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terça-feira, 18 de maio de 2010

Amor, via de mão única

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Fim de semana, a Betina disse que ficaria sumida e não iria saracotear comigo pelas ondas da NET. Explicou que estava organizando festas, mas ela não reclamou como eu faria, ela disse que adorava dar alegria às pessoas. (Betina, eu amei essa foto sua, parece um afresco italiano, se não fossem os badulaques no pecoço, zifia)

Eu, como toda boa seguidora de Plotino, nessa qualquer coisa que ela disse, vi outra. Aliás, na coisa eu vi a coisa mesmo.

Não existe pessoa que eu converse que não professe a máxima de que amor é dar e receber. Que a gente dá amor, e espera retorno.

Isso nunca me cheirou bem, desde minha primeira paixão, meus pais, porque eu esperava tudo e sempre deles, e eles tinham mais o que fazer do que me paparicar o dia todo.

Depois, os namorados, as amigas, os professores, eu estava sempre esperando retribuição às minhas boas ações. É dando que se recebe, a mão direita lava a esquerda, ajuda-te que Deus te ajudará. Firme nos ditados populares da minha casa, escola e paróquia, fui crescendo me achando uma injustiçada. Era amiga ingrata, professor cego, namorado que não me dava valor. Gentefina..... essa história de amor nunca me desceu bem.

E segui com marido, filho, empregada e patrão, síndico e vizinho, cobras e cachorros, sempre achando que dava demais e recebia de menos.

Um dia o Romeu Leite, meu querido Romeu, escreveu um lance no e.mail, que eu guardei e transcrevo agora:
- Procuro uma relação de mãos únicas, só ida de todos os lados. Será que dá pra existir uma relação somente de ações e não de reações? (Romeuzinho...eu guardei viu!) 23 de novembro de 2008. (olha o Romeu na foto)

Fiquei meio com raiva, justificando sua fala utópica, pelo fato dele ser casado com uma mulher maravilhosa, e por ele morar na Vila Yamaguishi.

Mas a pulga ficou atrás da orelha, que acho, serve apenas pra pulga cutucar a cabeça, e para colocar cabelo que cai na fuça da gente.


Há dois anos, o Renato Bertate, o cara que introduziu a Constelação Sistêmica no Brasil, disse numa constelação que fiz, que existem leis familiares, e que uma delas era o “dar mais amor”.

Vou tentar dar um exemplo: Você empresta 200 pilas pra sua amiga. No dia combinado, ela te devolve a grana. Boa! não fez mais do que a obrigação. Mas, se no dia combinado, ela devolve a grana e ainda te traz uma rosa, ou um chocolate, ou um cacareco qualquer, nossa, a gente fica emocionada, fica feliz da vida. E adivinha! Dia seguinte no super mercado você vê aquele queijinho gostosinho e quer dar pra ela. E dá, e ela recebe, e quer te dar alguma outra coisa, e assim vai....
Confere?

É a tal corrente do bem.

A primeira vez que li o Paulo Freire, eu não entendi nada. Aquele papo do professor não poder ser um banco, apenas passando informação valiosa pros alunos..... a tal educação bancária...
Deu um nó na minha cabeça. Vou dizer que fui uma das pessoas que participou da feitura da Cartilha Poronga, pro Chico Mendes. Dei o maior trabalho, porque eu não entendia a linguagem. Atrasou tudo por causa da minha parte, a diagramação e desenhos de matemática.

Apenas um parênteses, porque agora entendo que o que o Paulo Freire queria dizer, ou acho que entendo; era que sabedoria, assim como amor, são coisas que não têm valor de troca, de mercado.

Não existe amor com conta bancária, eu dou e você me paga com juros.

Não gentefina, sinceramente, sinto muito, mas isso não existe. Amor não é mercadoria.

Mas a gente, a gente faz as coisas pra quem a gente ama, e fica no canto da sala esperando voar um pedigree de carne na boca, e a pessoa amada passando a mão na cabeça da gente dizendo: boa garota, boa garota.

E quando explode a briga, a gente enumera entre lágrima, todos os atos de amor que fizemos pra criatura. A criatura fica mal, fica arrasada, humilhada, e percebe que tem muito pra retribuir pra você, uma verdadeira santa.

E a criatura vai lá no banco do amor, e percebe que não tem fundos, que nunca vai poder te retribuir. Bem.... o que rola então é que ela vai te humilhar, te diminuir, ou te bater, ou te achincalhar. Ou te trocar por outra, que pasme, não era metade do que você era pra ele. Mas com essa outrazinha, ele pode ser o doador. Chega de humilhação e ninguém gosta de ser um devedor.

Ninguém que estar em dívida com outra criatura.

Ou sei lá.....você dá o fora achando que merece mais.

O que quero dizer, é que amar, seja talvez, a missão do ser humano. Amar, amar assim, com via de mão única, sem esperar nada em troca.

Gentefina...... será possível isso?

Não sei, não sei se consigo me desgrudar de todo o meu passado, e dessa Walkyria que quer um pedigree na boca e cócega na barriga.


Não sei se consigo retirar as algemas, as correntes, as cicatrizes.... não sei.

Mas vou dizer....eu vou tentar.

Porque gentefina, sem amor a gente não vive. E eu não quero mais ser uma banqueira arrogante e nem conviver cercada de agiotas amorosos.

Viu Romeu.... eu quero ser uma pessoa de ações, e não de reações. Conto com você! Demorei mas estou vislumbrando algo, há umas 20000000000000 mil léguas submarinas.

Mas já comprei um escafandro! Nada de barcos!

Vou mergulhar....segura peão!




24 comentários:

Gerana Damulakis disse...

Não preciso mais do que o poema de Drummond, perfeito para o seu texto. Atente para a 3ª estrofe.

AS SEM-RAZÕES DO AMOR
Carlos Drummond de Andrade

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
E nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
E com amor não se paga.

Amor é dado de graça
É semeado no vento,
Na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
E a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
Bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
Não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
Feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
E da morte vencedor,
Por mais que o matem (e matam)
A cada instante de amor.

ednampc disse...

Li seu post e me lembrei imediatamente do poema As sem razões do amor. Para mim o Drumond muitas vezes é um alento porque traduz uma busca "deveras humana" de felicidade, amor e realização. Mesmo na dúvida nos toca com sua sensibilidade de poeta -
Se procurar bem você acaba encontrando.
Não a explicação (duvidosa) da vida,
Mas a poesia (inexplicável) da vida.

Carlos Drummond de Andrade

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Gerana
vc à tarde no blog...
quiqui a senhora tava fazendo heim!

Querida, que poema, que coisa. Ele escreve melhor que eu e mais reduzido.

Porque será....rsrsrsrs

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Gerana
amor é primo da morte.....

que delícia de ´parentesco....

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Edna
meu, eu sei que vc vive assim. Esse trecho não é apenas uma citação. Eu sei como vc sabe olhar as coisas, entendê-las, sem transtornos. Eu sei que vc é de verdade.
E eu te adoro!

Carol Morais disse...

Wal meu amor!
Desculpe, não li a postagem.Vim aqui dar sinal de vida! Talvez amanhã entre para colocar tudo em dia. Minha vida está umacorreriamalucaemuitodoida.com.br!
Amanha, me aguarde.Volto a postar e a ler e a comentar, comentar, comentar... =) Ok?
Olha, fiquei emocionada com sua preocupação. De verdade
Brigada e me aguarde.
Cheiro

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Carol
poxa, obrigada por responder...de verdade fiquei pensando se vc tava bem. te acho muito sensível...sei lá. Enfim, siamo tute benne

Tânia regina Contreiras disse...

Wal, acho que somos todos aprendizes desse amor de mão única. Quem já vislumbrou sabe que é bom, mas temos, sim, as recaídas e as cobranças. Dizem que os sentimentos têm suas formas energéticas e suas cores, que os mais sensíveis podem ver. Falam que o corpo energético do amor é luminoso e lembra asas. Contam que quando emitimos o amor a alguém essa forma alada caminha ao destinatário e, se não o encontra recepitivo, retorna ao seu criador, a quem a enviou. Fala-se que esse retorno dá um acolhimento tão grade, traz um conforto indescritível, enche-nos de luz. Se tudo isso é verdade, quando amamos - amamo-nos. E sentir o amor (seja lá de onde venha) é mesmo bom. AMAR não se perde nunca. Tudo isso é bonito, mas estamos aprendendo. Não precisa pressa, eu penso. Os ensaios já nos enche de alegria. Vamos ensaiando.

Beijo,
Tãnia

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Tânia
os ensaios....que sacada. Olha, sabe o que me dixa bem feliz? É saber que tem gente como vc, que sente como eu. Que tem essa esprança nascida da experiência, do sentimento.

Quem sentiu sabe como é esse amor.
E aluz, a aura, eu acredito...eu sinto isso.
Todos podemos sentir.

Obrigada por vc sempre ter tanto a dizer.....

betina moraes disse...

bem, chegamos finalmente ao ponto alto de sermos nós: você e eu somos iguais! eu já mergulho desde a orfandade no mar azul do “dar amor sem ver a quem” sem esperar o (que imagem sensacional, morri de rir!) pedigree na boca ou a carinho na barriga,

mas é antes de tudo uma atitude solitária, que foi pensada e decidida apenas para dar prazer imenso a mim mesma, o que me torna quase um ser mítico entre meus amigos e amigas. eles sabem, eles riem até das vezes em que me ferrei feio e abandonei casa, comida, herança e roupa lavada pelo simples fato de não quererem receber o que tenho para oferecer, mas todos conseguem perceber que não dou absolutamente nada que queria de volta...

começou quando fui fazer parte do fabuloso "trio boa pinta" de palhaços improvisados no ano de 1982 na oficina de teatro do grupo G.A.T.I.G, com a espetacular elbe lima de holanda - http://morabili.blogspot.com/2010/01/elbe-lima-de-holanda.html (que veio a tornar-se minha mãe por pura e espontânea vontade e generosidade dela mesma, quando percebeu que eu precisava de uma, assim como thereza, georgina, ângela, zenith, vera lúcia e marina, todas amadas e idolatradas por mim. amor sem fronteiras!), nos empurrando para dentro do palco sem o menor aviso, nos meus 13 anos e alguns dias, com minhas duas amadas irmãs, um violão, uma bolota colorida em cada bochecha, um nariz de palhaço e a vontade imensa de fazer aquelas 100 crianças rirem até se perderem da pobreza em seus risos.... olha, foi digno de filme americano com final feliz clichê e toda aquela coisa que eles gostam de mostrar sobre superação e tal! daquele dia em diante já fiz um número incontável de gente sorrir, já alfabetizei 50 pessoas, já plantei árvores, já adotei bichos gente e bichos bichos. e hoje trabalho com gastronomia e eventos! todos ficam felizes!

ver minha foto (adoro o elogio fino e olímpico que você fez a ela, mais de uma vez...)junto ao teu post com um assunto que para mim é a razão de uma existência, só me faz querer lhe agradecer por associar-me aos questionamentos e aos teus íntimos contatos com a alma.

eu gosto muito de carinho na barriga, e de petisco atirados em minha direção, mas só quando são de surpresa, sem que eu espere, sem que eu peça ou tenha feito nada para tal. é emocionante demais!

depois de falar aos montes, movida pela emoção de ler as belas coisas que você escreve eu quero te lembrar que sua escrita é das melhores e que o desencadear das ideias, o jeito que você arruma a narrativa é de escritor antigo no ramo, baby!

você está dando o passo certo!!!!!

um beijo imenso, bela.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

BB
minha alma
me diz, são tantas coisas...eu queria saber de tudo.
Esse lance de ser órfã, essa mãe ou mães... hoje pelo menos descobri onde vc trabalha...na cozinha....hehehe.
Brincadeira BBzinha.

Vai, me conta tudo. Manda e.mail,carta, sedex, coments, ou tudo ao mesmo tempo, mas me fala de vc.

Preciso saber.

Vc disse um lance lindo.... é bom ganhar pedigree do nada. Eu adoro, e ganho a vida toda, o dia todo, e ando pela rua olhando tudo pq tudo tá acontecendo.

BB....me conta....

ah...e obrigada por dar asas aos meus sonhos mais secretos, que somente vc podia saber.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

BB
Mas agora veremos criminal minds.....
o Varão tá chamando na sala, gritando...mãe, por favor!!!!!

Prussiano disse...

Amar,pra mim, é uma troca.... uma simbiose mútua... não uma moeda corrente...

Ame muito... doe-se muito, pois quem se doa, recebe...
Viva bem... sem se preocupar se vais receber 'na mesma moeda' .... pois o amor basta-se em si mesmo... e, geralmente, o nosso ego insuflado é que dificulta, pois queremos sempre algo em troca....
Lembra, muitas vezes achamos que não estamos recebendo o suficiente, mas, na outras ponta, a pessoa pode estar fazendo tudo o que pode...
Não somos iguais... tampouco perfeitos... e a vida é assim... segue seu curso independente da nossa vontade!!!!

Para o amor basta apenas uma coisa... RECIPROCIDADE....
e...
se há reciprocidade ... há sempre o caminho livre para o amor !!!!

rsrs....

compliquei??? =/

Patrícia Gonçalves disse...

Minha linda, saudade de você! Vim aqui e li seu post. Sabe que uma coisa que eu aprendi lá atrás e foi muito legal, que o amor é um sentimento nosso, é nosso, é algo que faz bem pra gente. aprendi isso em uma terapia quando chorava um amor não retribuído. Um dia vou escrever sobre isso. Mas, aprendi e foi um aprendizado legal, a não esperar nada em troca, fica muito mais leve fazer.

beijão,

Gerana Damulakis disse...

O blog Wal-betina dentro do blog é D+.

É, Wal, coisa rara, a dama da tarde: foi por conta do lançamento de KB, que saiu ótimo, cheguei cedo em casa para adiantar coisas.

Os versos de CDA que valem como lição, ou lembrete são, mais precisamente: "Não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada".

zé márcio disse...

então, onde será que está o amor? se é coisa que se sente, e a gente sente tanta coisa, mas sabemos, só não prestamos atenção, a mente é muito mimada, e se mete em assuntos que não entende, pois nunca experimentou... então, qdo perceber o amor seja o amor e não a mente fique com o amor, experimente o amor, veja o que descobre... bjs. ps não tenha medo das recaídas rs, elas são inevitáveis, acho que o importante é aprender o caminho, depois vc vai de olhos fechados.

Mundo Mundaca disse...

Wall, Tens toda a razao qdo dizes que nao tem nada pior que alguem te cobrando amor,,..servi teu prato, te trouxe teu doce favorito...etc etc..a gente tem que manifestar em acoes de mae o tempo todo que ama? nao gosto mesmo..respeitar meu espaco, minhas ideias e meus humores é para mim a maior prova de amor..do resto prefiro a minha mae mesmo!
Beijocas
Yasmin

Sylvio de Alencar. disse...

Temos que estar abertos. Abertos às pessoas. Realmente somos reativos..., isso não é legal; sabemos disso.
è na ação que descobrimos o que somos, independente do que a outra pessoa é, ou faz. Quando fazemos algo percebemos se o próximo está sendo reativo, aí, ficamos na nossa. As vezes o proximo está mais próximo do que imaginamos naquele momento, pois ele(a) está próximo(a) 'do jeito dele(a)', nos percebendo da perspectiva dela(e), é isso que temos que perceber.

Considero o amor uma via de infinitas mãos. Na ação, as vias perdem o sentido: tudo é o agora.
O momento presente, sempre será um presente, ou, uma bênção.

Lindo post.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Prussianinho
então, não acredito nessa troca, não pode haver mercadoria...

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Patrícia
escreva sim que vc pode ajudar muita gente, começando por mim.

Amor....é mesmo uma arte!

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Gerana, Bela da Tarde.... então foi jóia o lançamento? Eu curti o título. Me diz, vc que agita essas coisas?
E sim li todo poema, ele é cehio de pedaços citáveis.

Vc viu que a Ednachamp, minha amiga há mais de 20 anos, minha irmã, citou o mesmo poema?

Walkyria Rennó Suleiman, disse...


meu minierinho sde plantão
sei que o amor é o amor e a mente a mente..... mas vc disse tudo....
tem um caminho aí no se deixar , se entregar...

ok, não ficarei mais chateada com a recaídas...mas não assino embaixo.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Yasmin
é isso, éisso, respeitar o nosso mundo interior exterior..... e aproveita da rtua mãe.

saudade docê

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Sylvio

hywhay....rota 66....apenas isso pra mim, essa benção de viver.


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