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sexta-feira, 26 de junho de 2009

Blogagem coletiva - Dia Mundial de Combate às Drogas



Não existe boca livre na vida. Tudo que chega a você, para seu uso, desfrute ou deleite, alguém pagou de algum modo, em espécie ou trabalho.


Cada pequena coisa - tipo, uma maçã - envolve o trabalho de milhares, quando não, de milhões de pessoas. Basta fazer uma simples historinha, pensando na vida dessa maçã: sua semeadura, plantio, cultivo, colheita, seleção, embalagem, comercialização, transporte, exposição e venda. Imagina quanta gente tocou a pequena maçã durante sua vida! Bem, isso é só um ínfimo exemplo dos caminhos e das pessoas envolvidas para que essa simples realidade fosse concretizada: uma maçã à sua frente, que você não pagou, ganhou de presente, uma boca livre (mesmo que você tenha pago por ela, isso não muda a vida da maçã, apenas a sua relação com ela).


Vamos deixar essa teoria de lado alguns parágrafos, e entremos no assunto principal.


Vou falar de drogas, não de números, nem teorias, malefícios, porque não sou técnica nem nada e, isso, sinceramente não me compete, nem posso mudar nada, efetivamente, na prática. Porque não sou uma líder mundial, nem lar de drogados, benfeitora filantrópica, muito menos deputada ou afins.


Vou falar da coisa que mais entendo, que sou a única especialista neste mundo: falarei de mim mesma, da Walkyria, assunto que sou PHD, embora muita gente e, eu mesma ache, que comprei esse diploma, tamanha a minha ignorância em certas situações.


Dito isso e, contando com a inteligência e boa vontade do leitor (você, né) posso começar (tava na hora).


Como tudo que recebemos de mão-beijada, sem esforço e sem consciência, os efeitos da droga chegam pra gente, como uma grande boca livre. Não digo a compra da droga, mas os seus efeitos, aos lugares inusitados que elas nos levam quando as usamos.


Do mesmo modo que posso constatar que todos têm sua cor predileta, alimento mais saborosos, tipo de fragrância, e até preferência por um determinado clima, acredito que cada um tenha a sua droga característica. Eu sou uma pessoa dos estimulantes, posso dizer que sou uma pessoa da endorfina e da adrenalina. Sendo assim, nada mais lógico do que minha imediata afeição pelos estimulantes: cafeína, nicotina, anfetaminas e, claro, cocaína. Costumava chamá-las, carinhosamente de, “as minas”.


E assim fui levando minha vida - durante algum tempo. Então, como tudo que é de graça, eu ia feliz da vida, tendo insigths e pensamentos, que em condições normais, levaria uma vida pra ter. A sensação dessas drogas me adiantava, eu pensava, criava, arrebentava. Era nóix na fita!


Era bom sabe... mas era de graça. Então eu ia assim na vida, de mãos dadas coma “as minas”. E com “as minas” passei por alguns períodos da minha vida. Eu sentia - e era fato - , que “as minas” faziam um elo poderoso com meu eu interior. Elas me levavam para dentro de mim, lá, onde eu percorria corredores, antes inacessíveis. Eu compreendia a vida, as pessoas e eu mesma, como nunca havia sonhado poder fazê-lo.


Mas então, como não tem boca livre na vida, essa compreensão veio me cobrar seu preço, meio que o diabo vindo buscar sua alma, sabe?


O preço era muito simples. Nessa aproximação forçada e artificial, porque era dependente “das minas”, eu fui me afastando do mundo, das pessoas, e do meu eu verdadeiro. Sei lá, era como se esse eu fosse uma ilusão, uma escrava, ou um abdusido, porque ele só aparecia se “as minas” estivessem junto comigo.


E, um belo dia, eu acordei sem espírito. Assim gente, assim mesmo. Acordei pra um dia escuro, sem esperança, sem força interior, apenas com aquela necessidade louca de encontrar “as minas”. Sem elas eu não era mais ninguém.


Pois é, o diabo tinha levado a minha alma.

Eu, euzinha mesmo, que era uma amante das manhãs, das estrelas, do belo, justo e verdadeiro, literalmente cagava pra tudo isso, trocava qualquer coisa pra de novo estar “dentro de mim”, de mãos dadas com as cicerones da minha alma-espírito, “as minas”!


Mas tenho uma notícia alegre-triste. A partir do dia em que descobri isso, nunca mais foi bom. “As minas” viraram seres exigentes, ranzinzas, nauseabundas e caprichosas. Nunca mais me drogar tinha o sabor do passado, da paixão, do tempo de namoro com “as minas”. Eu estava casada com elas, e era um casamento sem amor, a paixão havia acabado, e só havia dependência, carência e papo furado tipo, discutir a relação.


As minas são tão ciumentas de suas propriedades que têm poderes astrais, ah, têm sim. Bastou elas sentirem que eu estava diferente, meio sem entusiasmo, querendo mudar, elas agitaram seus seres escravizados. Onde quer que eu fosse, com o firme propósito de ficar limpa, surgia um ser, do nada, olhava pra minha cara e dizia que me sacava. Em cinco minutos eu tava no banheiro com ele.


Uma vez eu resolvi mudar de turma. Conheci um cara chique, bonitão, bem de vida, um caretão de marca maior. Quando ele veio me buscar em casa pra sairmos, trouxe flores. Minha filha Carolina disse: “arre mãe que você arrumou um cara que presta dessa vez” - e ficamos todos contentes.


Fomos jantar num daqueles lugares badalados, caros e bonitos. No final do jantar ele diz: agora a sobremesa - , e coloca na minha mão uma coisinha retangular. Quando olho, reconheço o kit de couro para cheiradas em lugares públicos. Piada triste! Uma parte de mim caiu em ruínas, e a outra, correu pro banheiro e se esbaldou.


Por essas e outras, percebi que eu havia me desconectado de tudo aquilo que era o alicerce da minha vida. Minhas crenças, minhas alegria, meus doces momentos de ligação com o todo, com o mundo, com as pessoas e, nesse movimento, comigo mesma. Eu havia trocado tudo isso, por um atalho duvidoso, por uma paixão maluca e sem alma.


Nesse momento, assim mesmo, eu entendi que se eu tivesse uma chance de voltar, teria que ser ali. E foi ali mesmo, não por saúde, ou amizades, ou meio social, ou condição financeira, porque “as minas” nunca me atrapalharam nisso. Sempre cumpri meus compromissos, e acredito que, tem gente que lerá essas palavras e pensará: “não pode ser...ela nunca deu bandeira!”


Então, por me sentir desligada desse todo, desse universo, eu parei. Parei porque não tem boca livre no mundo e porque eu queria minha alma de volta.


Como disse Rudolf Steiner, a consciência gasta a vida.


Repito que não tenho medo da morte, não ligo a mínima para o que pensam de mim (verdade nem sempre eficaz), porque eu aposto alto na minha capacidade de me esgotar, de me machucar, de segurar a peteca em areia quente ou movediça. Parei apenas por motivos espirituais.


Hoje, enfrento esse difícil caminhar de todos os seres humanos. Não abandonei “as minas” totalmente. Afinal, eu sou assim. Ainda fumo e tomo café. Mas fumo cigarro de palha, que gente, não é fácil viu. Ele apaga, não tem 4700 substâncias deliciosamente tóxicas, e faz muita sujeira. Conclusão: fumo muito pouco, mando no cigarro, ou penso que mando.


O fato é que: para mim, PHD em Walkyria, sei que apenas posso sentir a beleza e as ligações incontáveis desse corpo único do universo, quando uso a coisa mais alucinante de que Deus me dotou. Meus sentimentos, minha vontade... e meu tesão pela vida.


Posso dizer que perdi muito do arroubo e da disposição de topar qualquer parada. Mas veja bem, quem quer topar qualquer parada?


Hoje escolho com muito carinho minhas paradas. E, de mãos dadas comigo, vem todo um sonho de memória do passado e do futuro. Todo o universo, com meus antepassados, todos os que contribuem para que eu coma uma maçã, seres daqui e de outros mundos e, claro, eu mesma, como sou, sem aditivos que não os produzidos por minhas células.


Se é verdade que alguém se importa com conselhos, arrisco um. Se você quiser viver uma vida plena, seja aqui, na África, ao sul da Carolina do Norte, ou em Nova Odessa, faça a única viagem que vale a pena fazer. A viagem pra dentro de você.


O resto, bem... o resto é conversa pra boi dormir. E olha, tem muito boi na linha. O melhor que podemos fazer, é dar liberdade pra essa boiada. Solta o bicho! Seres livres são mais amorosos e felizes.


E sigamos viagem!

Nos vemos! Viajantes sempre se encontram.


ATUALIZAÇÃO ás 11:56

Veja bem, eu li tudo, umas mil vezes, pra ver se eu decoro esses sentimentos. Porque, todos os dias, quando abro os olhos pela manhã, eu realizo que hoje tenho uma alma e um espírito, presentes em mim.


Mas acreditem, é uma luta mantê-los assim.

Porque eu não mudei.

É uma escolha diária, todos os dias da minha vida! Não é fácil, nem difícil, é apenas a minha vida!


E isso não é pouco.... eu sou uma maçã, eu sou milhôes, eu trago em mim muitas vidas e histórias. Não posso perder esse elo com a humanidade.


A que passou, a que está e a que virá.

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ATUALIZAÇÃO ás 19:37

Gente, pera um pouco. Eu não sou uma adicta, nem nunca fiz tratamento, nem fui a médicos, não é bem assim. Sou, segundo especialistas, o pior tipo de consumidor. O que acha que tá tudo certo, que engana bem, que nunca dá bandeira, que leva o vício no controle e, que diz, que para quando quiser. Gente igual a mim, vocês todos conhecem aos montes e nem sabem da nada, garanto, aposto, tenho certeza.

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23 comentários:

Marcelo Negs disse...

Poxa! Que história legal! Bom saber que atingiu seu objetivo.

Que suas "próximas paradas" sejam tranquilas e sua viagens bem mais proveitosas...

Abraço,

Walkyria Suleiman disse...

Marcelo, obrigada por vc ter dedicado um tempo da sua vida pra ler minha historinha. Isso traz força interior pro lido, e tbm pro leitor.
abraços

Lúcia Soares disse...

Walkyria: prazer em conhecê-la. Por hoje vou ficar só nesta leitura. Depois volto. Emocionei-me demais.Convivi com uma pessoa da família que foi refém das drogas. Foi muito sofrido.
Deus lhe deu uma linda chance de parar e você conseguiu.Que bom!

Walkyria Suleiman disse...

Lúcia do céu. Você é uma amor de pessoa... seu comentário na blogagem coletiva, foi generoso, amoroso, humano. E informado. Obrigada por tua vnda aqui....

Ana Paula Sampaio disse...

Walkyria, prazer em conhecê-la! De verdade. Tão humana, você, e tão bela na sua humanidade e coração aberto. Voltarei! beijos!

Walkyria Suleiman disse...

Ana, você me deixa emocionada e feliz. São sentimentos que apenas outros seres, verdadeiramente HUMANOS podem transmitir. Obrigada.... Gostei muito do seu post. A vida pode mudar, para muito pior, em instantes, por causa do álcool.

Paulo Roberto Montanaro disse...

Olá Walkiria. Tudo bom? É um prazer encontrá-la novamente.

Fico muito feliz por ter tido essa iniciativa de partilhar suas história conosco. É muito corajoso falar de si mesmo para os outros, porque de certa forma precisamos falar de nós para nós mesmos antes e acho isso ainda mais difícil. Muito legal mesmo.

Tbm estou participando dessa blogagem coletiva. Se puder, me faça uma visita tbm, tá?

Há braços
Paulo

Lino Resende disse...

Uma bela história e, sim, acho que não só neste, mas em muitos casos, temos de ter uma luta diária, que reafirma nossa vontade.

Walkyria Suleiman disse...

Paulo, legal te ver novamente em outro lugar do planeta. E quanto a coragem, vc tem razão no sentido grego da palavras. Coragem significa, agir com o coração. Mais razão ainda, quando diz que a gente tem que se ver antes de se mostrar. Valeu!

Walkyria Suleiman disse...

Lino, cheio de razão, ao menos assim me parece. Otávio Paz disse, certa vez, que "O ato mais revolucionário do século XX era o amor".

Sabe, ele tava certo, e já estamos no XXI.

Enfim, quando os critérios de "gostar e desgotar" puderem estar submetidos ao amor, e não a modismos ou dramas pessoais psicanalíticos, então, a coisa muda. Acredito que já tá mudando...óia nóix aqui!

e sim, se ver não é mesmo tão fácil, mas não chamaria de luta. Chamaria de disciplina, de ato da vontade, de tesão.

Cristiano Melo disse...

Walkyria,
parabéns pela disposição em escrever sobre "suas paradas". Destaco a parte em que vc convida a um caminho que "deveria" ser único, que na verdade é mesmo, o de se conhecer... Estou encantado com a qualidade de seu texto e dos que tenho lido na blogagem coletiva. Uma sensação de paz aparece e me convida a me conhecer mais, um PHD de Cristiano, inspirado por uma PHD em Walkyria. Pessimista que sou, isto traz um pouco de otimismo pra mim.
Obrigado e que este dia fique registrado não apenas em nossos blogs, mas em nossas mentes e corações!

Karina disse...

Definitivamente um belo texto. Honesto com você mesma. E isso é o mais importante.

bela iniciativa essada Bea não?

Bjs

Walkyria Suleiman disse...

Cristiano, que seria do meu Céu Aberto sem teu Mar Aberto? Quando a gente se graduar no nosso PHD, a gente pode comemorar. Enquanto issso, calouros que somos, vamos conversar sobre nossas teses, nem sempre as mais corretas, mas seguramente, as mais verdadeiras. E que nossos corações e mentes tenham se aberto mais, neste céu e neste mar.

Walkyria Suleiman disse...

POIS É, QUERIDA KARINA. VC NÃO APENAS TEM DOIS OUVIDOS, COMO OUVE DOS DOIS LADOS. PORTANTO, NADA MAIS NATURAL, PARA UM SER QUE TEM ESSA FLEXIBILIDADE, SE BENEFICIAR DE TUDO QUE TEM NESTE PLANETA. AFINAL, TUDO QUE EXISTE NA TERRA, PARA O BEM OU PARA O MAL, FAZ PARTE INSEPARÁVEL DO NOSSO PLANETA. QUIÇA HOUVESSEM MAIS PESSOAS COMO VC.

Bea - Compulsão Diária disse...

Wal,

Excelente postado de quem fala de dentro da experiência.

são os que passaram por esse inferno, atravessaram esse fantasma os que mais podem ajudar.

além disso sua estória ;)) é bem escrita e delicada.

gratíssima por nos dar tanto de si.;))

Seu texto engrandeceu a blogagem

Marcos Pontes disse...

Parabéns por manter-se ativamente mantendo a linha e pela coragem da confissão pública.
quem defende a legalização ou a descriminalização das drogas é irresponsável se defende essa posição sem conhecer a realidade dos adictos.
Excelente post.

Walkyria Suleiman disse...

Bea, obrigada por tudo, dedicação, paciência e atutide. Deixa só eu acrescentar, que acho que todos passam por isso, de um modo ou de outro. Apenas o cara que vai até as drogas, seja ela qual for, inclusive um má relação, um trabalho alucinante, uma compulsão qqr, passa por isso. Todos passamos. E acredite, confessamos mesnos que aqueles que se drogam na cara dos outros. Sei lá...

Walkyria Suleiman disse...

Calma Marcos, não sou nem fui uma adicta. Dá uma lida na atualização que fiz no post. Mas, de qualquer modo, obrigada por suas palavras. Tem a ver.

Vanessa disse...

Belo texto, já cheguei depois da atualização e entendi quenão és adicta mas a história emociona de todo jeito. Tb estou na coletiva e só agora pude passar para comentar os postados. Abraço!

Walkyria Suleiman disse...

Oi Vanessa, então vou lá ver seu post. Obrigada por retornar seu entendimento...rsrsrs.

Walkyria Suleiman disse...

Lino, amor é amor, entendimento é entendimento. E envolvimento, o nego começou a respirar na sala de parto.... tá envolvido.

albarmvieira disse...

Walkyria:
Depoimento fantástico de uma pessoa de verdade! Nem isso nem aquilo, nem adicta nem limpa, apenas um ser vivente. Acho que o que foi definitivo no seu trajeto é que você é pessoa extremamente consciente que soube enxergar a sua trajetória e apostou em você. E com uma compreensão que é definitiva em relação a qualquer questão difícil na vida: o trabalho nunca está completo, deve-se investir nele a cada dia. Hoje você enfrenta a vida com os atributos que possui e a vontade de desenvolver outras habilidades, não contando mais com falsos aditivos nem buscando atalhos enganadores.
Um grande abraço!

Walkyria Suleiman disse...

Alba, gostei muito do seu texto, pq gosto de coisa assim, que veem além do nariz, dos achismos pessoais, e que sabe, que cada um é um, e são muitos, ao mesmo tempo. Não existe recriminar, julgar, elocubrar. Às vezes, tenho vontade de rogar uma praga...mas sei que não precisa. Sabemos que é perigoso dizer...dessa água não beberei. Vira um rio.

E Alba, como existem atalhos enganadores. Num certo sentido, sorte daquele que encontram o atalho nas drogas. É mais fácil detectar esse atalho. O resto, se acha muito sadio...hehehe. Faz-me rir.


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