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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Condição solidão

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Não tenho certeza, nem sou a melhor juíza para dizer o quanto aprendi na minha vida. Mas se há uma coisa que aprendi na carne, é que as pessoas detestam mudanças.

Elas dizem que querem mudar, de cidade, de trabalho, de companheiro, de casa, mas estão sempre no mesmo lugar e, esse discurso repetido ao longo de uma amizade, prova a estagnação em detrimento da mudança.

O ser segue a vida dizendo que quer fazer aula disso ou daquilo, ter um hobby, plantar um jardim, colecionar moedas ou bibelôs e, no frigir dos ovos, não fazem nada em prol desses pretensos desejos.

Vão seguindo velhos scripts, sem nunca se aventurar numa nova peça. Repetem velhas falas, decoradas a um preço muito alto, sem nem ao menos ouvir a voz do coração, que apesar de titubeante, sem nexo, e por vezes distante anos luz da realidade, emite palavras de mudança, de entusiasmo e coragem para novos desafios.

Isso me leva à minha atual condição. Acordo essa manhã com uma melancolia extrema, sentindo uma imensa solidão e, percebendo mais uma vez, que apesar de querer desesperadamente hoje, alguém que ouvisse meu coração, com suas incongruências e defeito natos, me refugio no meus ser, na minha casa e, de preferência, no meu quarto.

Aqui, escrevendo essas palavras, como que se desenha um espelho, uma trilha de luz que acolhe e respeita meus sentimentos. O que me faz lembrar Nietzsche que disse que nascemos e morremos sozinhos, e nesse meio tempo precisamos desesperadamente da companhia dos outros seres nessa mesma condição.

Faço um inventário rápido dos amigos, dessas pessoas que estão comigo há tanto tempo e não consigo pensar em apenas um que quisesse realmente que estivesse aqui comigo. Todo discurso, seja ele amoroso, fraterno, coorporativo ou funcional, tem a mesma raiz. Temos que escolher as palavras decifrar os códigos do outro, antes mesmo de começarmos a falar. Qualquer falha, qualquer palavra, gesto ou entonação de voz, pode fazer com que o outro entre nas suas interfaces e deixe de nos ouvir, de compreender e ative, como num filme de ficção, escudos intransponíveis para as nossas emoções.

Pronto, já não somos entendidos, já entramos em conversas sem nexo, originadas de qualquer lugar do passado, do tempo e do espaço, todos menos o espaço do nosso coração. Esse espaço presente, encurralado entre traumas, carmas e temperamentos, esvaindo-se como imagens borradas da memória.

Comparo os tipos de discurso, porque na verdade, seja o discurso qual for, o objetivo é sempre o mesmo. Queremos que o outro capte o quê, como, e onde queremos determinada coisa. Ou que não temos ideia do que queremos, nem quando, nem onde, mas precisamos de um interlocutor amigo, desinteressado, que possa emitir sons que caminhem rumo ao nosso coração, e não opiniões advindas do ego e do achismo desse interlocutor.

Me sinto num deserto, frio e solitário, onde a maior solidão e perceber todos os que caminham a meu lado são, igualmente sozinhos, igualmente incapazes de estabelecer uma relação de verdadeira proximidade.

Estou de saco cheio de ter que entender o jeito e o modo das pessoas- para não dizer o mood. Nesse esforço incrível de entender o impossível, cada vez mais me distancio das minhas frágeis emoções, que humildemente confesso, são um caso, uma explosão de sentidos, cores, interfaces, pessoas, memórias, instantes e vivências, como as de qualquer outro simples mortal.

O Sylvio disse outro dia, que eu estou mesmo muito dentro da minha vida. Estou mesmo, mas sinceramente, existe outro espaço seguro? Queria, nesse esforço verdadeiro e por vezes sofrido de me entender, poder me aproximar mais e mais dos outros seres humanos. Mas isso não acontece assim, de forma redundante e consequente. Não sei o caminho pro coração do outro e, desconfio, que ao menos saiba o caminho pro meu próprio coração.

Estou cansada, meus músculos doem, minha carne sangra de procurar estas estradas tão vicinais e encobertas por vegetações milenares.

Estou sozinha, parada no meio dessa estrada, vendo outros zumbis como eu, incapazes, solitários, tão sem esperança.

Por essa razão, quando vejo pessoas lutando pelo meio ambiente, pela ética, pela justiça, pelo bem enfim, ou por aquilo que elas chamam de bem, me sinto tão incapaz. Meu meio ambiente está assim, devastado, minha ética se confronta diariamente com esse esforço de ter que entender o outro até para falar de mim. Minha justiça se encolhe ao entender que eu também, igualzinha aos outros, uso esses mesmos mecanismos que critico e quero ser compreendida, entendida, visualizada até mesmo onde não existe visualização possível.

Então, não sei, me parece tudo um esforço sem propósito. Importa realmente para alguém os meus sentimentos? Importam, ao menos para mim, se preciso constantemente mudá-los, adaptá-los e trai-los se eu quiser ter o carinho, amor e compreensão de outros seres?

Oquei, estou amarga, mas frutos são assim enquanto sementes. Ficam quietos lá no escuro solo da alma, germinam, abrem suas forças pro sol do coração. Depois precisam ser cultivados, e cuidados pelas mãos carinhosas de quem os aprecia, a saber, os outros, em suas inúmeras vestes, máscaras e personas.

Assim, amadurecem, doces, amargos ou intragáveis. Tudo dependendo do cuidado a que foram submetidos. Hoje, o fruto do meus coração está assim, amargo, pesado e sem destino. Mas aprendi também, que amanhã é outro dia. Várias são as estações do ano, e toda semente entra na escuridão solitária antes de brotar.

Quem sabe, quem sabe e é quase certo, que outras sementes virão e encontrarão em sua pequenas vidas, jardineiros cuidadosos, amorosos e cheios e generosidade.

É viver, acreditar, e nunca deixar o sementário da alma vazio. Agora mesmo, outras sementes estão germinando. É nelas que colocarei minhas esperanças.

O que me leva, de algum modo à máxima de que nascemos e morremos sozinhos, e nesse meio tempo, precisamos, desesperadamente, sermos amados pelos outros.

Eita condição mais besta!

ps - o desenho é deste blog aqui
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9 comentários:

b disse...

Desculpa, vou falar palavrão.
Cacete ! Quer melhor lugar prá ficar além deste "rincão-Walkýria?"
A paisagem é sua, o clima ídem.
Sem balela de querer te consolar na tua solidão, até porque, não tem outra coisa não, Amazona.
"Quem olha para fora dorme, quem olha para dentro acorda" _ Jung.
Nem amigos
Nem amores
Nem filhos - nós somos para eles mas não somos eles.
Nem nossos bichinhos
Nem nossas músicas
Nada melhor do que uma roupinha velha e surrada no quarto e olhar pro espelho (interno) com tal coragem.
Por isso Alice entrou no espelho - prá ver o mundo interno, com todos aqueles personagens.

betina moraes disse...

wal...
sinto muito te dizer: você não está amarga, está consciente! e não há lugar melhor para ficar do que consciente. acredite, suas palavras são maduras, verdadeiras e sem ilusões, então são perfeitas! o que nos destrói a todos é a ilusão, sem iludirmos nossos sentidos seremos mais felizes. não há o que temer na solidão, há o que temer na fantasia, na falsidade, nas relações estagnadas, nas regras e normas sociais. estar só é pleno, inteligente, poderoso!!!!!!!


o parágrafo em que você descreve os "não-me-toques" que acabam acontecendo em um diálogo é maravilhoso. é assim mesmo que acontece, por conta de tal situação sem solução, precisamos desesperadamente entender: dois silêncios que se completam são infinitamente melhores do que duas pessoas que juram ilusões.

não há mal em gostar da solidão.

ah! falei em turbilhão, nem vou reler para não me arrepender e cortar coisas.


um beijo, querida.

Gerana Damulakis disse...

betina já disse tudo e ela sabe dizer bem melhor do que eu. A ênfase, então, vai para o que betina já disse, tal como a observação sobre a sua lucidez, a sua conscientização, que não é, ao fim e ao cabo, amargura.
Meu pai dizia muito que o homem nasce e morre só, dizia muito mesmo. Ficamos na ponte - nem no nascimento, nem na morte - desesperadamente querendo alguém para apreciar, de mãos dadas, as águas passando embaixo da ponte. Vc ganhou um beijo agora. Sinta um beijo e um abraço, estou na ponte com vc neste momento. Sentiu?

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Bárbara...

Vc parece um alterego, potente, correto, caloroso, porém nada meolodramático.

Sempre, sempre me retorna pra mim mesma, com um desprendimento digno dos mestres.

Sim Bárbara, vc me acolhe e me chuta pra vida.

Vc é incíivel e eu, abençoada por ter vc comigo.

Estou acordada.... doa o quanto doer. E sei que vc, está assim tbm. E é nesse universo que nossas almas se tocam.
Obrigada b.....

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Betina...minha irmã de sangue intergalático. Não há o que temer na solidão, senão ela mesma.

E os outros? E essa necessidade dos outros?

Então vc, magistralmente encena a verdade do coração. As palavras não podem mesmo resolver este drama. Precisa ter AMOR. Vc não disse isso, mas queria dizer, eu sei. Pq vc sabe do amor...

BB.... me sinto protegida e amada, quando penso em vc!

E te espero, todos os dias da miha vida!

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Gerana
Na primeira vez que nos falamos, ou quase isso, falamos sobre seu pai. Era um post do relógio que parou. Vc lembra? Sei que sim.

Eu falava do abraço de meu pai.

Gerana, me emocionou muito o que vc escreveu aqui. Chorei, pq teu pai sabia, pq eu e vc sabemos, e pq no final, tudo é vão...

Mas achamos uns vãos aqui. Nesse carinho, nessa sua amizade, que fica comigo nessa ponte, nesse desterro que é o viver "consciente" e no entanto, tão rico, tão pleno de momentos como este.
Este, que vc me deu agora, com tanto amor.
Gerana.... que posso dizer?

nydia bonetti disse...

Wal... Sei tão bem disso que fala. Como sei. Você consegue se externar e isso aproxima e diminui distâncias, angustias e vazios. Eu já não consigo. Me sinto ilha - incomunicável. Mas que tempo é este? Por que tanta gente se sentindo assim? Será mesmo esta a condição final, humana? Acho que o que Bárbara disse é bem real. Queria só ter mais tempo pra conversar com vocês. Mas ainda cuido de alguns poucos canteiros. Ainda... Beijos.

Sylvio de Alencar. disse...

Sem chance...
Terei que voltar aqui para ler este texto mais de vagar, com mais profundidade e calma, ele pede isso.
Tenho que me colocar não como observador, não quero distância do que escreveu; quero estar 'dentro'.
Este é um texto que me cativa, que pede que eu dê de mim, que eu absorva.

Agora são uma da matina, tou cansado...

Nunca defini meus pensamentos e sensações e sentimentos dessa forma, fui muito mais intuitivo, uase dispersivo eu diria...
Nisso somos diferentes: raciocinamos de forma diferente: seu preparo acadêmico, e sua atividade profissional exercida por anos em uma revista, faz com que exponha de forma contundente o que vai pela sua alma.

Mesmo sem saber direito o que se passava, cheguei a palavras de mestres que não só me orientaram como responderam de maneira tão satisfatória (quanto vc ao expor suas duvidas e sentimentos), que me senti como que bebendo água de fonte.

Se tivesse mergulhado mais profundamente no que aprendi, poderia responder-lhe, conversar com vc, de uma maneira bem mais clara, bem mais simples, mas...; o que aprendi serve para me direcionar em certas coisas, em tudo na verdade..., embora o 'agora' (o 'este momento'), não se preste a teorias, saber delas nos ajudam a viver.

No geral, se vc é capaz de se colocar frente a frente com vc dessa forma, está no bom caminho.

Terei que voltar.
Não para 'comentar', ou, 'responder'; mas, apenas para te 'ouvir'.

Bjs.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Nydia
Vi estes dias este teu comment, e estava por vir te responder. Sim é um tempo incomum o nosso, mas acho que essa solidão, essa condição human, sempre foi assim. Talvez em nosso tempo ela seja mais evidente por causa do exagero da comunicação, que tira um tempo "com o outro" e com "a gente mesmo".

Por outro lado, tanta comunicação, não era de se pensar que as pessoas se sentiraim mais próximas e menos solitárias?

Não sei, não sei mesmo. Mas sei que é bom demais ter gente como a Betina, Gerana, Bárabar e vc, minha querida, para poder prosear, abrir o coração, sem nada a temer.


Vc externa isso em sua poesia, eu posso sentir sua alma e coração, a ponto de dizer que escrever nunca seria um ofício para vc, porque é muito o seu interior se revelando. Minimalizando a imagem, mas com revelação tamanho out-dor.

Bom.... vou levar este lá pro teu blog pra vc ler...tá?É um jeitinho de estar mais perto docê.

Venha Nydia, venha sempre.


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