.

.

sábado, 7 de agosto de 2010

Conforto no corpo e na alma

.


Dia destes, fim de semana ensolarado, fomos almoçar na Vila Madalena - nosso quintal, por assim dizer - eu, a Mimi, a Eloca e mais um amigo.

Sei que um almoço que, na minha concepção, deve durar
umas duas horas, se arrastou até sete da noite. Isso é uma exceção das bravas na minha vida pois, costumo dizer que, se eu ficar mais que 3 horas na casa de alguém, pode mandar a ambulância porque, ou eu tive uma intoxicação, ou um enfarte. Mas sei lá, conversa vai e conversa vem, sei que ficamos juntos a tarde toda.

Na volta pra casa, andando pelas ruas ao entardecer, a Mimi me disse algo intrigante. Disse que pela primeira vez em sua vida, se sentia confortável dentro dela mesma. Bem, já eram sete da noite, mas quase que nós enveredamos nestes pensamentos. A Mimi se foi e eu "garrei a matutar". Não sei se nunca me senti confortável na minha pele ou, se o senti, não percebi, não coloquei minha consciência no sentimento.

A partir daquela revelação da Mimi, comecei a me perceber melhor e a descobrir como eu estou me sentindo confortável dentro de mim mesma. Sinto meu corpo, meu metabolismo, sei o que me faz mal comer, o tanto que posso beber sem perder a noção, enfim, percepções que vulgarmente colocamos ao lado dos malefícios de envelhecer.

Ou seja, com a idade as comidas, bebidas, certas pessoas e certas situações, nos fazem mal, têm que ser evitadas e, parece que sofremos um corte nas nossas atividades, como se embebedar, ouvir conversa fiada e comer qualquer coisa a qualquer hora, só para citar algumas.

Mas será que sempre não foi assim e, simplesmente, pela falta de percepção, de ligação com meu eu, acabava por não perceber? E fruto disso aconteceram muitas infelicidades, contratempos, para não dizer ressacas, arrependimentos e controvérsias? Não sei, não sei mesmo.

Antroposoficamente falando, me sinto mais associada a mim mesma. Todos os meus corpos, o físico, o etérico e o astral, estão menos dissociados. Desta maneira, meu espírito “ganha um brilho definido”. Não digo que esteja espalhado os benefícios como uma jardineira aplicada, mas posso perceber que as pessoas a meu redor estão mais felizes, mais seguras. Será que é porque eu estou mais feliz? E o que é a felicidade?

Estou enrolando, estou, tá bom, também não sei o que é felicidade. Mas se pudesse arriscar um palpite, quase um sentimento, diria que este conforto que sinto dentro de mim mesma, é um bom começo. Esse conforto envolve principalmente, eu me aceitar. Aceitar que nunca serei a bela, por exemplo, boa, caridosa, gentil. Sou casca grossa, raivosa, vingativa. Aceitar que não sou como a Madre Teresa de Calcutá, com uma inesgotável paciência. Ao contrário, meu pavio era tão curto que agora a combustão é espontânea.

Qual a novidade? É que eu não aspiro mais a essas qualidades que me colocavam desconfortável dentro dessa, que queira ou não queira, sou eu. Mas o maior barato disso tudo, é que ao ser mais eu mesmo, deixar acontecer como acontece o meu temperamento, eu me desgarrei de algo, tipo um bloco de gelo se soltou da geleira. Um bloco duro, forte, "insoltável" até, mas que soltou. Derreteu, a olhos nus, no mar gelado do meu coração - que nem estava mais tão gelado, visto poder até derreter geleiras. E aí, nesse vazio, algo novo pode surgir, algo espontâneo, vicejante, novo como uma semente abrindo espaço para luz do sol.

E acreditem, apareceu dentro dos inúmeros quartos e terraços da minha alma, alguém totalmente inusitado, nem a que eu pensava ser, nem a que eu almejei ser.

Porque gente fina, querer ser assim calma ou agitada, boa ou uma p
este, ciumenta ou desligada, é uma meta tipo como querer ser médica ou comprar a casa própria. Em algum momento da minha vida, fui convencida que tinha que alcançar alguns objetivos. E me diz, tenho que alcançar algo além da felicidade e da paz de poder ser quem eu sou? Mas quem sou, na verdade?

Ai que embolou....mas não faz mal. Também é confortável deixar embolar, como os seixos rolando em rios caudalosos, que numa hora ou outra, encontraram pouso. Pra depois serem rolados novamente, e assim, sucessivamente, como é caráter de tudo aquilo que vive e que rola por aí. E vou dizer... eu já rolei muito, pousei, descansei e segui rolando, mesmo quando achei que tinha chegado na fresta mais aconchegante desse rio. Tô viva, tô muito da viva.

Outro amigo, o Romeu tem me falado que, o que aparece na vida dele ultimamente, ele vê como um convite: é pegar ou largar, que aliás é da essência do convite.

Eu digo pras minha amigas que não aceito self-service na vida. Quero á la carte. Quero escolher, quero usar da minha liberdade, não pra decidir ser alguém que não sou.

Por incrível que possa parecer, quero usar da minha liberdade para ser o que sou. Com aceitação, carinho e muito, mas muito tesão.

23 comentários:

Gisele Freire disse...

Caramba Wal!
Adoro as coisas que vc escreve, são ótimas, sou tua fã mesmo, e desejo que tu sejas bem, mas bem feliz, você é tudebão mesmo!!!!!!
Bjs
Gisele

Walkyria Suleiman disse...

Ô Gisele, faz assim não que tenho um enfarte. Ainda mais vinda de vc, que tem um refinamento nas ideias, nas formas. Obrigada querida. Escrevo pra vc.... acredite. E pra ela, e pra mim.
TUDEBÃO...adorei

Sylvio de Alencar. disse...

Estar solto me faz perceber certos sentimentos que afloram... Nem sempre me agradam: mostram que sou meio... egoísta. Frágil. Meio... moleque. Bobo. Por outro lado, estar solto, me mostra que tenho salvação, que tenho visão, e que posso olhar dentro de mim. Isso é legal.

Concordo com a Gisele (que aliás tem um bloguesito de respeto!): vc é bem legalzinha! :)

Walkyria Suleiman disse...

Sylvio, um barato isso que vc ressalta. realmente parecemos meio mongos quando não temos a resposta certa, na ponta de língua. Meio bobo e, frágil, acho que é assim mesmo. Diferente de quem bate o pau na mesa....

lírica disse...

Walkyria
Tuas palavras são vibrantes, você é uma grande mulher!
Espero que tua felicidade seja infinita:)

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Lírica, a felicidade é infinita, a gente que teima em dar limites...nós humanos. Ainda bem que tem gente como vc que me faz lembrar que eu posso, que eu sou.beijos

betina moraes disse...

a mimi arrebentou! ela achou a chave da pergunta: estou confortável sendo quem sou?
e você fez mais uma crônica sobre a dor e as delícias de ser o que é. eu amo sua escrita! flui para todos,
amo a intimidade que você nos dá!

no meu caso acho que sempre fui igual ao gatinho da foto, me vejo como leão, bem maior do que sou, bem mais poderoso, acreditando fielmente no que dizia sabiamente o meu amor italiano, luigi pirandello: così è (se vi pare) ou seja, "Assim é, se lhe parece"

dentro do delírio do que eu acho que sou, o conforto é imenso e todas as vezes que alguém me diz que não sou aquilo ou aquilo outro, algo que eu acredite que sou, penso logo: fulano está mentindo!

delirar é a ilha da felicidade!

o que não podemos é nos definir partindo do conceito que os outros tem de nós, principalmente familiares! é sempre preconceituoso e “truncado” o que eles julgam saber de nós.

avaliar as passagens da nossa essência é fundamental para nos reconhecermos e não estranharmos quando soltamos fogos de entusiasmo ou faíscas de raiva destrutiva. "é tudo nós".

é preciso manter-se sempre informado de si mesmo!

as notícias sobre você têm que chegar primeiro a você.

estou divagando sobre meus conceitos, o que acontece sempre que o texto mexe comigo.

aqui eu acho as metades que não encontro em outros lugares.

E me diz, tenho que alcançar algo além da felicidade e da paz de poder ser quem eu sou? Mas quem sou, na verdade?

não. ser quem se é independe de felicidade ou qualquer outro estado. o maior estado é ser, integralmente, o que se é,
para assim poder ser o seu próprio ESTADO!

eu acho que você é MUITO o que é, sem mascarar nada, acho que você é mesmo você. aqui está o que mais importa a seu respeito.


sem falar na frase final (estou contigo e não abro),
sejamos quem somos,verdadeiramente, acima de Tudo com mui,Taaaaa vonTade.

ai, que bom ler sua vida, mesmo quase um ano depois. :)

um beijo, com abraço!

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Ai Bebezinha
por isso que digomque queria ser como vc. Eu sempre fui o leão que se vê como um reles gato, e olhga que não gosto de gato.

Não podemos deixar que o olhar do outro nos defina, mas que define edefinha....isso é inegável.

Sabe BB, hoje estva prestes a escrever sobre as minhas dúvidas quanto a quem sou. Então lembrei "gente, já escrevi sobre isso no blog! " e fui atrás. Achei, achei e é sempre recorrente. Como ser eu mesma, como entender esse mar de significantes, esse oceano de enganos na lida com os outros...

Vc BB, vive no delírio e acho que dá certo pra vc. Mas eu não sou assim, num dianta querer ser qum não sou.

E quem sou? Bem, isso realmente n~eo tem a menos importância quando se está feliz, confortável...

Sabe, os integralistas diziam que "o preço da liberdade é a eterna vigilância" . Ok, todo dia é dia, temos que rever, ver, rerever, recomeçar, mandar bala...ok....mas será mesmo que tem que ter todo esse nível de aprisionamento?

Daria pra descer uma gelad, por favor?

Ah, divagações, my darling....

Gerana Damulakis disse...

Também ficarei a pensar na frase sobre sentir-se ou não se sentir confortável dentro de mim mesma. Total que vc pensou e refletiu no texto muita coisa positiva.
É isso, amiga, é ir andando com vontade, com boa vontade.

Sylvio de Alencar. disse...

Que coisa! Li o post (que é longo), e vim comentar; aí vi que já tinha feito isso.
Mas, como me vieram outras idéias na cabeça pois quando a gente lê algo com um certo espaço de tempo entre as lidas, geram-se outras idéias.

'O Homem é a medida de todas as coisas.'

A partir de uma certa idade começamos a perceber as medidas de 'fora', e as de 'dentro'. Essa consciência real das coisas (e medidas), nos conforta; é conhecimento, né?

Acabei de ir na cozinha colocar um pouco de sal na minha sopitcha, fiquei surpreso pela quantidade (exata) que escolhi por; antigamente não tinha essa cosnciência, colocava, e pronto!
Claro que a demonstração acima é... primária, mas, ilustra bem a amplidão deste conhecimento que estamos falando: (medidas).

Seu amigo Romeu falou bem, mas, poderia ter ido mais além caso tivesse mais idade e tivesse meditado sobre o assunto como o fiz hoje; cheguei à conclusão seguinte:
não só temos que pegar o que a vida nos oferece, mas, o que a alma percebe sobre nós, e que nos conta.
REceber o que nos acontece 'agora', sem matutar, pensar, florir, mudar, racionalizar; receber e atuar em cima disso que temos...

Ahhh, não sei 'explicar', tem mais coisas envolvidas pra eu chegar nesta conclusão.

Bom post.

Engraçado os mais velhos não terem me dito que poderia ser tãão feliz com a vinda de uma idade mais 'provecta'.
'Velhice' pra mim, era uma bosta, o fim de tudo, a morte em vida.
Mas, não é.
Se eu não fosse tão preguiçoso, seria um puta começo!

Abrçs.

A PV de hoje: nonescha.
Polaca inventiva que fez sucesso nos anos trinta no Interior de São Paulo, proprietária do melhor e mais classudo prostíbulo da época!
Nonescha (se pronuncia Noneska), inventou uns breguets que foram os precursores dos brinquedinhos que se vendem nos sex shopings de hoje.
Diferente da Geni da música daquele cantante que a mulherdada adora, Nonescha não deu pro bispo, um nojentão concuspicente; foi então perseguida, sendo então acolhida pelo meu avô que lhe deu amor e carinho (um monte!), recebendo então, da Nonescha, um bacuri de presente, que com o tempo virou homem e ajudou a fazer outro: eu.

Sylvio de Alencar. disse...

Que foto louca, essa do post!

PV.: manze
Diz-se do cara que transa , e, inexorável e instantâneamente, adormece (praticamente) em cima da eleita.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Geraninha, linda menina baiana

O que escrevi é fruto de nossas conversas, de nossas dúvidas, da gente enfim. Tem muito de vc nisso tudo.

A vida está passando sim, mas temos que escolher onde e como vale a pena passá-la, né não?

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Sylvio


kkkkkkkkkk
detesto cara manze

vc é o nosso Doc em PVs machas!

Sueli disse...

Foi muito bom ler isso aqui. Estou me vendo em sua pele, pois recentemente aprendi a me sentir, também, isto é, "eu alma", pois "eu mente" era o que eu achava que era... Sei que está meio embolado, mas acho que você entende, né...rs. Adorei seu blog. Abração!

betina moraes disse...

gente! o sylvio é o Deus da PV!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! KKKKKKKKKKKKKK

Sylvio de Alencar. disse...

Rêrêrê!!!
Bligadu, Bê!
Sou muito criativo!!! Descobri isso por causa de vcs (vc e a Wall - minhas madrinhas no ramo).

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Sueli
bem vinda!
Se entendo, eu faço essa bagunça dentro de mim. Hoje em dia fico me observando, pra saber se é o coração ou a mente que está em ação. É difícil mesmo, mas quem disse que quero viver de forma fácil?

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Sylvius!
Que delícia de comment.... amei o lance de saber receber o que a vida nos dá, receber na alma, veeja como cada pensamento que nos captura gera outro que captura alguém.
Vc é sábio meu amigo!

E medida é tudo, se exemplo é de mestre!
Agora, vou dizer...tunha certeza que um dia, na minha vida, ainda ia conhecer um parente da Noneska! Que glória, que honra.....heheheh

grande mulher!

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Sylvius.....
minha mãe tinha que etar viva pra ver como influencio bem as pessoas....hehehehe

Sylvio de Alencar. disse...

Tinha um livro né?: "Como Conhecer e Influenciar Pessoas"..., algo assim!

Veja bem Wall: o lance não é 'receber na alma', mas, 'da' alma.
É sua alma que que pega as coisas no/do universo e repassa a vc, é a isso que temos que ficar espertos, é a isso que se refere a frase 'eterna vigilância'.

O Plinio foi meio radical porque, sinceramente, não dá pra ficar olhando pra toda rosa dos ventos pra saber da onde vem a porrada ou a iluminação.

Mas, olhar a própria alma (e disso o Plinio não falou), é mais fácil, pois - ela é vc! Uai!


é preciso manter-se sempre informado de si mesmo!
as notícias sobre você têm que chegar primeiro a você.

Essa Betina.... vai longe! :)


PV.: molyg
(Tadinho do Molyg, sempre na sombra do primão que era mó considerado da jângal: amigão da Baghera, da Kaa, do Baloo, e de Akela, o chefão da alcatéia!
O Mowgli era o cara!!!!!
Tirava o maior barato do priminho, chamava-o de Molynguinho; mas, quando queria fuder mesmo a vida do priminho mais fraquinho o chamava de Mollaynguinho... Pô, chamar um cara naquela selva impiedosa com uma palavra que lembrava aquela frutinha vermelha..., ninguém merece!

Molyg era meio chatinho mesmo..., parecia aqueles carinha que, de tão mascaradinho, quase que ficou com o Anel em vez de atirá-lo no vulcão; quase que ferrando com todo mundo: o Mago, o Rei, as Árvores e nós os leitores...
Se não fosse o Esmeagol, estaríamos afunhanhados!

Sylvio de Alencar. disse...

"...veja como cada pensamento que nos captura gera outro que captura alguém."

Devagar, vou assimilando essa idéia...
se o cara não pensar nisso, sai falando um monte por aí; pode até ser coisas legais (pra ele), mas pro outro........

PV: refra
(Apelido do cara que a única coisa que cantava era o refrão das musicas (o cara era fera: sabia todas!! Até em inglês!), a tragédia era que tinha uma voz divina aí, já viu né: ouví-lo deixava agente com a sensação de ter tido um coitus interruptus... Um porre!!
)

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

pois então, se a coisa vai ser legal ou não, SYLVIUS, é subjetivo. Às vezes rola um lance na nosa vida, a gente ach um saco, e no final vira um lance legal no futuro. Sei lá, vc entendeu.

Mas eu gosto do que vc fala, até quando discordo

ahahahahahahaha, eu conheci um monte de refra na vida..... adorei...vc está me saindo um catedrático em PV... a Betina tem razão!

Sylvio de Alencar. disse...

Quis dizer que as vezes falamos umas coisas que achamos que é legal, que a outra pessoa vai achar legal de se ouvir, e... não é nada disso...: a outra pessoa fica put* da vida.
Então, agora, tomo cuidado; cada um é cada um, temos que ter um mínimo de sensibilidade para não ferir a dos outros.
É isso.

Bjs.

PV.: sarde
Diz-se do cara de sardas, que nasceu na Sardenha e foi morar no Peru - por ser o principal país produtor de sardinhas - e, aonde consome todos os dias, um generoso prato de sardella.


voltar pro céu