pendurada da mais alta torre de igreja na cidade.

Mas eu sabia que a música podia superar fronteiras culturais e unir as pessoas. Vi isso nas minhas primeiras viagens à Europa, onde as platéias e outros músicos de todos os tons de pele nos tratavam como homens de estatura igual. Vi isso como diretor da turnê de Dizzy Gillespie para o Departamento de Estado. Nossa tarefa era fazer uma turnê de boa vontade pelo Oriente Médio, Europa e América do Sul, mas na realidade éramos uma banda kamikaze enviada para acalmar a turbulência civil em locais como Chipre, Beirute e Teerã.

Prestei atenção à maneira como o mundo via os EUA e como os EUA encaravam seus cidadãos. Vi um jovem pregador de Atlanta ganhar força pregando a desobediência civil pacífica, vi um pastor da Nação do Islã que pregava a autoconfiança como solução, e vi todo um povo aderir e celebrar o orgulho e o individualismo negros.

Assisti ao país pouco a pouco se dar conta de que os afro-americanos não iriam mais ficar passivos, aceitando a opressão, não importava o tipo de véu que a cobrisse. Queríamos todos os direitos que a Constituição nos garantia, e trabalhamos para nos destacar e realizar nossos sonhos, pois as alternativas não eram uma opção.

Como povo, avançamos até os mais altos níveis da política, dos negócios e das artes. Mas, apesar de tudo o que tínhamos realizado e superado, fiquei sentado ali, em 4 de novembro, assistindo ao anúncio dos votos, com entusiasmo comedido. Ao ficar claro que Obama vencera, meu coração explodiu com uma alegria que só senti quando nasceram meus filhos.

Depois de tudo o que nosso povo suportou, do genocídio da travessia atlântica nos navios negreiros, à tortura de corpo e espírito e o desmonte sistemático de nossas famílias sob a escravidão, até o terrorismo decorrente da Reconstrução, chegando ao racismo institucionalizado e à luta pelos direitos civis, um homem de aparência como a minha agora se tornaria presidente dos EUA.

E, como tantos outros de nós, chorei. Chorei por todas as pessoas que sacrificaram suas vidas para que pudéssemos chegar a este momento. Chorei pelos que não estão mais conosco e que nunca poderiam ter imaginado que algo assim pudesse acontecer. Sobretudo, chorei por meu pai e por meu irmão Lloyd. Queria que eles tivessem vivido para este momento.

A eleição de Obama trouxe um sentimento renovado de esperança e fé nos EUA. Nas semanas que se seguiram a sua eleição, recebi ligações de congratulações de 15 chefes de Estado. Obama tem uma quantidade tremenda de trabalho para recolocar os EUA no rumo certo, mas ele conta com o espírito de cooperação do mundo.

É claro que ele terá seus detratores, aqui em nosso país. Eles já começaram sua campanha para desacreditá-lo e desmoralizar sua Presidência. Mas Obama instilou nas pessoas que o elegeram um sentimento de esperança em nosso país, algo que não víamos havia tempo. Com tal positividade coletiva, um futuro mais iluminado e próspero está pela frente.

A América ainda tem muito trabalho a fazer com relação à questão racial, mas me conforta muito saber que todo menino e menina americano (obrigado, Hillary Clinton) de agora em diante poderão crescer acreditando "um dia eu posso vir a ser presidente", e não será uma fantasia impensável.

Deus o abençoe, presidente Obama. As esperanças da nação estão depositadas no senhor.

QUINCY JONES é compositor, produtor, arranjador e regente. Este artigo foi distribuído pela Tribune Media Services
Dica de amigo - Thomaz H. Dirickson

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