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quarta-feira, 17 de junho de 2009

A Bonitona Encalhada

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Sou uma leitora compulsiva.

Leio bulas, placas de carro, sinalizações, propagandas e, tudo ou qualquer coisa que passar diante dos meus olhos. Se estou comendo algo e tem um suco na minha frente, leio a embalagem, viro e reviro atrás de mais informação.

Porém existem coisas que não leio, como por exemplo, revistas, jornais e mãos, porque de cigana, tenho nada mesmo.

Também não leio livro algum que não me cative nas primeiras dez páginas. Largo sem remorso, seja o livro que for.

Outra coisa que tenho com livros, é que se gosto, tenho que tê-los, pois, a vida toda recorro a eles. Em cada lembrança saio à captura do parágrafo em questão. Para tanto, lógico que leio grifando tudo que me interessa.

Vai daí que, quando estou numa livraria, vou pegando um livro cá, um livro lá, esperando o momento em que serei capturada por letrinhas que, em fila, se alojarão no meu imaginário e, pronto! Estou à mercê do livro.

Foi assim que conheci (de susto) a maioria dos autores que leio avidamente. E foi assim com Isabel Allende. Lembro que peguei um livrinho pequeno, de capa colorida, uma edição do clube do livro da “Casa dos Espíritos”. Bem, a Isabel é au concours. Hoje em dia, só de ler seu nome me dá arrepios.

Muitas vezes ao lê-la, meu coração se enche de cumplicidade e agradecimento, por existir no mundo uma pessoa como ela, que traduz de forma simples e poética os meus sentimentos mais estapafúrdios. Sentimentos estes, tão desconexos, que nem chegam de forma organizada à minha alma. E ficam lá, fazendo a maior estrepolia na minha mente, como crianças deixadas à vontade numa doceira, ou numa gôndola de chocolates do um super-mercado.

Nestes momentos mágicos e abençoados, paro a leitura, procuro a foto da Isabel na contra-capa e abraço o livro com carinho, grata, mas muito grata mesmo por ela existir, e mais, por eu ter chegado a conhecê-la. Sim, porque nesta vida de tantos caminhos, muitos também são os desvios.

É assim a minha relação com os autores que admiro. Poderia citar muitos, graças à Deus. Mas hoje vou citar a Clarissa Estés Píncola, que escreveu o fantástico, “Mulheres que Correm Com os Lobos” (a Priscila, uma amiga do coração, me emprestou e eu nunca devolvi. Assumi que queria aquele livro, e tinha que ser aquele, porque eu já tinha grifado tudo, de cabo a rabo).

Costumo dizer que todo ser humano devia ler este livro, ele é um guia pra alma, um mapa para os corações humanos. Mas sua linguagem é às vezes hermética, sua literatura é de pesquisa, embora ela seja muito, mas muito humana. Resumindo: às vezes enche um pouco ler tanta teoria, mesmo que recheada se suas experiências sérias e criativas.

Mas, dia desses, tive a grande alegria de pegar um livrinho, q
ue também me capturou, e ter essa mesma emoção. Pois é minha gente, fui capturada no blog da autora, a Laura Henriques. Ela tem o blog “A Bonitona Encalhada”.

Foi lá que descobri essa delícia de pessoa. Seu blog virou livro, ou melhor, seus escritos viraram um blog que, por sua vez, acabaram voltando às origens e hoje, é um livro. A linda da Laura, que nunca me viu mais gorda (mesmo porque sou magra), me mandou pelo correio.

É este livro que agora abraço emocionada e penso, “ai Laurinha, obrigada por você existir”. O que a Laurinha conta ali, tem muita semelhança com aquilo que escreve a Clarissa, com a diferença que a Laurinha é engraçada, didática, aberta, cheia de amor pra dar, e receber.

E ela não é, nem de longe, encalhada, no sentido que vocês estão pensando. Acho que todas as mulheres que me leem aqui, deveriam ler "A Bonitona Encalhada" e, se emocionar, como eu, com as teorias e peripécias da Laura.

A Laura é calorosa, gentil com nossos sentimentos e encontra, a cada minuto de sua vida, uma forma de aproveitar a beleza, a alegria e a dádiva que é viver.

Desde o começo - de caneta em punho -, grifei algumas linhas. Depois parágrafos. Finalmente estava marcando a página inteira. E... desisti! Se tivesse que grifar “A Bonitona Encalhada”, gente, tem dó, eu teria que fazer uma linha à caneta debaixo de cada linha impressa.

Tá bom, tô exagerando? Tô nada. Eu amei, e tenho certeza que vocês, Bia, Priscila, Edna, Elôca, Tânia, Marta, Daniela, Isabel, Regina, Emília, Eduarda, Ana, Gabriela, Vera, Raimunda, Mimi, Massoca, Mary, Clarinha, Carolina e Catharina, vocês vão ficar doidinhas com o livro.

Todo "Bonitão" que se preze, também deveria lê-lo, porque é uma via de acesso ao coração das mulheres.

Não resistindo e nem fazendo força para tal, copio aqui, um pedacinho muito bacana do livro. Quem leu a Clarissa, sabe que ela também recorre a essa mesma imagem, mas a seu modo. Vejam que delícia é o modo da “Bonitona” em questão, a Laurinha. Colo também a capa do livro, pra vocês verem, que ela é mesmo uma bonitona.

Marquem ai: Laura Henriques. Vocês vão ouvir falar muito dessa bonitona.


...."Acho bom poder me surpreender comigo, porque os outros, de uma forma ou de outra, tem a capacidade de nos surpreender sempre.

Essa volta eu dei pra dizer que, no fundo, ser mulher é ser muitas.

E sempre que penso nas várias mulheres que cada mulher é, lembro com carinho de uma bonequinha russa, que ganhei de Simone, uma amiga muito querida.

Não sei se todos conhecem a Matryoshka, que é uma bonequinha de madeira, muito linda e delicada, que “abriga” outra, que abriga outra e assim sucessivamente, dentro dela várias outras, idênticas, mas menores. Descobri na internet que a tradução de Matryoshka é "mãezinha".

Adorei e adoro minha bonequinha russa, linda, cheia de metáforas com as quais vou poder me divertir por tanto tempo... Afinal, o que são, ou quem são as outras bonequinhas que aquela boneca guarda?

Pensei primeiro que fossem várias versões dela mesma, muito parecidas por fora, cada uma mais escondidinha, como os vários eus que escondemos dentro de nós, os eus que vamos revelando aos poucos e para poucos, pouquíssimos que conseguem chegar à nossa última instância, à nossa primeira essência: pequenininha, mas indivísivel, guardada pelas outras todas em que a gente se transforma: profissional, amiga, namorada, menina, mulher, aluna, aprendiz, companheira, irmã, mãe, tia...

As nossas cascas são muitas, vão se abrindo, revelando outras etapas, outras matérias, outros jeitos de ser, de agir, de falar, de sonhar...

Uma bonequinha que é tantas, mas que, olhando por fora, é uma só.

Pensei também que a bonequinha podia ser cheia daquelas que vieram antes dela...na bisavó, na avó, na mãe, em todas aquelas mulheres que foram de certa forma, contribuindo e influenciando para que aquela estivesse ali, maior que elas, melhor que elas, mais detalhada, aprimorada.

É isso que somos, não é? Uma porção de genes que progredindo, evoluindo, melhorando, cuidando (e haja tratamentos estéticos), mas que provam que a gente descendeu daquele ancestral comum e que, quanto mais próximo, mais marcas deixa na gente, às vezes um tom de pele, às vezes um olhar, um levantar de sobrancelhas, um jeito de dar gargalhada ou o tom de voz...às vezes uma canela fina, ou uma perna grossa, às vezes uma simpatia imensa, às vezes uma braveza incorrigível.

Enfim, como eu já disse, uma bonequinha que é tantas, mas que, olhando por fora, é uma só...

Pensei também que a bonequinha pode ser recheada pelas escolhidas dela.
Suas amigas que, com o tempo, com a convivência, com a amizade, acabam sendo incorporadas, trazidas para dentro dela...e por serem parte da outra, que as abriga, tem seu jeito, sua cara, fazem parte do seu coração, suas eleitas, suas pessoas, seus pedacinhos que faltavam, porque a vida é muito vazia se a gente não tem ninguém pra por dentro dela.

A vida pode ser oca se a gente não acha por ai, na escola, no prédio, na faculdade, na academia, na casa da vó, no colo da mãe, ou, ainda não sei, dentro da nossa barriga, essas outras que vão trazer tantas e tantas coisas...E ai, a gente chega à mesma conclusão sempre: uma bonequinha que é tantas, mas que, olhando por fora, é uma só...

Ainda não me decidi sobre qual é a opção certa.

Talvez, olhando para minha bonequinha, ainda possam surgir novas hipóteses. Mas uma coisa é certa: elas funcionam juntas - não dá pra sumir com uma, as outras ficam sem lugar, fica um vazio sem preencher, fica um espaço esperando para ser ocupado. Não dá para substituir, cada uma tem seu tamanho e sua importância.

E, por eu ser assim, mulher, sei que também sou, de certa forma, uma bonequinha com muitas outras dentro, e tento ser, cada vez mais, uma bonequinha com mais coisas dentro: uma mulher cheia de descobertas, de novidades, de ensinamentos, de garra, de vida, de alegrias, de receptividade, de abertura.

Uma mulher em que sempre haja espaço pra mais gente, amor, alegria, aprendizado, uma mulher nova a cada dia, e livre e independente o suficiente para me assumir dependente de carinho, afeto, apoio e de todas as formas de amor."
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16 comentários:

dani.penna disse...

Opa, quanta novidade!
Tá cada vez mais bonitão esse brog...
Essa Wal sempre surpreende!
beijo!

Walkyria Suleiman disse...

Oncetá?

dani.penna disse...

Divinha onqueutô...?
Trabaiano.... Vida de nêgo é difici, é difici...
(mas deverte! E como!)
beijoca!

dani.penna disse...

Sá o que mais? A bonitona do brog parece que vai desencaiá... Esses tar de brog pareci qui dão sorte... Acho qui vô fazê um prá mim..... Ou me mando prá Paris!
beijo!

Laura H disse...

Waaaaaaaaaaaalll, que doçura de palavras! Muito obrigada pelo carinho de sempre e adorei saber que você, como eu, é uma apaixonada por Isabel Allende...como é que a gente lê Paula e passa imune? Como é que a gente consegue desgrudar de "A Casa dos Espíritos". O melhor do blog, e da internet, e conhecer pessoas que, ao vivo, talvez a gente nunca conheceria né? Bjão, obrigada por tudo!

Gaby Tischer disse...

Nooossa...sou uma bonitinha encalhada!!!!!!!! Amei Wal!!! MESMO! lá vou eu "ter e ler" esse livro e cá entre nós...seus textos estão cada vez mais gostosos de ler..daí dá vontade de abraçar você e agradecer de ter você na vida, dentro da minha matrioska!! Obrigada por existir! mooontes de beijos

Anônimo disse...

Como admiro isso, que criatividade a sua, que emoção, que bonita! E a Isabel no livro "A soma dos dias"? A gente chora, rí, agradece e.. aprende, né?
Sonia (Tokkou 70º)

Walkyria Suleiman disse...

Dani my love, vc tem que ler o "bonitona". vai economizar anos de conselhos meus....hehehe

Walkyria Suleiman disse...

Laura, eu tenho a impressão que estamos dentor da "matrioska", uma da outra. Que bom, que bom que vc entrou na minha vida.

Walkyria Suleiman disse...

Gaby, você me fez chorar, iso já tá virando moda. Não é a primeira vez. Tá certo que a primeira foi de raiva. Mas uma raiva tão forte, que deu um nó, e virou amor. Te amo minha querida, te amo do fundo da minha matrioska! hehehe.....
Saudade do teu abraço!

Walkyria Suleiman disse...

Sonia, obrigada por vc chegar aqui, mostrar seu coração, tocar o meu..... obrigada!

Carlinda Hellen disse...

Wallkyria,
vc tem toda razão o livro da Laura é muito bom.Eu tive a sorte de ir no lançamento.Para mim ele já até virou uma especie de manual.
Também gostei muito do seu blog,acho q agora vc vai ver muitos posts meus por aki...rsrsrsr

Bjos

Walkyria Suleiman disse...

Carlinda, entre, o céu é seu.

Luis Valcácio disse...

Ai, Wal, que lembrança linda vc me trouxe. Li A Casa dos Espíritos nessa mesma edição do Círculo do Livro e acho que poucos livros me marcaram tanto, na adolescência. Que coisa única a história dessas mulheres, não? Belo e inesquecível.
Beijo

Walkyria Suleiman disse...

Luis, como é lindo o livro. Também fiquei contente de lembrar disso, e de outros, pq, na verdade, li todos dela. Estou fascinada com teu blog.... sou assídua.

Projeto Exilius disse...

Olá Wlakiria, parabéns pelo blog tá com uma cara linda!!
Se tiver tempo passa pelo meu:
http://www.projetoexilius.blogspot.com/


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