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terça-feira, 25 de maio de 2010

Um banquete e a gente passando fome


Como eu já disse aqui, foi-se o tempo em que eu tinha uma reputação a zelar. Então, hoje pela manhã, ouvindo o programa do Gasparetto, ele me solta duas frases que me congelaram, de cabo a rabo. A primeira é essa:

- Deus te oferece um banquete e você está aí, passando fome.

E a segunda:

- Tomar posse de si mesmo, é assumir a herança que Deus lhe deu.

Ah, eu adoro o Gasparetto. Bem, minha cabeça dominadora, pôs-se a pensar sobre essas frases ,enquanto o resto do meu ser enfrentava a chuva e o trânsito da Avenida Bandeirantes.

Um dos meus temas de pensamento, hoje em dia, é a perda do desejo, é esse lance de não saber direito o que eu quero, o que eu sinto, quem sou eu afinal. Hoje em dia me vejo percebendo que a vida é boa demais, que essa terra é o melhor planeta pra se viver, e que, apesar dos pesares, minha vida é boa demais. Então porque mesmo que eu não ando por aí, explodindo de felicidade, tendo em vista que explodo por vários outros motivos menos nobres, como raiva, por exemplo?

Então, não é fácil gente fina.

Vejam bem que, desde pequenos, fomos ensinados a mentir, sim, fomos mesmo. Você não estava com vontade de ir à casa da sua avó? “Ah, coitadinha dela, você tem que ir, afinal ela é sua avó, e mais, filhinha, você tem que ficar com a carinha mais alegre da paróquia pra ela se sentir feliz.” Imagina, minha mãe me introduziu no mundo da mentira na mais tenra idade. Era mentira pra todo o lado, sempre em nome do amor.

E a vida toda foi assim. Mentiras brancas, meia verdades, mentiras necessárias, quando não as mentiras compulsivas. Eu sempre disse pros meus filhos que mentir dá muito trabalho, fora que depois me esqueço a história da mentira e acabo me entregando. Aí, preciso dar o maior golpe e criar, no melhor estilo repentista, uma nova mentira.

Pois é, então a gente vai aprendendo a mentir e mente com a cara mais deslavada do mundo e, o pior, jura de pé junto que não mente.

Todo mundo mente. E todo mundo não consegue admitir, nem pra si mesmo que mente. Êita coisinha estranha que é esse ser humano, um simples mortal, mais pro mortal do que para o simples, como gosto de lembrar quando minha mente dá uma pirueta e me deixa de quatro pela vida. É uma verdadeira prisão toda essa história.

E depois de tudo isso, ainda achamos estranho, injusto e inaceitável, que tenhamos perdido o desejo. É culpa da mãe, do pai, do ex-marido e de todo o coitadismo que consiste a vida de cada um. Cada um, na sua vida, sabe bem culpar os outros e ser bem coitado, dá pena mesmo.

Mas hoje em dia o coitadismo me dá nojo, como disse o Gasparetto muito bem dito.

Será que a gente vai assumir algum dia que, tirando quem teve uma arma apontada pro estômago, ninguém fez o que não queria fazer? Que ninguém foi obrigado a nada? E não é verdade a falta de opção. Em qualquer caso, mesmo que não exista outra opção visível (coisa em que não acredito), há sempre o suicídio, saída digna e muito utilizada por gentes de todas as épocas, ansiosas por salvar sua honra.

Seja lá como for, o fato é que mentimos, nos fazemos de coitados e de escravos do destino. E de novo, a mamis tem muito a ver com isso. Coitada, afinal ela também estava apenas nos dando educação, fazendo o seu melhor, e não há ironia nesta frase.

Por exemplo, a minha irmã. Eu tinha uma irmã que tirou dos 0 aos 12 anos pra me irritar. Sacou o que eu não gostava e fazia de tudo pra me tirar a seriedade, coisa que tenho de sobra....rsrsrs. Mas ela conseguia me fazer explodir, aliás eu aprendi a explodir com ela, pois desse modo, eu fazia ela calar a boca. Era impropério e tapa, eu era a mais velha, diga-se de passagem, e a mais burra também. Pois era bem nessa hora que ela se travestia de vítima chorosa pra minha mãe, reclamando que eu não queria dar ou fazer algo. Esse algo havia sido o fruto da minha irritação, e a arma do momento da minha irmã para provar sua tese. Minha mãe vinha como uma fera. “Oh, coitadinha da sua irmã, mais nova que você, custa você ser boazinha e dar ou fazer o que ela quer?” Por trás da minha mãe eu via o olhar de bandida da minha irmã, e o sorriso irônico de “ tá vendo, eu mando aqui sua burra, e apesar de mais nova, sou mais esperta”. Eu diria que ela era mais sacana, fato que ficou amplamente confirmado com o passar dos anos.

Bom, onde quero chegar é que as mães e as professoras tentavam fazer com que a gente fizesse sempre um sacrifício pelo outro, principalmente quando o outro era mais feio, mais burro, mais pobre, ou era alvo de qualquer preconceito vigente na época.

Minha educação islâmica-católica-judaica, está aí pra não me deixar mentir. Amor sempre estava ligado a sacrifício, a abdicação, a não realizar-se nesta vida em nome dos desejos dos outros.

De novo, é uma piada que eu ainda me pergunte porque será que perdi a noção de desejo, de desejo verdadeiro gente. Não falso, desse tipo de coisa brejeira da vida como casar, fazer faculdade, ter dinheiro pra viver com dignidade, ganhar na loteria ou que meu timão vença um campeonato.

Falo de DESEJO, em maiúsculo, falo naquilo que te sacode do sono pela manhã e que te faz pular da cama com ímpetos de viver mais 200 anos, pelos menos. Falo em acordar pra um vida maravilhosa, cheia de entusiasmo,.. vocês sabem o quê é isso? Quem não souber, mesmo tendo lido até aqui, sugiro que interrompa a leitura para não acumular mais um problema na vida.

Porque eu sei o que é estar bem, estar feliz, estar grata à vida. Eu sei!

Olha, deu até um branco aqui, tamanha a força dessa lembrança.

Mas voltando. Como posso ter ciência, posse de mim mesma, se minto o dia todo? Minto, minto sim. Ligo pra parente véia por obrigação. Faço favores pra amigos que não estava a fins em nome da amizade. Tento ser boa, não gastar água nem luz, não jogar lixo na rua, quando na verdade queria mesmo era uma jacuzzi daquelas só pra mim.

Minto, minto pra mim mesma e não vou ficar aqui entregando o ouro pro bandido.

Então estou virando uma pessoa estúpida, se é possível que eu fique mais estúpida do que sou, porque, na dúvida, eu já vou logo dizendo que não vou, que não faço que não vou atender o telefone. Daí vem a ressaca. Poxa, eu devia ter ido, eu devia ter dito, eu devia, devia, devia.... puta que pariu, onde foi que fiz esse empréstimo da minha vida pras outras pessoas? Que banco é esse?

Ser boa, ter uma bondade genuína, não é assim não. A verdadeira bondade vem do coração, não vem da mente pensante que te diz o que é certo ou errado fazer. Não existe isso. Ser boa assim é ser conveniente, o que, convenhamos, não é ser boa.

A verdadeira felicidade, a verdadeira bondade e o verdadeiro amor, eu, euzinha aqui, não sei bem o quê é não, mas sei o quê não é. Essas coisa quando são boas, não exigem retorno nem doação da nossa vida, muito menos sacrifício. E mais, não emitem duplicata ou colocam teu nome no SPC do banco do universo. Tenho a impressão que fazer as coisa por obrigação, é que deixam a nossa conta em vermelho. E aí a dívida é paga com a nossa depressão, a nossa falta de vontade e de tesão.

Não é um post triste gente, triste é fingir que não sei de nada e deixar pra outra hora encarar.

E cito um de meus modelos (modesta ela) Hermam Hesse, que disse sabiamente: " O verdadeiro amor não tem que exigir nem implorar. "

Lindo isso. Mas, na história da minha vida, sempre que eu assumi uma relação, tive que abdicar da minha liberdade e do meu desejo. E adivinhem, ninguém me pediu isso. Mas eu acreditava que era assim o amor....

Por isso Deus me livre de arrumar alguém que chegue mais perto de mim do que 50 cms (só rindo). Pelo menos até eu aprender a largar toda essa herança podre que recebi, com muito gosto aliás, porque ninguém me obrigou a nada.

Então assumirei a herança que Deus reservou pra mim: saúde, amor, felicidade e tesão pela vida.

20 comentários:

Patrícia Gonçalves disse...

Bem, vamos lá, depois de um post deste tamanho! Merece um comentário a altura. Você uma vez disse que eu dava nó na sua cabeça. Você Graças a Deus vem dando uma linda sacudida na gente, muito mais que os "nós", seus posts recentes estão bem interessantes, chamando, questionando, que nem pastor, perdoe-me a comparação, mas um bom pastor.
Vc aqui passou pelo "o que quer uma mulher", nossa insatisfação existencial, nosso pobre condicionamento, nossas heranças tão bem vistas na constelação.

Sabe, me vem uma frase, se despe de você e se entrega, assim, simples assim, na essência somos Deus!

Grande beijo

Dayane Figueiredo disse...

é verdade né..desde pequenas somos induzidos a mentir...a pessoas mentem sem necessidade alguma e agente naum percebe o quanto isso faz mau a vida da gente...um dia desses eu estava pensando justamente sobre isso...não sou lá uma mentirosa, mas as vezes agente mente até pra se livrar de algo ou não ser mau educadoo né..mas tento mto parar, mesmo com mentiras bobas...Sei que eus não se agrada nem um pouco..pra ele mentirinha ou mentirona são mentiras e ponto..gostei do teu blog..vou te seguir! beijos e obrigada pelo comentario! fica com Deus!

Tânia regina Contreiras disse...

Nossa, Wal, seu post é uma bela e necessária sacudida praos de cá, que leem você. Absolutamente verdade: se desde cedo somos treinados a mentir nos nossos desejos, evidentemente que nos perdemos de nós mesmos. " O que eu quero é o que eu quero ou o que se espera de mim?". Identifuqi-me total com seu post de hoje. Ir fazer visitinhas obrigatórias a parentes e ter que chegar com cara de quem escolheu fazê-lo...hum...bem sei o que é isso. Desabituamo-nos, assim, com a verdade, a espontaneidade, e viramos fingidores bem-educados para o bem...de quem mesmo? Nosso não é!
Muito bacana suas reflexões: adorei!
Beijo

Gerana Damulakis disse...

Quando chegar o verão (porque detesto frio), irei mesmo a SP (sim, li a respota ao comentário; na verdade - o lance hoje é verdade e mentira - já havia lido). Preciso dizer pessoalmente a Wal uma frase que minha amiga da vida inteira me disse (é, tenho uma amiga da vida inteira, sabemos de tudo uma da outra, uma delícia).
Entendi tudo, tudo, tudo e ouso dizer que é um sentimento universal. Só não podemos ficar muito tempo sentindo e refletindo sobre isto. A frase de Vanja? Muito simples e creio que vc irá nas profundezas dela:
- O tempo está passando.
Só isso. Ouvi e melhorei bastante.

betina moraes disse...

wal...

maravilhosa constatação! o post inteiro merece ser destacado mas ficarei feliz em dizer apenas que acredito verdadeiramente em liberdade e não em cárcere, que acredito mesmo sermos responsáveis pelas prisões que nos colocamos e que ninguém deve pagar por optarmos em nos prender em algo ou alguém.

também "penei" para aprender que nunca me agradeceriam pelo que não pediram de mim...


você é fera querida!


um beijo!

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Patrícia
tô mais pra ovelha desgarrada, mas caquei o ponto...hehehe.

E se eu comseguisse me despir....bem, mas é apenas o que resta pra gente. Obrigada Pa.....

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Dayane
vc vê quanta mentira contamos por dia, por motivos diversos. É ruim..... obrigada por ter voltado!

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Tânia
e agora que TEMOS que visitar os blogs de quem comenta? Tempos que postar, temos que agradecer.....é duro o quanto nos obrigamos, pq na verdade, fazemos o que fazemos por nossa vontade.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Gerana....

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Gerana....
vale dizer que vc salvou minha vida?

Vc acredita?

Menina, achei tudo tão pouco agora..... e uma vida inteira acontecendo do lado de fora!

Eu sou é muito da burra memo....

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Bbzinha

matou!

Vc e a Gerana me fizeram voltar.

Acho que aqui vc confirma seu lema sobre o amor.

A gente dá o que quer.... eu sou uma cobradora nata!

ai, que merda!

Tânia regina Contreiras disse...

Wal, nada por obrigação é bom, eu não gostop. Se tenho de fazer algo, procuro logo um jeito de me sentir bem, que seja prazeroso! É o que faço, inclusive nos comentários!

Beijso

ednampc disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
ednampc disse...

Essa é a busca do ser. Buscar a verdade sobre si mesmo, se amar e se libertar dos mitos assumidos como verdades. Acho essa a verdadeira posse de si mesmo, o caminho das descobertas. Porque o tempo passa, a vida é bela e imperfeita, e nos leva a outra busca a da caridade. Então ser amável (falso?) muitas vezes é também uma busca. Busca de quem tem fome de amor. Saudações amorosas.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Tânia
eu sinto essa verdade em cada linha sua

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

É Edna
vc sempre apontando pra generosidade, pra compreensão. VC, minha amiga, faz tudo com o coração.

Gisela Rosa disse...

Adorei sua escrita Walkyria adorei...eu mesma estou nesse processo desamarrando a teia e querendo ser mais feliz ...Um grande abraço

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Gisela
a gerna escreveu algo aqui nos comentários que foi muito forte pra mim. Tbm estou desamarrando, querendo ser mais feliz. MaS Gerana, foi direta!

ju rigoni disse...

Ser livre para agir do modo como desejamos ainda soa como uma utopia. Em alguns momentos conseguimos estar livres, porém ser totalmente livre tem a ver com ser feliz. E é aqui que a coisa fica complicada. Quem consegue ser plenamente feliz neste mundo? Seria preciso não ter boca, olhos, pele, nariz, ouvidos... Ter olhos apenas para um mundinho particular, sem janelas para o outro. E é aí que nossos desejos vão para o espaço. Ele (o desejo) fica ali, espremidinho entre os verbos estar e ser; enquanto o olho direito olha para dentro, e o esquerdo se esforça para encontrar uma saída menos egoísta, e nem tão altruísta assim, porque somos de carne e osso.
Somos imperfeitos, minha linda. Por isso, é tão difícil encontrar uma saída. Para dentro ou para fora.

Nem sei se me fiz entender, já que depois que li o comentário acho que ele ficou meio confuso. Mas eu sei que você fuma. E você sabe que eu fumo e vez em quando não dispenso um goró. Então, vai assim mesmo. Bjs, Wall. Vou dar uma olhada pelaí.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Ju...hahahaha
nove vezes fora, acho que saquei, sister.

Mas olha bem. A Madre Tereza de Calcutá, vivia na, para e entre a pobreza. Ela via tudo. Mas mantinha uma grande alegria, por estar exatamente onde ela achava que tinha que estar, fazendo exatamente o que queria fazer.

Hum.... sei lá....mil coisas.


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