Acordou, como acordava todos aqueles que seriam os últimos dias de sua vida onde, antes mesmo de abrir os olhos, se sabia viva e inadequada àquele mundo. Não, claro que não havia sido sempre assim. Mas longe ia o tempo em que acordar era um ato de alegria e agradecimento.
Abriu os olhos finalmente, forçada por lágrimas que já estavam formadas nos sonhos da noite.
Não, nem sempre fora assim. Acordar sorrindo ou gargalhando com alguma lembrança ou percepção do mundo que se mostrava hilário aos seus olhos, havia sido uma constante. Constante antiga....
Sentou-se na cama e chorou. Entre soluços deixava vir de dentro do peito um lamento forte....ai, ai, ai....profundo, dolorido... que ecoava pela casa e constrangia os outros habitantes da casa.
Ai, ai, ai....entre lágrimas e a luz da manhã....entre ilusões e uma vida toda perdida, afinal!
De repente, talvez daquele lugar distante de seu ser, veio a fala: ai, ai, ai, caramba!
Começou a rir entre lágrimas, a gargalhar, e a se lembrar de um desenho antigo, Pepe Legal, um cachorro de chapéu e botas, se lamentando. Ai, ai, ai, caramba! Ou seria o Zé Colmeia?
E as pessoas da casa ouviram maravilhadas, naquela manhã, muitas gargalhadas vindas do quarto da enferma!
foto: Catarina Cardoso
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18 comentários:
A divina comédia humana, o tragicômico da existência, na gangorra insustentável do equilíbrio.
É isso Hélcio, o que dá pra rir dá pra chorar, ou no mínimo, tirarmos um sarro.
Legal.
Vc tá boa em conto.
A mudança foi brusca: o riso, e a razão dele, formam um contraponto legal.
Sylvio...às vezes eu fico rindo de mim..... acho que gira o velocímetro, não tem mais onde ir....tem que girar....
Obrigado pelo comentário, Walquíria. Estou vendo que a produção aqui é intensa e de primeita, como no texto da menina doente.
Mas desde quando paixão disfarçada é doença?
Carinhos
Jorge
Assim como o Jorge Sader, que comentou aqui anteriormente, também me pergunto a respeito da natureza da enfermidade.
Sensacional, Walkyria! Núcleo e superfície assoprados assim, feito os saltos com dedinhos dos pés em desenho animado.
Ai, ai, ai, caramba!
Beijos e beijos!!
Carolina.
El paso del tiempo puede ser motivo de unas risas.
Cantas sonoridades comúns entre o seu idioma e o galego.
Y cuanta universalidad en ese lamento.
Un abrazo. Unha aperta. Um abraço.
wal...
eu bem sei que o quarto pode ser a rua e cama pode ser a calçada do metrô...
maravilhoso conto!
um beijo, especial.
Começo pela magnifica foto com que ilustra "paródia" da vida real.
Pedaços de vida contados de forma simples mas cheia de humor e alguma ironia.
Gosto muito de a ler,
Gostei muito: intenso e com um toque de humor.
Jorge
e Mácio
que interessante essa visão masculina da coisa. E ainda tem mulher que acha que homem é insensível. Vcs dois arrasaram no comentário.
Carolina,
sua cara de pau....onde a senhora andava? Tava com saudade dessa sua maneira ímpar de escrever.
Sam,
não sei se á o idioma, não sei se é vc mesmo, mas tudo que vc escreve me parece uma poesia.
E me toca profundamente.
BB
esse lamento vem em qualquer lugar, vc sabe.....
e ainda por cima, me adivinha.
Manuel
deixa eu aproveitar pra te parabenizar por um ano de blog. Que demais!
Gerana
acho que assim é a vida!
Sylvícola
era isso mesmo que eu queria causar.... espertinho!
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