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domingo, 14 de agosto de 2011

Medo - pro meu pai, o véio Ibrahim

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Naquela manhã não foi trabalhar. Cruzou a curta distância até a casa de seu pai. Passaram a manhã trocando memórias, silêncios e olhares, no mesmo sofá que conhecia há tanto tempo. Havia sido lá o primeiro beijo, a primeira festa, as reprimendas familiares, as brigas e conversas com os irmãos e amigos, um sem nome de momentos de sua vida compartilhados com o sofá.

Sentados ali, flutuando num tempo irreal, ela sentiu um grande carinho por seu velho pai e o abraçou fortemente, pensando em quanto tempo ainda o teria por perto, como que a sua espera, sentado no mesmo sofá que ela conhecia tão bem.

Percebeu então, que muitas pessoas não estão preparadas para morrer. Mas isso talvez fosse normal, aceitável mesmo, vindo de qualquer ser humano. O que não sabia ainda, até aquele instante, é que ela própria não estava preparada para viver!

aqui mais sobre o véio Ibrahim, no dia em que queriam comprar a cueca cor-de -rosa dele, lá no hospital em que ele estava internado

foto - WalkyriaSuleiman, dia dos pais de 2010
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45 comentários:

Mai disse...

Um argumento real - 'desde que nascemos, começamos a morrer' a cada dia - um dia a mais e a menos. E o medo, Walkyria, é o mesmo. Um grande miniconto.
abraços e bom final de semana

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Mai
tua opinião conta muito, pq te acho uma grande contista! Por mais solitária que seja a ação, ela sempre tenta alcançar alguém. Agradeço demais por sua leitura e comentário.

Pérola disse...

Boa noite.
Sua postagem é bastante envolvente.Detestamos a idéia da morte e isso é um fato.Porém todavia existem pessoas q já morreram antes mesmo de acontecer.
Vivem a sombra de tristezas.
Adorei a sua postagem.
Parabéns.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Pérola
é isso, mas olha, eu às vezes vivo à sombra de mim mesma. Mas passa logo. Obrigada por sua presença sempre tão graciosa por aqui.

Leonardo B. disse...

[simplesmente... soube a pouco! A "veia" podia continuar a sangrar um pouco mais...]

um imenso abraço, Walkyria

Leonardo B.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Leonardo...vc ainda me mata de emoção!

Sonhadora disse...

Minha querida
Lindo texto muito real...adorei

Beijinhos
Sonhadora

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Sonhadora...obrigada por teu carinho constante.

cherrychronic disse...

que belleza!!

Leonardo B. disse...

Walkyria...vc ainda me mata de emoção!

um imenso abraço,
sincera e humildemente

Leonardo B.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

cherrychronic....
sempre bem vinda! Um beijo e obrigada!

Maria Bonfá disse...

lindo texto.. falar e pensar sobre a morte sempre incomoda. e o que mais me tocou foi pensar se estou preparada para viver.. parabens.. beijão

betina moraes disse...

wal...

hoje mesmo assisti com minhas filhas ao interessante "antes de partir", ...



agora vejo sua delicada postagem. uma coincidência muito boa.

leio a palavra "medo" (é uma palavra bem forte, imensa, importante),vou lendo e consigo ver o sofá tão bem descrito com a (sua) vivência de quem sabe a densidade do tecido, os lugares preferidos de cada um da família nele, tudo o que um sofá recebe de informação durante a vida na casa que ele habita...


aí penso em você,

fico sempre muito impressionada com as coisas que chamam a sua atenção,

percebo que você tem uma enorme capacidade de obervação e a qualidade de grande ouvinte, são peças chaves para escrever coisas cheias de sentimentos como as que escreve. por causa dos detalhes que não lhe escapam você é tão boa!

então eu tenho que lhe dizer: você faz o seu blog ser um lugar intenso, vivo, cheio de semelhanças com nossos sentimentos, e faz com que algumas coisas duras, cruéis, doam menos pelo simples fato de nos lembrar que mais gente sentiu ou sente a mesma coisa, cria uma cumplicidade confortável, um afago com as semelhanças. sua escrita é para todos e esta é uma imensa qualidade para um escritor!

gosto muito de ler aqui.

um beijo, querida.

Sylvio de Alencar. disse...

Com medo ou sem medo..., sabendo ou não..., vamos que vamos, como tem que ser: um passo após outro.

Francisco de Sousa Vieira Filho disse...

Tocante... [CTRL C + CTRL V] não sei lidar com a morte, confesso... parece-me uma idéia estranha a de 'deixar de existir' [se é que isso que a morte significa]... vejamos: todos vivemos como se fôssemos imortais... a variável morte nunca sequer é considerada... "daqui há tantos anos vou casar" "em 02 meses pretendo viajar pra lugar tal" "amanhã a gente conversa"... ou seja, nem sequer consideramos que amanhã, daqui a dois meses ou em tantos anos não poderemos estar vivos... a velhice traz consigo a inevitável aproximação disso: imagino as reflexões acerca da morte tornem-se então mais rotineiras, constantes... a questão toda acerca do tabu da morte e da velhice reside no nosso modo de viver ocidental - privilegia-se a boa-forma [nem tanto a saúde em si, frise-se], privilegia-se a beleza, privilegia-se a juventude [privilegia-se o fugaz e (por via de conseqüÊncia) o material... só o jovem, o esbelto, o belo é que sobem ao palco da vida ocidental [são modelos inarredáveis a serem seguidos]... os demais [a grande maioria] sentem-se compelidos a trilharem um caminho tolo de imitação... o medo da velhice vai no exato sentido desse apelo pela juventude / boa-forma / beleza... significa não apenas a perda de tudo isso, como consiste na aproximação da perda da própria vida [impossibilita cabalmente se possa ter tais 'coisas']... viajando um pouco mais, temos que o Brasil [ainda] é um país jovem... não sabemos lidar com os [nossos] idosos, não nos imaginamos idosos, uma vez que a expectativa de vida até bem pouco tempo não permitia uma convivência maior com os idosos... que fazer na velhice? Nosso país transita para aquilo que já é realidade em países mais desenvolvidos: vive-se mais e vive-se melhor... metas/objetivos de vida são lançados cada vez para mais adiante... trabalho / viagens / relações afetivas tudo se prolonga / perspectivas e sonhos das mais várias ordens... é a nossa pálida imitação do sonho da vida eterna [prolongarmos quanto possa esta cá] - isto é errado? feio? indevido? imoral? indesejável? Não... ok, mas se é pra viver, que se vida bem, uma velhice com saúde, bem-vivida é o que se deve esperar, sonhar, doravante [sob o perspectiva sócio-econômica]... sob o prisma do ente e da essência, quem sabe melhor pouso não se possa achar nas muitas moradas da Casa do Pai, para além mesmo disto?! - E, por fim, o que foi mais genial no texto lido, é que o medo de viver é da mesma ordem e grandeza que o de morrer, embora - convencionalmente - nem nos demos conta...

Nydia Bonetti disse...

Talvez nosso maior medo, Wal, seja o de morrer sem ter vivido. Concordo com tudo que Betina disse. Este teu blog passa tanta verdade e de forma tão intensa, como um retrato do que vai dentro de você. Este conto me fez lembrar os ultimos dias de meu pai... Beijo, querida, bom fim de semana.

Mar Arável disse...

Do ventre até à foz

como um rio

Norberto Marques disse...

Amiga , óptimo fim de semana.

Beijooooo

Norberto

T I N I N disse...

VAL
Me vieram lembranças de meu pai...
Sua sensibilidade sempre me atinge de alguma maneira...
Seu espaço me faz flutuar...de verdade.
Beijão de sua admiradora
T I N I N

Manuel disse...

Intenso, profundo e real.
Memórias de uma vivência e o eterno medo do que há de vir.
Quem está preparado para morrer?
A morte é o desconhecido e todos tem medo do que não conhecem.

Gerana Damulakis disse...

Eu fiquei muito emocionada porque creio ter pensado assim e porque creio também ter tido conversas assim com meu pai.
Amei o texto. Amei muito.

Wania disse...

Wal querida

Teu texto é lindo, porque antes de ser escrito, foi vivido!
E a vida segue, com ou sem medo...

Bjão!

Augusto Dias disse...

Poxa!
Me fez pensar tanta coisa...
Tem gente que é assim como você.
Nasce pra nos fazer pensar.
Um abraço bem grandão!

Kamilla Barcelos disse...

Acho que poucas pessoas estão preparadas para morrer ou aceitar uma morte de alguém muito próximo. Agora sobre estar preparada para viver, eu diria que é bem mais complicado de acontecer.

Silenciosamente ouvindo... disse...

Walkiria,bom dia, estou no meu
blogue http://intemporal-pippas.
blogspot.com a dedicar o mês de
Março à mulher e também a blogues
no feminino.Gostaria de fazer uma
referência ao seu e de incluir algo
do mesmo.Permite? Deixe,por favor,
um comentário no meu blogue.
Fico ansiosa na espera.
Beijinhos

EDUARDO POISL disse...

MULHER II

Mulher é a expressão maior do amor
É semelhante uma flor
Consigo carrega o perfume
Que encanta e da alegria a vida.
Deixando-a mais sensível, alegre e bonita.

Mulher é a musa do poeta
Que em versos expressa o carinho
A sensibilidade, a delicadeza
A sexualidade e toda a beleza
Que há neste Ser de olhar frágil
Meigo e amável
Fonte inesgotável de inspiração.

Mulher é a manifestação
De um Deus invisível
Que se torna visível
No amor e ternura que nela há
Onde seu Ser se esvazia
Amando com total dedicação.
O Ser amado e sua criação.
Quando ama, ama sem limites
Mesmo que a dor
Seja sua constante companhia.

(Ataíde Lemos)

"FELIZ DIA INTERNACIONAL DA MULHER!!"
Abraços com carinho

..bee.. disse...

adooooro vir aqui e sempre encontrar essa aura feminina... essa coisa de mulher forte, determinada, que sabe o que quer... mas sem deixar de ser delicada ao mesmo tempo...

falar de morte me incomoda... e a minha relação com o meu pai mais ainda! =X

amei o seu conto justamente por isso, me passou uma cumplicidade muito grande entre esses dois personagens, que me parece ir bem além da simples relação pai/filha.

Feliz dia das mulheres, mulher poderosa! Arrasa sempre!! ;)

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Maria
isso que te incomodou, minha querida, é o que está me incomodando tbm. Parece uma pergunta me perseguindo....mas é uma pergunta que tenho que responder vivendo. Acho, que não há outro modo. beijo grande pra vc.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Betiba...
O filme é lindo...filhas, aos poucos vou te conhecendo melhor, e vc, bem, vc me conhece muito bem.

Sou mesmo observadora, não do normal, mas do que não é dito, do que não é comentado. É um peso menina... pq viajo muito.

O sofá, bem, é isso mesmo, eu pensei em me estender nele, enveredei e apaguei tudo, afinal, o post não era sobre o sofá. Mas vc viu tudo, sentiu tudo, escreveu o que eu escreveria mesmo.

Quanto ao blog, obrigada pela força grande. Muitas vezes penso que este tipo de texto não aumenta a popularidade da gente. Ninguém quer uma chata apontando as dores e sentimentos calados.

MAs enfim... essa sou eu. Intensa e chata, não deixando escapar esses momentos fáceis de deletar.

Cumplicidade, é verdade, eu sinto isso ao me deparar por aí com gente que me conta o que sente. Que bom que eu posso ser tbm, esse lugar onde a gente pode finalmente ser humana.

Sempre te agradecendo por suas palavras que me refletem e me confortam.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Francisco
irreparável o seu comentário, forte e abrangente.

Mas o que eu mais gostei, foi a sua percepção delicada, de que o medo de morrer, faz parte do medo de viver. É muito isso, e o que incomoda é que não nos damos conta.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Nydia
é por aí mesmo, embora eu me pergunte sempre o que é viver, não sei se tenho vivido a vida, ou essa resposta muda conforme o enfoque. Obrigada por sua leitura e cumplicidade.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Mar arável...
existe outro caminho?
tentamos fugir, mas não existe outra forma. Obrigada pela presença.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Sylvio
eu tropeço....

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Manuel
temos medo de morrer, medo de viver, olha, que precisamos mesmo de um recall....

Norberto
Obrigada meu amigo....bom te ver.

Eduardo
sempre um belo poema para ilustrar! Obrigada querido amigo.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Tinin
as lembranças encontram brechas nas nossas muralhas...ainda bem, né?
Obrigada por sua leitura e amizade.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Ô Gerana
me arrepiei, me emocionei, essas lembranças, esses momentos com nossos pais são muito especiais, e doem menos quando sabemos de novo e de novo, que vamos passar por isso. Mas sua amizade e confiança em me relatar sua vivência, é um presente sem nome. Obrigada!

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Wania
minha linda, sempre pronta pra levantar a poeira. É isso, é isso que vc me ensina sempre.
Obrigada mesmo!

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Augusto
que graça, acho que á aprimeira vez que minha chatice me dá um crédito positivo. Fazer os outros pensarem.... te agradeço tanto....

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Silenciosamente ouvindo...te respondi no teu blog. Um grande beijo.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Kamilla
como algiém com a tua idade consegue ser assim, tão clara. Vc disse tudo, nem tenho o que falar. beijo grande

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

...bee
quem me dera ser metade do que vc disse que eu sou. São os seus olhos, e talvez, vc mesma seja essa mulher: forte, decidida, delicada...
Querida, a relação com nosso pais sempre é complicada, pensa, eles são o começo de tudo isso que nem sabemos bem o que é. Ela se transforma ao logo da vida. e no fim, somos apenas seres humanos, imperfeitos, falíveis, mas que damos o nosso melhor.

Só posso te agradecer, sorrindo, pelo tanto que vc é querida e fofa.

Sylvio de Alencar. disse...

Quem não anda não 'trupica'.

Patrícia Gonçalves disse...

Wal, sempre bom te ler, me vejo nos seus textos. Nossos medos, nossas dores, a beleza da vida, a busca pelo oculto e sagrado.

Não te conheço e gosto de você!

Cabe aqui, "o medo da vida eterniza a morte a cada instante" eu,

beijão

Rabisco disse...

Está linda esta tua publicação.
Envolta em sentimento e, principalmente, sensibilidade.

Beijo

http://rabiscosincertossaltoemceuaberto.blogspot.com/

C. disse...

"Ninguém quer uma chata apontando as dores e sentimentos calados."

Adorei isso, também me contenho, mas quando vejo, tô sendo "a chata".

O texto e a cena parecem tao reais a mim, lembrou-me também o sofá antigo, as lembranças guardadas e mesmo o pai que eu nao queria morresse.

Bj


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