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segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

A RAIVA - Eugenio Mussak



"Certa vez tive a oportunidade de visitar a usina hidrelétrica de Itaipu, a maior do mundo. É difícil relatar o sentimento de caminhar pelas galerias internas, que transpassam aquele gigante de concreto, aço e tecnologia que represa um imenso volume de água e usa sua força para produzir energia elétrica para milhões de pessoas. Senti uma emoção que misturava o orgulho de ser brasileiro com a sensação de pequenez diante do gigantismo da realização humana. Dizem que, com as comportas abertas, Itaipu parece estar com raiva.

Estranhamente, o número de pessoas que trabalham no controle do gigante não é grande. Eu imaginava encontrar uma multidão de técnicos e engenheiros em atividade nervosa apertando botões, lendo painéis e acionando alavancas, como em um filme. Nada disso. A tecnologia é soberana, e ajuda os responsáveis a manter tudo no lugar. Quando comentei sobre isso com meu simpático guia, ele esclareceu que todo o complexo da usina é monitorado. "Se alguma coisa estiver errada, alarmes sonoros e visuais avisarão com ênfase e insistência, não se preocupe", disse. Além disso, há sistemas automatizados capazes de tomar as providências necessárias, antes mesmo da participação humana. A usina é um grande corpo sensível, que suporta uma pressão imensa e que usa essa pressão para produzir o que se espera dela, a energia.

Na verdade, o que acontece ali é a transformação de uma forma de energia, chamada de energia potencial, em outra, chamada de energia elétrica. A pressão, portanto, é boa, é uma forma de energia, mas tem que estar sob controle. Se for muito grande, pode provocar fissuras. Se for muito pequena, a energia não será produzida adequadamente.

Pois é. O ser humano é mais ou menos assim. Sofre pressões do ambiente em que está inserido e, por outro lado, tem que produzir coisas úteis, como o trabalho, as relações com outras pessoas, a arte, o lazer. Somos usinas transformadoras de potenciais. Recebemos estímulos emocionais, educação, informações, desafios, e respondemos com as realizações que marcarão nossa passagem pela vida.

No filme Gladiador, o personagem central do filme, o general Maximus, foi traído por Comodus, que também matou o pai, o imperador Marcus Aurelius e transformou-se no novo soberano. Maximus, agora escravo gladiador, o odiava, e com justa razão. A primeira oportunidade que tiveram para estar juntos foi em plena arena do Coliseu de Roma. Comodus então provocou o gladiador, contando a ele detalhes do assassinato de sua mulher e de seu filho. Esperava, com isso, provocar uma reação furiosa do outro, o que levaria a guarda pretoriana a matá-lo, livrando-se do incômodo herói que surgia.

Maximus, é claro, foi invadido por uma forte onda de indignação e raiva. Mas nada faz. Curvou-se diante do imperador, para delírio da platéia sedenta de sangue e adoradora de homens fortes e violentos. A hora da vingança não era essa, definitivamente. Esse fantástico exemplo de inteligência emocional proporcionado pelo cinema pode nos ajudar a entender que a raiva é um sentimento normal e até desejado, desde que não seja desproporcional à causa, nem fuja do controle do racional, pois então poderá provocar desastres irreparáveis.

Turbina sob controle
O problema é que às vezes não sabemos bem o que fazer com certos estímulos que causam pressão maior que a barragem de nossa personalidade é capaz de suportar. Temos, em nosso aparelho psíquico, turbinas transformadoras de energia emocional, que absorvem estímulos e entregam respostas, que são os estímulos processados. Eventualmente, há uma desproporção entre a pressão do estímulo e a capacidade da turbina em transformá-lo em algo bom. O resultado é a fissura da barragem (personalidade) ou a produção desproporcional de energia, o que pode desencadear desastres ecológicos (nas relações humanas). Pois a raiva mora nesse departamento.

Sentir raiva não é sentir algo que o meio nos oferece. Sentir raiva é processar o estímulo ambiental. A raiva está dentro, não fora. É a reação, não o estímulo. A raiva é, portanto, um sentimento derivado da interpretação que fazemos de um acontecimento externo. E a interpretação será condicionada pelo estado psicológico daquele instante, ou daquela fase da vida. A mesma causa pode gerar raiva em um momento, compreensão em outro e, ainda, compaixão em um terceiro. Sentimentos são interpretações das causas, e não as causas em si.

Não há nada de errado em sentir raiva em determinadas situações. O erro estaria em não sentir nada. A raiva nem sequer é o oposto do amor. O oposto do amor é a indiferença. Diante da injustiça, do desrespeito, da maldade, do descaso, o que se espera é a raiva. Se alguém, propositadamente, o ofender, você sentirá raiva, ou não será uma pessoa normal. Seu grau de evolução espiritual não será, absolutamente, medido pelo sentimento da raiva, e sim pelo que você fizer com ele. Ao responder à causa da raiva com uma causa igual, ou maior, você estará fazendo exatamente o que o outro espera de você – entrando no jogo. Se, ao ser ofendido, você sentir raiva, processar o sentimento, racionalizar os integrantes da situação e escolher a melhor resposta para aquele momento, então você estará no controle.

Sobrevivência emocional
É bastante conhecido o instinto que o ser humano tem de preservar sua vida – o instinto de sobrevivência. O que muita gente não sabe é que a sobrevivência em questão nem sempre é física, pode ser emocional. Na sociedade moderna, organizada, com estruturas de proteção, é mais difícil que alguém sinta sua vida física em perigo, mas é cada vez mais comum que perceba o risco de agressão às suas emoções, sentimentos e valores – a vida emocional.
Após uma série de experiências sobre esse assunto, o psicólogo americano Dolf Zillmann descobriu que a sensação de estar em perigo é o gatilho que aciona a raiva. É o que dá forças ao bicho para lutar contra o outro muito maior que o ameaça. Minha cachorrinha maltesa, por exemplo, com seus 3 quilos de peso e sua carinha de anjo, é capaz de atacar raivosamente um cão labrador, 20 vezes maior, por puro ciúme. Não admite que outro bicho se aproxime e dispute minha atenção ou carinho. Ela fica com raiva. E o curioso é que põe o grandão para correr.
Nosso aparelho psíquico primitivo não estabelece, a princípio, diferenças entre perigos físicos e emocionais. É melhor reagir e pensar depois – esse é o condicionamento dos tempos duros da história do homem. Como nosso processo de adaptação é lento, ainda ficamos raivosos com facilidade, mesmo vivendo em uma sociedade relativamente segura. A raiva me protege, e pronto.

A raiva é uma manifestação de energia produzida diante da adversidade, ou da contrariedade, que deverá ser transformada em ação vigorosa imediatamente após a avaliação emocional que o cérebro fará. É quando entram em ação os outros sentimentos e, claro, a força da razão. Usar a raiva para responder com indignação a uma injustiça ajuda a colocar ordem no caos provocado pela prepotência de alguém. A submissão perpetua as ditaduras, sejam políticas, sejam organizacionais ou familiares.

Já usar a raiva para responder com uma fechada de automóvel ao outro motorista que cometeu, propositadamente ou não, alguma barbeiragem no trânsito, é um imenso sinal de burrice emocional. A conseqüência é imprevisível. Pode ser um tiro. Aristóteles, em carta para seu filho Nicômaco, escreveu: "Qualquer um pode zangar-se – isso é fácil. Mas zangar-se com a pessoa certa, na medida certa, na hora acerta, pelo motivo certo e da maneira certa – isso é difícil!"

Daniel Goleman, autor do best-seller Inteligência Emocional, explica que temos, na parte mais primitiva de nosso cérebro, um órgão chamado amígdala. Sua função seria a de desencadear respostas aos estímulos ambientais originados de causas ameaçadoras. É a amígdala a primeira a perceber uma cobra, por exemplo. E, antes mesmo de informar o córtex, a parte racional do sistema nervoso, a amígdala já disparou um estímulo aos músculos das pernas que reagem afastando-nos do animal mortal. Só que a amígdala é burra. Não sabe diferenciar uma cobra de um pedaço de corda no chão. Reagir é sua função, não interpretar. Quem interpreta é a razão, que é mais lenta.

As cobras do dia-a-dia não são animais, são os humanos. E às vezes temos dificuldade de fazer as devidas interpretações, separando os peçonhentos dos inofensivos. Sentimos raiva, a priori, de tudo o que não coincide integralmente com nossos valores e nossas expectativas. Só depois paramos para examinar mais de perto e entender as razões do outro. A inteligência emocional se manifesta nesse intervalo de tempo. E é o tempo necessário para produzir um desastre ou construir uma relação de colaboração mútua.

Diante de uma injúria, sinta raiva, ou você será um banana. Mas jamais responda com uma reação igual e equivalente, em sentido contrário. Use a raiva como uma energia positiva capaz de construir, jamais destruir. Quem provoca raiva não é o principal prejudicado por ela, e sim quem a sente. Nesse sentido, deixar-se dominar pela raiva é um ato de desinteligência. A inteligência tem cadeira cativa na sala de operações que responde ignorância com sabedoria, mau humor com sorriso, agressão com compreensão e ingratidão com oportunidade. E não há, nessa postura filosófica, ausência de raiva. Há, sim, a presença do amor, o sentimento que sempre constrói, mesmo em má companhia.

Emoções são líquidas
Pode parecer engraçado dizer isso, mas, assim como os líquidos, as emoções assumem a forma do vaso que as contém, no caso, nós. Ninguém, ninguém mesmo, tem o poder de irritar você. O que acontece é que você se irrita – repito, você se irrita – por causa de outra pessoa. E isso acontece por dois motivos: porque a pessoa tem, de fato, elementos com potencial irritante; e porque você se permitiu ser afetado por esses elementos. Se houver apenas um desses dois motivos, não haverá irritação. É como a urtiga. Para irritar sua pele, você precisa tocar nela. Se você se mantiver afastado, não há perigo.

Podemos fazer exatamente o mesmo com as pessoas urticantes. Manter distância. Se não física, pelo menos emocional. Goleman conta que, quando esteve no Japão, presenciou uma cena dentro de um ônibus. Um operário embriagado falava alto e provocava os passageiros. A indignação foi geral, e as pessoas sentiam-se profundamente irritadas com aquele mal-educado, mas também sentiam medo porque ele era um gigante, um lutador de sumô.
Foi quando um franzino senhor de idade, vestindo quimono, perguntou o que ele tinha bebido. "Saquê, mas isso não é de sua conta, velho", respondeu o incômodo passageiro. "Ah, saquê, eu também gosto muito", disse o velho, que prosseguiu contando, com detalhes, que todas as noites de verão costumava tomar saquê no jardim com sua mulher, sob um pessegueiro. A história foi acalmando o bêbado, que de repente começou a chorar e contou ao velho que sua mulher havia falecido, que ele havia perdido o emprego e que sua vida não valia mais nada. Quem não teria vontade de encher a cara diante de tal realidade?

Ao descer do ônibus, Goleman ainda teve tempo de ver o gigante embriagado deitar a cabeça no colo do velho que estava disposto a ouvi-lo. A essa cena, o psicólogo deu o nome de "brilhantismo emocional". Certamente, como todos os passageiros, o velho japonês de quimono também sentiu raiva do bêbado. O que o diferenciou foi o que ele fez com sua raiva. Em vez de agredir, usou compreensão".

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