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terça-feira, 2 de junho de 2009

Bem-vindo ao mundo livre





Essa semana, se os chineses pudessem, se manife
stariam com estardalhaço, homenageando o aniversário dos 20 anos da repressão aos protestos na Praça da Paz Celestial.

Em 4 de
junho de 1989, o exército chinês pôs fim, brutalmente, aos protestos que exigiam mais democracia no país.

Naquela semana centenas de jovens e operários foram mortos sumariamente e, em seguida, familiares e simpatizantes desapareceram de suas casas. Acredita-se que pelo menos 200 pessoas ainda estejam presas em virtude daquelas dias de lutas e manifestações.

Quem não se lembra desta foto, onde um jovem se coloca à frente de uma fileira de tanques, como forma de barrar seu avanço sobre os manifestantes? Nunca se soube seu paradeiro, nem ao menos seu nome, assim como de todos aqueles que foram mortos durante aquela semana. Desde segunda-feira, blogs e sites de relacionamento, como o Twitter, Hotmail ou sites de fotos como o Flickr, estão sem acesso para os chineses, pois foram bloqueados pelo governo chinês, temeroso de manifestações referentes ao 4 de junho de 89.

Muito se fala sobre o fechamento da prisão de Guantánamo, um atentado gritante às leis do "mundo livre".

É condição absoluta, sob a ótica do nosso "mundo livre", julgamento dentro das instituições legalizadas, formalização da culpa, bem como acompanhamento específico para cada caso em particular.

Nisso está incluída a noção de registro de prisioneiros, bem como seu paradeiro e tratamento. Instituições bastante idôneas - no mundo todo - se encarregam destas particularidades, bem como de fazer com que as leis e convenções humanitárias do nosso "mundo livre" sejam cumpridas.

Não que prisões desse tipo não existam clandestinamente. Porém sempre que denunciadas, são minuciosamente investigadas, bem como seus integrantes, além da ajuda sempre presente do "mundo livre", àqueles que por ventura tenham sofrido algum dano com a discriminação. Basta lembrar das indenizações que nós, do "mundo livre" estamos pagando para aqueles que dizem ter sido lesados pelo golpe de 64, onde prisões aleatórias e sem respaldo legal eram comuns, que aliás são mesmo, seja no Brasil dos militares, na Cuba de Guevara, ou na Rússia de Lenin.

Esse tipo de prisão sem "lei", é comum em países pouco desenvolvidos no quesito direitos humanos, que por vezes, emprestam suas instalações para os ditos "desenvolvidos", para suas necessidades especiais. A urgência de fechar a prisão de Guantánamo, vem desse horror que nós do "mundo livre", temos daqueles que não proclamam a liberdade individual como nós a entendemos e amamos.

Mas tem suas exceções. Seu tratamento na morte, será uma extensão de sua origem, classe social, bem como cor, credo e raça.


Semana passada, a barragem de Algodões 1 cedeu, deixando sete mortos, 2 mil desabrigados, 973 desalojados e 80 feridos. Alguém aqui sabe o nome dessas pessoas, sejam as afogadas ou as sem-teto?

E os caminhões de bóia-frias que, vira e mexe, rolam pelas estradas matando seus ocupantes? Você viu algum perfil nos periódicos que você lê?

E quando os ônibus colidem nas estradas brasileiras, você se lembra das fotos das pessoas mortas nos acidentes?

Ontem, quando meu filho chegou em casa disse jocosamente, que havia morrido gente muito fina no acidente da Air France.

Ou seja, se você é rico e poderoso, e habitante do "mundo livre", até na morte terá tratamento diferenciado. Aqui você é alguém, tem sua foto estampada em todos os jornais, seu perfil publicado com louvor e, sua importância como ser humano, revestida das pompas que merece.

Então fique atento; se você tiver que morrer assim, por favor, deixa de ser pobre e não vai morrer num reles acidente de ônibus na BR116, por exemplo. Nem tampouco em lugares desamparados pelas autoridades como o Piauí.

Seja chique ómi, arruma um emprego de gente, vai pras europas, seja alguém notável. Não me invente de morrer na China ou no Iraque heim, e se assim for, seja no mínimo, repórter ou embaixador.

Crie vergonha logo, engendre seus 15 minutos de glória, ainda que morto.

Cortesia do "mundo livre".
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