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sábado, 16 de maio de 2009

Justiça pra Wilson Simonal


Das muitas injustiças cometidas pelo ser-humano contra outro ser-humano, talvez o julgamento sumário, sem provas ou fatos, seja a mais incompreensível. Pensando bem, qualquer julgamento é sem sentido. A razão de alguém perder seu valor, sua dignidade, em questão de segundos, é para mim um fato real inexplicável.

Dentre essas histórias elejo uma que presenciei, ainda que com pouca idade, a de Wilson Simonal.

Sua carreira construída do zero ao topo, sua excelência musical, seu carisma que mobilizava multidões (mais de uma vez no maracanãzinho, por exemplo) sua inegável posição de maior cantor brasileiro de todos os tempos, nada disso entra em questão aqui. O que me motiva é a grande injustiça cometida contra ele. Também não quero entrar no mérito de sua culpa ou inocência - mesmo porque ele foi absolvido por um tribunal – e sim o fato dele ter sido varrido das páginas da história, ah...isso não posso compreender.

De imperadores que mataram seus familiares, a atrizes de direita ou medrosas, passando por filósofos que asfixiam esposas com travesseiros, ou atores pedófilos, a história está cheia. Porém, suas vidas e méritos, onde houve, não foram esquecidos e, nem tampouco, diminuídos em detrimento de suas crenças e ideologias.

Mas vamos deixar de conversa fiada e ir ao ponto, “o quê mesmo aconteceu com o Simonal?” Vamos lembrar que naquela época, anos 60, a discriminação racial corria solta no mundo e velada, aqui no Brasil. Negros faziam sucesso? Ou melhor, esse sucesso garantia inclusão social e renda mensal? Não, não mesmo, basta citar o fim de alguns deles, como Garrincha ou Cartola. Precisaria ainda alguns anos para que leis fossem criadas e corações e almas transformadas. Mas na época em questão, ele era o primeiro negro com talento reconhecido e mais, arrogância, imponência, quase um assinte ao status quo. Pois ser reconhecido, tenha dó, não significava se comparar ou se imiscuir com a eleite. Triste mas verdadeiro.

Simonal foi, nas palavras de Ruy Castro “um dos maiores fenômenos da história da música popular brasileira. Ele era musical, era popular e era brasileiro. Tudo isso ao cubo ou ainda mais.” Devo dizer que além de tudo, o cara era bonito, másculo, um homem assediado, quer por seu talento e fama, quer por sua beleza. Ele era tão imprevisível, que nas gravações ao vivo, interagia com a platéia na hora do intervalo, cunhando expressões que seriam amplamente divulgadas e iconizadas pelo tropicalismo e patriotismo da época, como : Alegria alegria, patropi, s´imbora, vou deixar cair, não vem que não tem.... e por aí afora.

Seu sucesso enriqueceu muita gente e, como muitos artistas, não entendia nada de finanças. Um dia percebeu que havia um rombo em suas contas e, num infeliz episódio, seu contador assinou confissão de culpa, em 1971, no Dops. Na sequência esse contador diz ter sido torturado e coisa e tal. O inspetor responsável pelo caso do contador se explicou dizendo que Simonal era - supostamente, sem nenhuma evidência formal - informante da polícia política e que ele entendeu que o contador fosse mais um dos delatados.

E assim, talvez aqui, tenha sido o instante antes do segundo que mudaria tudo, o segundo onde o Pasquim sairia à frente na difamação de Simonal, sem prova alguma, usando da verve e talento de seus jornalistas para acabar com Simonal. Em pouco tempo Simonal foi desacreditado, seus shows cancelados, discos tirados de catálogo e, recebeu o apelido de “dedo duro”, que o acompanharia até sua morte, 30 anos depois, pobre, doente, magoado e perplexo: “ Sou o único criminoso político brasileiro que nunca foi anistiado” - diria Simonal cheio de tristeza e decepção.

Em 2003, a Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil, declarou Wilson Simonal inocente de todas as acusações impetradas a ele, mas nosso artista já havia morrido, assim como sua esperança.

Faço questão de ressaltar dois pontos que considero muito marcantes nessa história. Primeiro que, apesar de abandonado por todos, pobre, difamado e sem trabalho, Simonal teve o apoio irrestrito de alguns amigos, como Elis Regina, Miele, Ronaldo Bôscoli, Nelson Motta, Carlinhos Lyra, Caetano Veloso, Laurinha e Abelardo Figueiredo, entre outros.

Segundo, que os difamadores de Simonal, os jonalistas Jaguar e Ziraldo, recebem hoje salários e indenizações bilionárias do estado por prejuízos financeiros causados pela ditadura. Justiça seja feita, Millôr Fernandes se negou a exigir indenização e ainda se admirou de seus colegas de redação na frase lapidar, "quer dizer que aquilo não era ideologia, era investimento?"

É gente, os danos morais e financeiros causados a Wilson Simonal, nunca poderão ser reparados, ainda que se façam filmes, documentários, livros, que seus discos voltem a ser editados, nada, mas nada mesmo vai redimir os brasileiros dessa grande injustiça. Quanto a seus descendentes, opa, ainda é tempo de algo ser feito e, ainda que de forma indireta, reparar infimamente o mal causado a esse ser excepcional chamado Wilson Simonal.

Pois, em toda vida perdida, roubada, perdemos todos um pouco de nossas próprias vidas..... ainda que não saibamos.

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