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terça-feira, 25 de agosto de 2009

Na corda bamba

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Vivemos, ou procuramos viver, numa situação equilibrada. Significa que andamos na corda bamba, equilibrados sim, mas o território seguro dessa vida é uma fina e tênue linha, essa corda bamba e frouxa dos imponderáveis.

Oquei, eu já me conformei
e até aceito e consigo ver as maravilhas da lei da gravidade que me mantém de pé, que deixa as árvores crescerem soltas e graciosas em direção ao céu. Quer dizer, muito da graça e charme do mundo se perdeu quando eu entendi estas leis da natureza, leis da ordem do imponderável.

É como quando você descobre que era tudo cenário a paisagem do filme que você tanto apreciou, pelas cores, formas e beleza. E, depois, descobre que a computação digital torna ainda mais bonita a paisagem, a paisagem completamente impossível. Não sei se considero isso uma coisa boa, ou mais uma situação de equilíbrio na corda bamba.

Afinal, que beleza é essa que posso desvendar nas fotos, nos filmes, nas imagens?

Como as crianças que crescem assistindo às TVs a cabo onde se mostra uma natureza exuberante, leões bem penteados, maquiados e limpos. Quando a gente vai no habita natural do bicho, bem, não é isso que se vê. Mesmo no zôo, os animais têm cheiro forte, estão despenteados, e de perto, não apresentam aquela pose incrível, aquele momento captado com maestria por câmeras. Depois, esses momentos são selecionados, editados, ufa, enfim, aprendemos um mundo imagético que não bate com a realidade. Então...

O que quero dizer é que, depois de muita água rolar aqui debaixo da minha corda bamba, eu entendo, aceito e convivo com o fato de que tudo passa nessa vida. De que nada é pra sempre, de que vou morrer um dia, e serei, com sorte, uma lembrança para algumas pessoas, que por sua vez também passarão e, eu e minha lembrança, passará com elas.

Mas o fato de entender e aceitar isso, não significa que minha vida está melhor, ou que minha corda está menos bamba. Não, significa apenas que sei que a qualquer momento, como as populações que vivem em campos de refugiados, terei que partir, e nem mala poderei levar. Significa que o meu entorno é muito pouco confiável e real. É quase, comparativamente, uma edição da minha vida. Tudo que me cerca pode ser apagado com um simples Del, como uma nova edição que pode ser, tipo assim, daqui a 5 minutos.

Ou seja, aceitei sim, mas não quer dizer que eu aprecie, ache justo, mesmo que minha opinião valha nada, mesmo que minha impressão sobre esse estado de coisa não interfira na ordem das coisas, mesmo que minha erudição, evolução e inteligência me diga que as coisas são assim mesmo, não significa que eu goste. É mais ou menos como descobrir que fomos acometidos por um adoença mortal e que temos alguns meses de vida, apenas - o que é mais do que não saber quanto viveremos - , mas oquei, vamos lá. Aceitamos a doença, fazemos tratamento, somos superiores e os outros se admiram de nossa dignidade, como se eles não estivessem na mesmo a situação, ou seja, na corda bamba, mortais e inseguros. Mas oquei, então eu me trato e coisa e tal, mas não significa que eu goste dessa situação.

Fui clara?

Ou seja, mesmo com essa pose de sei de tudo, sou mortal, minha vida é passageira, tudo pode acabar a qualquer momento, seja por vontade dos deuses, seja por vontade dos homens que explodem, incendeiam e matam, ou seja por ironias do destino, eu vou vivendo e fazendo planos como se não soubesse disso.

Por exemplo, posso atropelar alguém e passar o resto dos meus dias na prisão. Ou posso perder tudo, num só golpe, com um único tsunami. Sei, tô me repetindo, mas sinceramente, muda o sentimento de insegurança que mora na ponta do pé do equilibrista? Não, não muda mesmo.

Tem algo pra mudar ainda, que péra aí gente, não passa pelo Osho, nem pela Poliana, muito menos pela pró-vida. Gosto mais da reencarnação, ou da ilusão do mundo visto e vivido. Mas é semântica isso, chover no molhado gente. Cada um arruma um paliativo, um calmante ou estimulante pra se apegar quando a corda fica impossivelmente bamba, e o pior, é que não se sabe de onde vem a bambice da corda.

Pois é.... o que eu tava falando mesmo!Estava falando que independente disso, a gente gosta de viver. Olha, o mundo espiritual pode ser muito bom, maravilhoso, etc. Mas eu nunca conheci alguém que quisesse voltar pra lá. Isso não entra na minha cabeça, e bambeia minha corda demais, ainda mais nas altas madrugadas. Se é tão maravilhoso esse lugar de onde viemos, onde não temos matéria nem somos apegados a nada, onde viver é flutuar, literalmente, porque ninguém se conforma com a morte? Nem mesmo a morte de um cachorro? Engraçado e irônico, né não?




Tem a desculpa da missão, do carma, do ateísmo, mas sinceramente, tá tudo no mesmo balaio pra mim, ou na mesma corda. Nove x fora dá no mesmo. Ninguém quer deixar esse planeta maravilhoso.


Ô Terra, você tem mesmo uma graça maldita, que nos apega a você..... ô Mãe da Matéria, Mater Adorada, Corpo da Mãe....como deixar a Mãe? Pelamordedeus.......

Terra, és o mais bonito dos planetas..... Acho que Beto Guedes matou a charada.

Bem, vou aprumar minha corda e seguir me equilibrando.

7 comentários:

Andréia Santana disse...

Oi Walkyria! Primeiramente gostaria de agradecer pela visita e por ter se tornado uma seguidora de meu blog... saiba que também já tornei seguidora de seu espaço.
Olha só... quanto ao texto... adorei! E vc me fez parar pra pensar... eu digo que não tenho religião, mas estou sempre lendo romances kadercistas... o meu jeito de ver a vida se encaixa mais nos conceitos do kadercismo... prefiro pensar que a vida não acaba aqui, e pra cá voltarei... mesmo esse mundo sendo tão cheios de problemas... ninguém quer deixá-lo.
Parabéns pelo texto.
Bjks

"Minhas Palavras" disse...

Obrigada por visitar meu blog. Muito interessante o assunto abordado aqui, e real também. É aquela historia 'Vão os dedos, e ficam os anéis...


Beijos

Walkyria Suleiman disse...

Andréia, gosto quando encontro gente que sabe dar um tempo, parar e pensar, e olha, gosto do jeito kardecista de pensar certos assuntos, embora não seja espírita, na acepção da palavra. Obrigada pelas palavras e pensamentos.

Walkyria Suleiman disse...

As palavras são suas, mas poderiam ser de todos. Fica o que importa na vida. Obrigada pela visita.

Ligia disse...

Oii... me desculpe pela demora da resposta, mas analgésicos não me devolvem minha mão, por ora. Depois de 200 anos... sou leiga nesse negócio de selo. Como faço? Gostei dessa... até.

Walkyria Suleiman disse...

Lígia, gosto do teu humor, negro mas feminino.

Sylvio. disse...

Estou com suas palavras na cabeça. No coração também. Colocar em palavras, assim, meio que rápido..., penso em algumas coisas tipo... Bem, vou tentar:
como sempre muito rico seu texto e não poderia ser de outra forma uma vez que vc se coloca nele, como uma torneira de onde sai um calmo jorro intermitente que enche nossos copos; como aquela cahoeira delicada no meio da mata com suas águas fresquinhas; então, vem-me palavras à mente embora fique temeroso de me expressar de maneira simplista digo o seguinte; até o mais santos dos santos, aquele que venceu a morte como yoges que abandonam seu corpo numa hora predeterminada (isso existe, queira vc acreditar ou não), até Jesus Cristo, que foi mais que um avatar, sente medo da morte, do deixar o planeta, então porque não nós não sentiríamos a mesma coisa? Creio que quanto menos a pessoa se conhece, menos conhece onde está, oque está acontecendo, o que está rolando. Daí, a paúra pega.
Tem remédio pra isso? Tem. A resposta está dentro de cada um de nós.
De qualquer forma, esse medo (entre outros), é universal.


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