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sexta-feira, 31 de julho de 2009

Mudança de perspectiva



Após a morte da minha mãe, convivendo de perto com meu pai, assistindo sua velhice, sua decrepitude, sua completa perda de habilidades corriqueiras, ou ainda, ao ver o homem que eu conheci, amei e temi desaparecer cotidianamente nas estranhezas desse outro - velho e fraco - entendi o meu desamparo.

Ao presenciar essas ausências, a real da minha mãe morta e essa outra, a desse impostor - que rouba dia-a-dia o pai que eu tive - entendi as minhas próprias perdas. A perda da menina que eu fui, suas histórias e peripécias, contadas de várias formas por meus pais ao longo de minha vida. Histórias, que na maioria das vezes, eram como um filme que se assiste pela primeira vez, mas que depois de contadas em tantas ocasiões, aquela menina da história, aquela menina foi se tornando real e, na verdade, eu me tornei essa memória através das histórias de meus pais.

A adolescente, o mundo que descobri, as muitas voltas que dei e agora retorno aqui, ao lado da memória de minha mãe morta e de meu pai envelhecido. Nesse movimento é como se eu nunca mais pudesse provar, ou ter a certeza daquela que eu fui, pois as testemunhas da minha vida se foram, literalmente.

Meus pais me pregaram a última(será?) peça. Me desampararam nesse mar de memória onde, alguém desavisado, jamais poderá reconhecer em mim, a menina, a adolescente, a mulher que eu fui.

Ao me deixarem assim, como que me obrigam a entender que o tempo passou e, que agora, daqui pra frente, estou sozinha, sem referências, sem testemunhas, abandonada - por assim dizer - nesse tribunal da eternidade.

Um dia, não muito longe daqui, não só minhas histórias, minha pequena biografia será totalmente ignorada, mas a minha inteira existência.

Em vão busco importância para minha vida, quando, em ocasiões como essas, tão assustadoramente reveladoras, sinto, sem nenhuma dor, a grande desimportância do EU, e ao mesmo tempo, minha perplexidade ao me olhar, ao me tocar nestas outras dimensões, e perceber que eu posso ser toda e qualquer história.

Nesse horizonte, ser e não ser se tocam, se misturam...como naquelas tardes incrivelmente luminosas, onde o olhar atravessa o tempo e o céu e o mar se confundem, quase sem nenhuma cor, envolvidos nas brumas brilhantes das memórias.
Memórias dos mortos e dos anjos.
fotos - Walll, Guarujá, 2009
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21 comentários:

dani.penna disse...

Texto lindo, uau!
Brigada, beijo!

Rê :) disse...

Nossa, belo post e o texto se encaixou em mim. Não que eu viva isso, ainda tenho meus pais, mas eu sou tão ansiosa que fico sempre com os pensamentos longe e parece que quanto mais meus pais envelhecem mais eu sinto de perto que algo ruim pode acontecer com eles, e o desespero dentro de mim se instala.
É uma coisa horrivel, tenho que parar de ter esses pensamentos.

Bjo grande ;)

Walkyria Suleiman disse...

DaniModela, cê sabe do q tô falando, minha nega!

Walkyria Suleiman disse...

Rê querida, não sei como fugir desses pensamentos, na verdade acho que eles revelam outros sentimentos que nem estão organizados ainda, sendo assim, mais verdadeiros, a meu ver. Sei lá, a gente não sabe nada né?

LoLLa disse...

hi :)
unfortunately i dont know your language & i canT speak :( i love your blog very nice .)but i donT understand :(( ;)
i wonder do you speaking english?

Walkyria Suleiman disse...

Lolla, and y loved your blog. I speak a litle, and a write more or less. You can trie...ok? Thanks for your worlds.

Angus disse...

Me gusta.

Walkyria Suleiman disse...

Gracias, Angus...

sam rock disse...

A memoria hai que disfrutala, pois sempre hai tempos alegres na nosa vida e persoas que merecen a pena coñecelas.

Unha aperta e feliz fin se semana.

LoLLa disse...

grazie ;)
i have learned italiano for one mounth .) kisses honey

Walkyria Suleiman disse...

Lolla, io ó imparato italiano come te, peró non escrivo molto benne, anche non parlo benne... sonno domenticada de tanti cose.....possiamo provare a comunicarse, um pó in italiano, un pó in inglês, me piace, e a te?....bacci

LoLLa disse...

sono di turchia .)
parlo un po di italiano ma non capisco :(
english's better for me and better for us .) bec italiano & portuguese difficult languages :(
Let's continue with the English?

LoLLa disse...

i can learn portuguese may be :))

beijo .)

Boa noite .) :)

Arte Sublime disse...

Valkiria Venho aqui agradecer por ter aderido ao meu blog Do Sublime por não ter outra forma de o fazer .
Seja Bemvinda amiga
artetribune@gmail.com

Walkyria Suleiman disse...

LoLLa why not?
bacci, kisses, beijos

Walkyria Suleiman disse...

A arte é sublime mesmo.....lindas imagens, me fizeram sonhar muito
beijos e bem-vinda

Sylvio. disse...

Experiências de umas, conhecimentos de outros.
Ouvir vc me traz conhecimento, pelas diferenças de ótica.

Walkyria Suleiman disse...

Sylavio,verdade, mas eu pelo menos, nem sempre entro num papo de modo aberto. Parece que carrego minhas certezas, me impedindo assim, de aprender.

Sylvio. disse...

Considero-a completa. Uma boa aprendiz. Abertura faz de nos bons professores.
"Bendito aquele que tira de dentro de si aquilo que possui. O que não for tirado lhe pesará mais tarde".
Pretendo sair daqui com o menor peso possível...

Lau Baptista disse...

Nossa menina, você me fez chorar.
Perdi meu pai no dia 20/07/09 com 86 anos e a minha mãe há 3 anos, no dia 4 de agosto de 2006.
Lindo seu texto e muito verdadeiro.
Obrigado, beijos,
Lau Baptista

Walkyria Suleiman disse...

Lau, eu às vezes penso que todos sentimos mais ou menos as mesmas dores. É do humano. Me sinto menos sozinha quando alguém, como você, tem coragem e disposição de compartilhar. Obrigada.


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