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terça-feira, 30 de junho de 2009

Gênio e talento

Dia destes, eu ouvia a Rádio Eldorado e Daniel Pizza e Caio Camargo, estavam levando um lero com o Eugenio Mussak. A discussão era em torno do significado da palavra gênio e da palavra talentoso. O assunto onde estava inserida essa discussão era, ainda, a morte de Michael Jackson. Ao ser chamado de gênio (o Michael) por um deles, Daniel Pizza citou Arthur Shopenhauer, filósofo e pensador alemão, nascido no século XVII. Shopenhauer dizia que, talentoso era o cara que acertava no alvo, mas que genial era o sujeito que encontrava um alvo onde ninguém podia supor um.

Fiquei esperta, enquanto tomava meu café da manhã. Pizza argumentou - será que alguém falará de
Michael Jackson daqui a 300 anos, como ainda se considera o legado de Shopenhauer? Ou ainda, será que suas letras serão lembradas como o são as obras de Shakespeare?
Vou dizer que me deu uma certa ansiedade esse assunto e foi inevitável o pensamento: - Será que alguém vai fala
r de mim, 15 minutos depois de minha morte, a não ser pra dividir os bens e decidir se serei sepultada ou cremada?
Confesso que me senti um nada, ou uma nada. Poxa, quem somos nós, a grande maioria da humanidade, que mal e porcamente acertamos no alvo, perto desses seres tão especiais como Shopenhauer ou Shakespeare?

Não, isso não estava certo, algo remexeu dentro de mim e na mesma hora me lembrei de Santa Terezinha.

Ela escreveu suas memórias, num livro que minha mãe queria muito que eu lesse, e que eu li, um mês antes de sua morte (diga-se de passagem que eu adorei). Lá, no livro, “História de Uma Alma”, ela também está encafifada com uma frase, só que não era do Daniel Pizza, era de Jesus. A frase era: “Vinde a mim as criancinhas, pois delas é o reino dos céus”.

Depois de muito meditar sobre essa afirmação de Jesus, Santa Terezinha chegou à conclusão que por, “criancinhas”, deveríamos entender “pequeninos”. Isso porque, além de não fazer o menor sentido – na opinião da santa, e na minha também - uma criança pode ser pequenina, mas um pequenino, necessariamente, não é uma criança. E então ela disse a frase genial:


- Senhor, quero fazer de maneira extraordinária, as coisas mais ordinárias da minha vida.


Essa frase me deixa sem ar!




Mas, tocando o bonde nessa linha de pensamento, ela compreende que pequeninos são pessoas comuns, que levam suas vidas, que não manifestam nada que as diferencie, que as torne especiais ou importantes. Então ela passa a dizer que deseja ser uma pequenina e esse entendimento é muito singelo e forte em toda a história dessa Santinha, como ela costuma ser chamada pelos seus devotos. Ela justifica sua escolha dizendo que, são necessários muitos pequeninos para se fazer um grande, mas, que o contrário, não acontece: milhões de grandes não fazem um pequenino.

Santa é fogo, entendi na hora que, o que ela estava falando, de maneira tão simples, era uma grande lei da natureza. Coisa de mestre, né, explicar o inexplicável em palavras comuns. Porque a lei da natureza, no que se refere à criação, ascensão, queda e transformação, é muito precisa. Numa floresta vemos claramente que a matéria viva em decomposição, gera o húmus que fará com que a floresta viceje novamente. Sem essa alimentação, a floresta sucumbiria.

Assim, também acontece com os seres humanos. Milhões de pequeninos sustentam a vida e a genialidade de um único grande que, por sua vez, influirá em milhões de pessoas - no presente e no futuro -, com suas criações, seja para o bem, seja para o mal.

Tá certo, mas ainda não estava satisfeita, afinal, que catso é esse negócio de ser pequenina, de não ser genial nem talentosa, afinal? Cumé?

Foi então que lembrei do meu pensador predileto, o véio Ibrahim, meu pai. Quando minha mãe, querendo se desculpar de alguma falta dizia “eu tive 5 filhos”, meu pai arrematava na lata: " Filho, qualquer um tem, desabrigado, refugiado, mendigo" - ele usava outras especificações, que acho melhor não falar aqui, sob pena de vocês acharem meu pensador predileto, meio preconceituoso.

Bom, mas vai daí que ele tinha e tem razão. Ter filhos não é exatamente um mérito, é mais uma disposição dos mamíferos e, porque não dizer, dos anfíbios e, por aí afora?

Em seguida me lembrei do pediatra da minha primeira filha, o Dr. Villas. Quando a Carolina nasceu, prematura, sem pulmão e intestinos formados, eu fiquei muito insegura e desesperada no dia de levá-la para casa - de táxi, porque vendemos o carro para pagar a conta de um mês de hospital. Sei que eu estava na porta do hospital, 20 anos, anos 70, com a cara de “a vida me enganou” e o Dr. Villas, muito do direto disse - Walkyria, as pessoas criaram filhos no Gueto de Varsóvia, tenha dó, vai dar tudo certo.

O que eu quero ressaltar com essas historinhas, é que o ser humano já nasce com talento para acertar o alvo. Isso se chama instinto de sobrevivência, funcionalidade, especificidade. Vai, é como um carro 1000 ou 2.0. A gente sabe o que esperar de um ser humano normal. Uns mais, outros menos, uns melhores do que os outros, vamos pela vida afora, acertando nos alvo óbvios de nossa existência. Nascemos aptos a acertar os alvos. É nossa condição humana.

Agora, sinceramente falando, descobrir um alvo inexistente dentro da nossa vida, é um feito incrível e, precisa ser muito genial. E ainda tem o livre arbítrio heim, que te permite (item de fábrica) sempre poder dizer sim, onde antes havia dito não, e vice-versa. Versátil, né! É quase como ser Flex.

Quer coisa mais esfuziante do que descobrir uma parada nova? Pensar uma solução impensável? Apostar numa ideia maluca? Largar tudo, fazer as malas e deixar o conforto do conhecido pela alegria do novo? Ah, se isso não é descobrir um alvo onde não havia alvo, eu não me chamo Walkyria.

Nessa vida, onde andamos num deserto cheio de alvos-oásis ilusórios, ver de verdade uma miragem e ir atrás dela e poder beber desse fonte, é um ato muito, mas muito do genial mesmo.

Enfim! Sinto muito Daniel Pizza e Shopenhauer, mas acho que somos todos seres humanos talentosos. Algumas vezes somos geniais, outras nem tanto, mas sim, a grande vitória é achar esse gênio em nós, independente de quantos digam que o deserto é perigoso, que os oásis são falsos, e que nunca acharemos a terra prometida. Ela existe, eu sei, sabemos, já estivemos lá algumas vezes.


A vida de qualquer ser humano é importante, porque cada ato que fazemos constroi o futuro, engendra novos pensamentos, gera campos de possibilidades impensáveis para nós. Se a gente apaga a existência de uma única pessoa, ela muda a história de toda uma família, comunidade, escola, cidade... estado? País? Planeta? Hum.... que interessante!

Outra coisa é que ninguém está apto a julgar o que pode ser considerado genial na vida do outro. Vou dar dois exemplos.

Imaginem só, o que pensavam os contemporâneos de Mozart. Ele vivia chapado, doente, se recusava a seguir as regras da corte, não conseguiu – tamanha a sua insubordinação - emprego decente em nenhum país, numa época em que ou você era contratado de algum rei, ou era nobre, ou era ralé. Ele era pura ralé.

Meu coração sempre dá um soluço quando pensa que ele morreu tão miserável e doente, que foi enterrado como indigente.

Agora me diz: como explicar esse fiasco de vida levando em consideração a sua notoriedade eterna? Como explicar a sua música, que parece água jorrando em leitos celestiais, se o cara foi um fracasso, nas medidas humanas de sucesso que a sua época professou? Como é que fica?

Outro exemplo: vamos imaginar as amigas de Maria conversando entre si:


- Menina, coitada da Maria, esse Jesus só dá preocupação. Não trabalha, anda por aí com um monte de maus elementos, vive de esmola, mal vestido... imagina, um descendente direto do Rei David...que judiação. Sem falar nos tempos que passou desaparecido deixando a Maria - viúva e pobre - sozinha no mundo. Desse jeito, vai acabar crucificado, isso sim.



Bem gente fina, pode parecer brincadeira, mas é sério. Ninguém pode dizer o que é genial pra vida da gente. Isso é intransferível, indizível, inexplicável.

Por essa razão, cada vez mais acredito que, se a gente está feliz, tem aquela garra, tem o coração entusiasmado, então, a gente tá no caminho da certo. Na nossa bem-aventurança, como disse, lindamente, Joseph Campbell.

E depois disso tudo, me senti muito talentosa e, genialmente lavei a louça e fui trabalhar, não sem antes lembrar de uma conversa maluca entre o Maikel e o Alam, que terminou assim ó:


- Sem tesão não há solução....



Essa, é do genial Roberto Freire, citada pelos meus amigos geniais.


9 comentários:

Bete Torii disse...

Amei, Walkyria! muito e muito.
beijão,
Bete

Walkyria Suleiman disse...

Querida bete, estava com saudades de vc. Onceanda, vizinha?

Marcelo Negs disse...

Ainda bem que não estou sozinho no mundo. Obrigado por compartilhar com todos suas idéias. Muito bacana seu texto.

Anônimo disse...

Oi, lindinha!
Ultimamente, os seus posts são a única coisa que leio com prazer.
Concordei super com vc!
Somos todos geniais à nossa maneira.Brigada, amiga...bjos da Mimi

Walkyria Suleiman disse...

Mimi, amora, é que vc gosta de mim, e deve estar sem saco de procurar, pq tem coisa legal rolando. Mas, tbm gosto de colocar em ordem meus pensamentos, escrevendo. Obrigada minha querida.

Walkyria Suleiman disse...

Marcelo, ainda bem que estamos juntos conectados. Obrigada por vc tbm compartilhar os seus. Tudo toma formatos diferentes....

milu disse...

Como é bom ter o q escreves..Hoje eu estava precisando de algo q me jogasse pra cima, então pensei "vou lá na Walquiria',então aqui encontrei o q estava precisando...Bjs.

Walkyria Suleiman disse...

Milu, eu escrevo pra saber que não estou sozinha, eu leio por isso tbm. E, quando vc me responde assim, ah Milu, faz tudo valer a pena, sabe? Obrigada, de coração.

Marcos disse...

Oi Valquiria tudo bem, estamos com saudades. A viagem já está chegando. Vamos juntos? Vamos ver se conseguimos por fotos e videos. meu email é marliv@terra.com.br. Beijos. Marcos, Xu e Mario.


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