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terça-feira, 7 de setembro de 2010

Liberdade

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"Esta poesia ,“Liberté” (Liberdade), composta por vinte e uma estrofes, é lançada por aviões ingleses sobre a França. Milhares de exemplares, contendo os versos mais famosos de Paul Éluard, chegam às mãos da Resistência francesa e fornecem um novo alento, na luta pela libertação da ocupação nazista."

Ela é meu lema de liberdade há muitas décadas.
Quero dizer teu nome Liberdade
Quero dizer teu nome novamente
Para que sejas sempre o meu amor
E que te confiundas
A meu próprio nome.....


"Nos meus cadernos de escola
Na minha carteira e nas árvores
Sobre a areia e sobre a neve
Escrevo o teu nome

Nas páginas lidas
Em todas as páginas brancas
Pedra sangue papel ou cinza
Escrevo o teu nome

Nas imagens douradas
Nas armas dos guerreiros
Na coroa dos reis
Escrevo o teu nome

Na selva e no deserto

No eco da minha infância
Escrevo o teu nome

No açude de sol bafiento
No lago de lua esperta
Escrevo o teu nome

Nos campos no horizonte
Nas asas dos passarinhos
No moinho tenebroso
Escrevo o teu nome

Em cada sopro da manhã
No mar e nos navios
Na serrania demente
Escrevo o teu nome

Na espuma das nuvens
E nos suores da borrasca
Na chuva densa e insípida
Escrevo o teu nome

Nas formas cintilantes
Nas cores dos sinos
Na verdade física
Escrevo o teu nome

Nos caminhos conscientes
Nas estradas estendidas
Nas praças que trasbordam
Escrevo o teu nome

Na lâmpada que se acende
E naquela que se apaga
Nas minhas razões reunidas
Escrevo o teu nome

No fruto cortado em dois
Do espelho e do meu quarto
Na cama concha vazia
Escrevo o teu nome


No meu cão glutão e terno
De orelhas levantadas
Na sua pata desastrada
Escrevo o teu nome

No limiar da minha porta
Nos objectos familiares
No rolo de fogo sagrado
Escrevo o teu nome

Em toda carne possuida
Na fronte dos meus amigos
Em cada mão que se estende
Escrevo o teu nome

Na janela de surpresas
E nos lábios comoventes
Mais longe que o silêncio
Escrevo o teu nome

Nos refúgios destruídos
Nos meus faróis extintos
Nos muros do meu tédio
Escrevo o teu nome

Na vacuidade sem desejo
Na desnuda solidão
Nas escadas da morte
Escrevo o teu nome

Na saúde recuperada
No perigo desaparecido
Na esperança sem lembranças
Escrevo o teu nome

E ao poder de uma palavra
Recomeço a minha vida
Nasci para te conhecer
E te chamar
Liberdade"

Paul Eluard
in Poésies et vérités, 1942
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"Além de ser um poema magnífico do ponto de vista literário, "Liberté", de Paul Éluard, carrega consigo o peso da História. Escrito em 1942, com o título "Une Seule Pensée" (Um Único Pensamento), esse texto foi transportado clandestinamente da França, ocupada pelos nazistas, para a Inglaterra.


Em 1943, traduzido para vários idiomas, o poema foi distribuído como um panfleto, lançado por aviões aliados nos céus da Europa conflagrada.


O responsável por contrabandear essa preciosidade da França ocupada para a Inglaterra foi um brasileiro, o pintor pernambucano Cícero Dias (1907-2003). Em reconhecimento a essa proeza, Dias foi condecorado pelo governo francês com a Ordem Nacional do Mérito, em 1998.


Paul Éluard — nom de plume de Eugène-Émile-Paul Grindel (1895-1952) — foi um dos expoentes da poesia surrealista. Membro do partido comunista francês, participou da Resistência aos nazistas na Segunda Guerra Mundial.


Além do ato heróico de Cícero Dias, Éluard tem outro ponto de contato com o Brasil. Em 1913-14, foi colega do poeta Manuel Bandeira num sanatório em Clavadel, na Suíça. Lá, ambos se tratavam de tuberculose.


Aqui, o poema "Liberté", ou "Une Seule Pensée", aparece numa tradução escrita a quatro mãos, ainda nos anos 40, por Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira.


Compreensivelmente, existe uma profusão de traduções deste poema. Em minha opinião, esta é, de longe, a melhor. Há outras também competentes, como a de Guilherme de Almeida. Mas a internet está cheia de versões grosseiras e amadoras."
fonte
http://www.algumapoesia.com.br/drummond/drummond23.htm
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22 comentários:

Francisco disse...

Wal!
Essa poesia deveria ser a oração diária de todas as pessoas. Tanto das que clamam por liberdade, como as que a possuem e não valorizam.
Concordo com vc. Essa é a melhor versão entre as existentes.
Um beijo!

Leonardo B. disse...

[é no indiferença que mora o esquecimento: só quando o carteiro se aproxima nos lembramos que deixámos lá atrás alguém sem noticias.
Da dita liberdade, poderia citar, como já fiz hoje, que «Sofremos muito com o pouco que nos falta e gozamos pouco o muito que temos»... Shakespeare, que não sei "se tinha biblioteca ou se percebia alguma coisa de finanças", mas que via de olhos fechados o que muitos não conseguem de portas escancaradas.

Não conhecia este poema: vou aprender a ler este poema!]

Um imenso abraço, Walkyria

Leonardo B.

AVOGI disse...

bonito poema , adorei a sério. kis :) estou a te seguir. kis :)

Gerana Damulakis disse...

Grande poema e, com você, também acho a tradução dos nossos grandes MB e CDA a melhor.


Wal: não tenho o que constetar ou concordar quanto aos comentários da postagem sobre o poema de Lawrence em torno da infelicidade das mulheres casadas. Não coloco meu ponto de vista, coloco a visão literária: ali há a idéia para um romance. Só isso.
Achei interessante a posição que os homens tomaram, reparou?

« Katyuscia Carvalho » disse...

Era um dos maiores.
Assim como a atitude tão rara do Cícero Dias.

Um poema que, além de toda a carga de força que já em si tem, leva com ele a História dentro. Peitos humanos daqueles tempos em que atitudes se davam, apesar de.

Um grande beijo.
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Ela está de pé nas minhas pálpebras
Com os seus cabelos nos meus entrelaçados,
Ela tem a forma das minhas mãos,
Ela tem a cor dos meus olhos,
E desaparece na minha sombra
Como uma pedra sobre o sol.

Ela tem sempre os olhos abertos
E não me deixa dormir.
Os sonhos dela à luz do dia
Fazem os sóis evaporarem-se,
Fazem-me rir, chorar e rir,
Falar sem ter nada para dizer.

Paul Éluard

ayie disse...

nice and simple poem..:)

Phivos Nicolaides disse...

Olá meu querido amigo, Como você está? Tenha uma linda semana!

betina moraes disse...

wal..

você é a criatura mais olimpicophinessepitonisante que conheço! ainda ONTEM eu estava em um lugar chiquérrimo onde o poema liberté havia sido lido de forma emocionada por uma atriz francesa que está aqui no rio, chorei e tudo o mais.

e hoje venho aqui é cá está!!! deus meu! que ligação extraordinária!!!!!

Francisco de Sousa Vieira Filho disse...

A beleza ganha peso e contornos outros quando se sabe teve seu papel o fogo que arde por trás das palavras... belíssimo!!!

Liège disse...

Wal, li esse poema há algum tempo e agora foi um enorme prazer voltar a percorrer suas palavras e versos.
Eu não conhecia -ou não me lembrava de- algumas partes de sua história e as diferentes traduções.
Adorei!
Beijos.

Barbara disse...

Amazona transpassa tempo/espaço e vem dar uma aula e tanto!
Obrigada.

Blogadinha disse...

A par das fraternidade e igualdade, uma bela utopia e melhor oração - obrigado pela partilha.

Voei nessas asas!

Super :)

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Leonadro...
"se tinha biblioteca ou se percebia alguma coisa de finanças",
nem Jesus...

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Gerana
ok, realmente vc não colocou sua opinião, e sim, reparei que os homeens ficaram bem preocupados. hehehe, acho que levantar a questão sempre faz a gente se voltar pra dentro. De novo Gerana, vc se superou.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Katy
danadinha
responde em cima da pinta e a inda nos brinda com um novo poema.
Atitudes se davam.... isso aí, inimigo declarado...e agora?
Onde está o inimigo?

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Francisco, posso ser loira...hehehe, mas escolho bem, né não?
Beijo grande

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Avogi
Aye
bem vindos
♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

FRancisco
lindo mesmo o seu comment, sempre embelesando o que está dito.
Obrigada viu!
♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Liège
como é bom rever, e rever com olhos doferentes. Isso é coisa de gente sabida, como vc.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Bárbara...
como vc é generosa comigo, e amiga, incentivadora, sem dizer que me vê de todos os lados.
Pra vc, meu grande, imenso reconhecimento

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Blogadinha
fala sério, que seria da gente sem o sonho e a utpoia?
Bem lembrado, o impossível é o melhor lugar.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

BBzoka

te deixei por último pq vc é demais pro meu caminhãozinho.
Vai falando aê, que lugar chiquérrimo foi este, e que atriz era essa.

Vc.... sempre no top heim?

Querida, esse poema me foi apresentado pela minha segunda amiga, a GIGI, que não é a JUJU.

Ficamos juntas nos tempos mais loucos de nossas vidas.

Há 2 anos, Gigi se hospeda num holtel em sampa, pede a cobertura mais alta, e se joga lá de cima.

essa foi a liberdade que ela escolheu.

Sei que esse poema ficou comigo a vida toda.


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