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sábado, 14 de fevereiro de 2009

Anos 90 - Walkyria Suleiman - Walll

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TUDO E NADA
Todas as noites e seus avessos
Todas as pessoas e suas histórias
Todas as horas e recomeços
Todas as coisas
E o que resta delas eternamente:
É isso que eu sinto
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TUDO QUE NUNCA É DITO
Todos os instantes que passam por mim
Passam por mim sem me deixar.

Eu, infinitamente eu,
Todo tempo que me concedo
Neste tempo que me concebo.

Todo horizonte que meu olhar alcança
Só diviso a mim mesma
Todos os corpos ansiosamente tocados
Foi o meu corpo intocado que toquei.
Todo coração beijado
Todo sonho sonhado em outro alguém
E as palavras ditas pra ninguém
Tudo
Tudo isso
E tudo o mais
Que nunca é dito.

Eu te busquei
Te procurei
Liberdade!

Eu, infinitamente eu,
Em todos os instantes que passaram
E não me deixaram
Enquanto ser
Enquanto for.

Abandonada à meu próprio destino
Condenada a recriar
Livre para me libertar.

Como um piloto na plataforma
Inquieto antes de decolar
Olho as estrelas
Mapeando sonhos
E sei,
Com tudo que sou,
Que estou pronta pra esse voo.
Socorro - Cachoeira
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A VIDA
Estou ouvindo
Abro a porta e procuro
Fecho a porta
Costas na porta
CO LA DA
Espreito devagar
Assustada
Descabelada
Seguro
Rápido e forte
É só um momento
A vida!
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A MENTE MENTE
Acordo
Já estou respirando
Minha mente tenta se manifestar
Não, hoje não tem espaço pra você
Minha mente corre atrás de mim
Como assessor de filme americano.
Hum...vai ser um dia bom.

Olho de esgueio
Numa manobra rápida
Tranco a mente no banheiro
E bato a porta gargalhando.

Ganho a rua num passo
A cidade, a vida

Às vezes é simpático viver.
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COISARADA
Tem coisas que passam
Tem coisas que ficam
Tem coisas
Que nem chegam a acontecer.

Tem coisas que trazem um gosto
Um perfume
Como se já tivessem sido.

Tem coisas
Que a gente nem percebe
Mas elas estão acontecendo
Quer a gente queira, quer não.

Tem coisas que são
Que são simples.

Complicados somos nós
Que nunca sabemos
Qual é a coisa.
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COSTUME
Às vezes
O som claro e a luz terrificante dos relâmpagos
Entram no quarto
Como se fosse manhã e o sol espiasse aqui dentro
Divisa no quarto silhuetas das velhas formas
A que meus olhos já se acostumaram
É, para o bem ou para o mal,
A gente se acostuma a tudo mesmo.
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JANELA
Da minha janela
A cidade inteira dorme
O ar úmido da madrugada
É denso pra silenciar qualquer lamento audível.

Na verdade
A madrugada é um silêncio cheio de vozes.

O céu, azeitona preta-violetas manchado de nuvem,
Dançantes bailarinas
Levadas por ventos ágeis
Sob corpos estáticos.

É um balé mágico, onde quem se move é o chão.

Mas daqui da minha janela eu posso ver
Que é a terra que se move.
Silenciosa e reservada
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DE NOVO O CORAÇÃO
Consumido coração
Qual o teu fim
Qual o teu começo
Onde tuas marcas
Como o teu delírio
Quando a tua paz?

Delirante navegante
De caminhos sem estradas
Alucinante companheiro
Calma por favor
Compacta ilusão
Lua verde
Triste coração.

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DESCULPAS NECESSÁRIAS
Se eu pudesse atrasar o tempo
Te dar tempo pra voltar
Com a desculpa que é o dia
Que te prende em algum lugar
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DOISLADOS
Tem um lado meu
Que diz SIM

Tem um lado meu
Que diz NÃO

E eu,
Fico tonta nesse meio
Vomitando
Uma grande indecisão
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ESPELHO
E quando o dia nasce na minha janela
Eu fecho os olhos
Penso em nós
E sei, mais uma vez,
E me reconheço de novo
Pela primeira vez
Em toda a minha vida.

E quando me levanto
E me olho no espelho
Eu sorrio.
Quando me vejo assim nua
É em você que eu penso.
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IR OU IR
Me sinto numa plataforma esperando um trem
Madeira, luz difusa,
Poeira brilhando contra o sol.
Só eu na estação
Olhando o vago horizonte vazio
Na espera surda que é qualquer espera
Só consigo pensar no aviso do bilheteiro:
Moça, a gente não aceita devolução!
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LEMBRANÇA
Se os sábios têm razão
E se é verdade que vivemos outras vidas
Em outros lugares
Vidas fadadas ao esquecimento,
Duvido de dois momentos
Que lembrarei para sempre:
O cheiro frio e íntimo das noites de lua cheia
E o esplendor despojado das manhãs de sol.
TERRA
Se é verdade a eternidade
Não gostaria nunca de te esquecer
Na mesmice da imortalidade.
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PERDÃO
Teu corpo no meu
Foi como toque de nuvem
Pra quem nunca pôde voar.

Teu beijo na minha boca
Teve o som das palavras
Que nunca ousei pronunciar.

Tuas mãos no meu coração
Tiveram o dom da gratidão
Pra quem nunca soube perdoar.
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PLATAFORMA
Penso que agora
Fica somente a sensação ridícula
De quem corre atrás do trem
E pára no meio da poeira
Percebendo que não adianta,
O trem que se perde
Pra sempre estará perdido.

É,
É mais ou menos isso
Essa nostalgia empoeirada
Acho que foi apenas isso que sobrou
Na plataforma do meu coração.
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POR DENTRO
De longe vem a lembrança
Lenta e fresca
Como uma criança

De dentro vem a esperança
Agitada e confusa
Como uma dança

E aqui, bem no fundo de mim,
Eu sorrio silenciosamente
Pro meu coração feliz

Hoje eu sei
Ele me conta
Sou de novo um aprendiz
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POSSUÍDOS
Quando você me abraça
Com todos os seus braços
Me sinto absolutamente possuída.

Mas esse ser possuído te domina,
Por que é por mim que tua vontade se agita.
Que movimento único e fabuloso
Une dois universos no mesmo gozo?
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QUERERES
Quero um abraço
Um beijo
E te lamber inteiro
E morrer
Num gozo comprido e louco
Cumprindo à risca
O nosso tempo
POUCO
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SÓ POR UM MOMENTO
ProMarcos
Como o bom é perfeito.
Como o perfeito encanta.

E diante desse encantamento,
Fica evidente a verdade do nosso encontro:
Como o bom é perfeito,
E como o perfeito encanta!

Depois de nós dois,
Muda o tempo.
Mais-que-perfeito
O nosso momento.
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SONHO ACORDADA
proDani
Todas as noites vigio teu sono
E me divirto inventando sonhos
Que te conto, em forma de histórias maravilhosas,
E você ouve com seus olhinhos atentos e crédulos.

Me esqueço nesses poucos momentos
Que foi a vida que não passou de um sonho
Desses que a gente sonha acordada
Naquela idade em que acreditamos
Que somos fortes
Capazes, insuperáveis....
Ô, que idade mais besta....
Mas sem ela, como eu saberia inventar sonhos pra você?
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TEM NOITES
proMoisés
Tem noites que eu quero corpos
Mãos firme toque forte
Tem noite que eu quero cama
Com você montado em mim.

Tem noites que eu quero um beijo sem fim
E sua boca no meu pescoço
Me machucando um pouco
Tem noite que quero que você me angustie,
E me faça puxar teus cabelos
Te guiando pro meu desejo com pressa.

Tua boca, do tamanho da boca do meu ventre
Tua língua macia,
forte e decidida como se eu fosse sua presa no cio.

Dedos, língua, seu rosto e eu posso gozar,
Pois é esse gozo que teus lábios
Querem trazer pros meus
Quando você me beija divertido e orgulhoso
E eu sinto meu gosto no teu corpo
Feito de ondas de peitos e bíceps,
E encontro teu sexo,
Macio e firme
E posso engoli-lo num momento único de te possuir.

Tua pele esfregando na minha,
A dor de ter outra alma penetrando a minha,
E toda uma história de mundos acontecendo simultaneamente,
Quando num salto,
Você penetra com força o lugar,
Onde um dia,
De outra mulher você nasceu.

Tem dias que eu poderia deitar com qualquer um,
Como são assim todas as mulheres.
Tem dias que eu apenas quero brincar com você
E não saber que horas são,
Nem que homem você é.
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TEMPO DE VIVER
Qual o perfume do teu cheiro?
Qual o toque da tua pele?
Qual o gosto dos teu beijos?
Desejo de ter você
Desejo de possuir você

Paixão
Como fitas coloridas num céu azul paralisante
Desejo
Como correntes entrelaçando membros
Tesão
Como asfixia no coração

Vontade de você, com abraços loucos
Nos empurrando para espaços ocos...
Ah, o desejo
O desejo é o futuro
É o tempo em que serei tua
Sem reservas e sem motivos.

Vem..
Rasga essa pele imaginária
Toca meu corpo real
Latente e quente.

Vem...
Deixa tua mão passear,
Frenética e mansa,
Na paisagem do meu ser.

Vem...
Vem que o tempo é pouco
Vem que o tempo é louco
Vem que o momento é nosso
E o Universo gargalha
E despetala
E estraçalha.

Vem...
Meu amado,
Por que a vida é infinita...
Mas o nosso viver
Não passa de um tempo dado.

TEMPO DE VIVER.
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TEMPO
O tempo
Decisão irrevogável
Que cansa a espera
Que amansa a vontade
Que mansa loucura...
O tempo fez do meu peito seu leito.

Se eu pudesse escorrer o tempo dos ponteiros
Derretê-los.
Ah... o tempo.
Tempo que não tornará
Depois de haver sido.
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UMA PORTA PARA O VERÃO
Nós morávamos em uma casa antiga, dessas de muitas salas, muitos quartos, todas entradas e saídas. Ao todo eram 14 portas, todas dando para um jardim, pra flores e cores de um quintal claro e banhado de luz.
Pet amava o jardim, com seus perfumes e surpresas. Na porta da cozinha, eu havia feito na parte de baixo, uma pequena portinhola para q ele pudesse entrar e sair sem minha ajuda.
Era, em todos os sentidos, um gato orgulhoso e auto-suficiente, sendo ao mesmo tempo, solidário e carinhoso.
Todos os dias, antes q eu me desse conta, Pet saia por sua pequena portinhola e mergulhava na manhã.... enquanto eu espreguiçava o dia, tomando um café despretensioso à luz do amanhecer ....nossas vidas eram assim, norteadas pelo sol.
Isso é, nossas vidas eram assim durante o verão.
Quando chegava o inverno, nosso jardim perdia suas cores e o sol não brilhava no imenso céu azul de nossas vidas. Pet se recusava a acreditar no que via. Abria sua portinhola e retrocedia petrificado diante daquele quadro de inverno. Como um raio, me buscava pela casa e voltava a ser aquele gatinho que fora quando pequeno.
Desesperado me levava até a porta de copa com seus grandes olhos verdes faiscando de receio.
Eu abria a porta com dificuldade, pois Pet se enlaçava nos meus pés, ansioso por sair para o sol. Porém, quando a porta se abria, Pet paralisava-se diante da visão do nosso jardim no inverno.
Desolado voltava pra trás...e se encolhia num canto.
Mas não era uma derrota...durava pouco tempo.
De repente avistava uma das portas da cozinha e, com a mesma disposição, me fazia abri-la, para de novo se frustrar... e de novo avistar outra porta na sala,depois no hall, e assim por diante, até finalmente abrirmos todas as 14 portas de nossa casa.
Quando o dia já ia alto, vencido pelo cansaço, Pet dormia um sono triste e introspécto. Mas quando o dia raiava, Pet pulava de sua almofada e começava tudo de novo.
E era porta atrás de porta, dia após dia, durante todos os dias de inverno.
Até que finalmente voltava o verão, e o nosso jardim, como que por milagre, voltava a ter seu rosto ensolarado e colorido.
Era o apogeu para Pet. Para ele, toda busca e desolação haviam valido a pena diante da grande conquista, o verão.
E assim vivemos eu e Pet, muitos dias, muitos verões,muitos invernos, todos os anos de nossas vidas.
Hoje eu penso que cheguei a uma idade em que devo aprender com Pet, a ter essa fé tão racional,tão absolutamente convicta, e como ele, também sair por aí, e não desanimar de encontrar, dentro de minha alma, uma porta para o verão da minha vida.
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LUTO1
A verdade é que te espero todas as noites
Aguardando que você passe e olhe pra cá,
aqui dentro, deste lado da janela,
e você faz ou não faz isso,
e nós não teremos o que dizer um para o outro,
De qualquer modo.

Talvez, e é bem capaz,
que você ficasse ali a me olhar,
por entre metros de noite e escuridão que nos separam,
mudos, a não dizer tudo que já foi dito,
entre tapas e desejos.

Talvez, e é bem capaz,
que nosso olhar se soubesse olhado nessa distância,
e ela fosse mais surda
que o barulho surdo de todas essas noites.

Quantas noites te ouvi passar
e não me movi da cama,
quantas noites esperei à janela
e você não se moveu de você mesmo?

A verdade é que é pra você este resto de dor,
como se nosso amor fosse uma doença em vias de cura,
ou um ser preste a se extinguir.

Hoje minhas mãos estão vazias
e quando o fone toca às três da manhã,
e eu não atendo,
penso nas madrugadas em que espero o fone tocar
e você não me chama.

A verdade é terminal
E não sei o que fazer com esse ser
que se recusa a deixar o hospital.
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LUTO2
Estou de luto por nossos sonhos
Pelo nosso amor
Estou de luto
E como aquelas viúvas de negro
Tenho um guarda-roupa completo em meu coração
No corpo e no desejo.

Como supor que o luto é passageiro
Se já me garanti
Com tantas provisões negras?
Negras como as lágrimas
Que já não choro por nosso fim
Negra como a grande noite que se instalou
No hemisfério-antes desconhecido- do meu peito.

Morto e enterrado.
E daí?

Pensei que essa realidade material, prática
Que essa eutanásia me libertaria
(sim, pois nosso amor já havia morrido
enquanto lutávamos para tirá-lo do coma)
Daquele pedaço meu que te queria.

Qual o que,
Qual pedaço
Que nada.

Todos os meus pedaços
Te reclamavam e gritavam
Se debatendo como feras feridas
Enquanto eu-solenemente persistente-
Enterrava o nosso amor.

Não te quero mais.
Não quero essa vida possível com você
Não espero mais
Que você chegue de outro jeito.
Não sonho mais com um possível homem
Que você não soube ser.
E por que deveria?

Mas pela manhã
Na hora zero
Quando abro meus olhos vivos
É em você que penso
E a roupa que meu coração escolhe,
Nas inúmeras gavetas, é negra.

Negra como a rosa negra
Com suas incontáveis pétalas negras
Que vão me despetalando
Despetalando....
Despetalando....
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LUTO3
Olha que os relógios do mundo
Começam a se atrasar
E você está cheirando a naftalina
Sente como as pedras esquentam sob teus pés...
Fico lembrando de todos que chegaram
Banhados, barbeados
Cheirando a sabonete, pasta de dentes.
Sinto vontade de rir das campainhas
Dos telefones
Das buzinas
Dos e.mails...

Não me espere mais
Não tenho mais maneiras de dizer isso

É libertador
Não esperar por ninguém
Nunca mais.

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LUTO
Queria te dizer
Sei lá o quê
No nosso caso tudo já foi dito

Nosso amor virou terror
Ódio e ressentimento
Tenho medo até destas palavras
Tenho medo de trair aquilo que devo
Ao escrever sobre o que desejo

Sinto sua falta,
Natal, aniversário
Datas bestas como tantas outras
Que no final
Se tornam mais bestas ainda
Por nos sensibilizar.
Pensávamos que passaríamos estas datas
Sempre juntos.

Tudo que brilha nos remete a o nosso fim
À nossa morte
Onde o terrível não é morrer
Terrível é não acabar o luto.
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NÃO DEVIA TE DIZER
Depois de todo esse tempo
O que quero mesmo te dizer
E que em cada gesto da minha vida
Eu reinvento o nosso amor.
Esse amor feito de tesão
De pernas e braços
E muito, muito coração.
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Um comentário:

Josemir disse...

talves perdesse o sonho dentro de mim.


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