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quarta-feira, 18 de março de 2009

Clodovil Hernandes

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Em 1979,(eu tinha então 25 aninhos, rebelda e hippie...ainda) o meu primo Abdo, (que a gente chama de Junior) ia se casar. Era o primeiro casamento do clã Suleiman, porque a rebelda que vos escreve, lógico que não casou. Então tava o maior agito! Era bufet pra-cá, flores prá-lá, parentada vindo de todo que é canto do país e das Arábias. E claro, os habillés das mulheres do clã Suleiman tinham que ser de arrasar.


Minha mãe que era toda cheia de tric-tric, era amiga e "clienta" do Clodovil. Tinha também amizade com a mãe do Clodô, uma espanhola bem da engraçada. Ele tinha uma loja super-badalada na Avenida Cidade Jardim, esquina com a Rua Itália. Bom, baixamos então minhas três irmãs, minha mãe e eu, as Suleimans em peso, pra ver as criações do mestre. Lembro a vocês que eu andava de topatudo- aquele tênis-bota da alpargatas - calças largas, jeans e camiseta. Meu cabelo era uma palha na cintura, descabelada e feliz da vida. (meu cabelo só conheceu condicionador no século XXI)
Eu havia dito que nem morta ia vestir uma roupa tipo "costureiro". Mas sabe como é mãe. Leva a gente na conversa, "vamos que ele dá um jeito, ele é óóóótimo, não faz assim com a mamãe" e lá estava eu, com minha cara lavada, qualquer coisa ganhava, e até meio envergonhada.

Aí vieram esboços para vestidos das minhas irmãs. Rosa, azul, bolinhas, debrus, esvoaçamentos, fru-frus..... para mim tudo parecia um bolo desses de padaria cafona.
Quando chegou a minha vez -minha mãe já tinha passado as coordenadas para ele - Clodô puxa um croquis todo em preto e branco. Gente..... era uma saia preta justa de cetim preta, uma camiseta por fora da cintura em branco, e um casaco simples, preto também. A graça era que tanto a camiseta quanto o casaco eram inteirinhos bordados de lantejoulas. Enfim, era um terno muito lindo, discreto, e a minha cara. Adoro tudo que brilha, até hoje. Bem, gostei, fiz algumas ressalvas tipo " se ficar ridículo não uso", mas tudo bem, ele já tinha me ganhado. Na saída ele me dá um abraço assim, meio desligado, e diz num sussurro: "mas vê de dá uma aparada nessa juba heim!"

Bom, contei tudo isso pra dizer que achei um barato essa coisa toda dele sacar o meu tipo, fazer algo que me agradasse, mesmo que não representasse uma novidade para ele. Foi sensível da parte dele, né não?

Acho também que, deixando de lado as críticas que possam ser feitas, Clodovil lutou para se firmar em sua arte, e teve coragem de se expôr, numa época em que ser homosexual era motivo de desonra e escárnio na nossa sociedade. Não que tenha mudado muito, no fundo o preconceito continua, mas é bem disfarçado pelas políticas de correção.

No início dos anos 80, apresentou na Rede Globo o programa feminino TV Mulher, considerado revolucionário na época, ao lado da ex-prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, que naquele tempo era apenas sexóloga.

Coloco aqui a foto do lustre de seu gabinete. Vejam, é muito bacana mesmo morar no Brasil, onde lá, na Câmara de Deputados, o neguinho pode colocar uma peça dessas. E mais, ter a coragem de gozar assim de todo mundo.

Então, vai com Deus Clodovil!
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6 comentários:

Senhor da Vida disse...

Adoro ouvir historias reais e certamente a vida desse personagem dara uma bela biografia.
Polemico e acima de tudo autentico. concordo com tudo o que voce disse, porque no mundo de hoje ser gay continua tendo o mesmo peso dessa epoca que voce cita, mas com a diferença, que é de forma velada.
Quem tem dinheiro hoje pode ser o que quiser, embora as pessoas nao concordem.
Por fim deixam de valorizar o ser humano em sua essencia.
particularmente confesso que me decepcionei com ele na politica, jurava que ele ia defender a causa. Ma nem por isso retiro meus aplausos, pois ele foi show.
E com certeza estara nas Graças de Deus. Beijos!

Livia disse...

...e nos finalmentes, vc usou a roupa? Ficou mais linda?

Walkyria Suleiman disse...

Você disse uma coisa capciosa mesmo. Quem tem dinheiro e poder pode fazer de um tudo mesmo. Até esconde, mas faz. Cria divórcio como o Henrique VIII, ou se cerca de garotos mas é macho, como o Alaxandre, ou bebe todas como os sheikes árabes em sua intimidade. Ir contra a maré, isso é diferente né?

Walkyria Suleiman disse...

Ah Liv, claro que usei. E usei o casaco até uns anos atrás, quando ele praticamente tinha apenas, meia dúzia de lantejoulas , porque o resto caiu ao longo de duas décadas de farra.

Tais disse...

Esse lustre não pertence ao Clodovil é fake... achei sua história super bacana porém a ilustração não é digna da mesma

http://ofuxico.terra.com.br/materia/noticia/2008/02/19/lustre-em-forma-de-penis-do-deputado-clodovil-e-fake-entenda-74241.htm

Walkyria Suleiman disse...

Tais, obrigada por tua dica. A exemplo do site que vc citou, existem pelo menos mais 10 que dizem o contrário. Tem site que até dá o nome da estilista que montou o lustre. Mas sim, vamos dar o benefício da dúvida. Por outrolado, se é mentira ou verdade, em nada desabona a pessoa e a honra de Clodovil, né? Um beijo procê.


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