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domingo, 26 de setembro de 2010

Porcentagens de sucessso

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Meu filho chegou em casa.
Olho pra ele, lindo, bem educado, saudável, culto e feliz, e não posso deixar de me sentir agradecida por essa benção: de ter nascido numa família que tinha tradição e grana pra que eu pudesse educar meus filhos. Ter nascido nessa família e ainda, branca, loira e católica, fez 50% do meu sucesso.

Ao olhar meu filho, nesta noite e sempre, não posso deixar de ter alguma culpa pelas mães que não tiveram essa chance, já no nascimento.

Não fosse tudo isso, ainda estudei na USP, paga com o dinheiro do contribuinte, paga com suor de tantos trabalhadores que muitas vezes, nem comida suficiente tinham pra oferecer a seus filhos. Esse foi o outro 20% do meu sucesso.

Não posso deixar de sentir alguma culpa.

Na minha vida familiar, era na cozinha, nos currais e nas dependências dos empregados que rolava a vida verdadeira. Alegria, compreensão, coleguismo. Sempre preferi a eles, que qualquer outro grupo de minha criação.

Tentei incutir nos meus filhos essa visão humanitária de vida, mas percebi que esse tipo de marca a gente trás no coração, de nascença.

Nasci nos anos 50. Quando eu ainda estava no primário, o mundo começou a assistir a maior transformação comportamental e tecnológica dos nossos pobres 5ooo anos como humanidade. As raças queriam se impor como seres humanos, mulheres, negros, homossexuais, crianças, adolescentes e idosos teriam seus direitos preservados, voto universal, queima de sutiãs, condições de trabalho, protestos, passeatas, indignação geral em todos os setores da vida sobre a Terra.

Eu vi, ouvi e senti! Não precisei fazer nada, a não ser seguir este curso da história, aberto para mim com a vida de tantos seres que se sacrificaram para dar à posteridade, alguma dignidade. Este é o outro 20% do meu sucesso.

Eu sei, eu vivi chegar em qualquer lugar, branca, bem educada, com boas roupas e ser bem atendida. Isso não me deixava satisfeita, ao contrário, me envergonhava e me dava a exata medida que, o que eu era, de verdade, não importava. Importava apenas a minha a classe social. Isso! me diminuiu a vida toda. E me fez sentir, ainda que metaforicamente, o sabor de ser um ser humano desdenhado por sua etnia, descendência ou classe social.

Eu vivi também a auto estima dos poderosos. Como eles chegam e exigem, decidem, quebram tudo em nome de seus direitos hereditários ou conquistados. Porque ser poderoso, é um estado de espírito, de espírito de porco. Na vida pessoal, despidos de seus adornos, cargos, acessóriso, eles não são nada, nem ninguém. São crianças que temem o escuro, que temem o amor e as verdades vindas do coração. Auto estima é verdadeira quando vem da consciência, da alma e do coração. Só assim  posso encarar minhas derrotas, minhas limitações, e aceitar outro ser humano sem vergonha de quem eu sou.

Marcuse disse que, nem o advento da suprema liberdade nos redimirá daqueles que morreram em dor. À época não entendi bem isso, no vigor absoluto dos meus 18 anos, mas agora, entendo bem.

Não entendo de política, de economia, de porra nenhuma. Mas entendo de dignidade, porque eu a tive e mais ainda, pude ver quem não a teve, que trajetória inglória, cheia de dor e preconceito que eles enfrentaram.

Não entendo de nada, mas tenho um coração, que é 10% do meu sucesso. Ele me diz que não é possível que todas as mães não possam dar comida pros seus filhos. Não possam dar leite, carinho, tempo, educação, água encanada, esgoto, luz elétrica, poesia, cinema, parques, pôr do sol....

Eu posso estar enganada politicamente falando, mas isso importa pouco. A História é feita desses enganos. Ilustres personalidades em todos os tempos se enganaram.

Mas não estou enganada quanto às minhas atitudes de vida. Tento levar a ferro e fogo o que meu coração diz, sempre pautado nessa culpa. Tento dar exemplos aos meus filhos, amigos, empregados e patrões, da minha dignidade indignada. Da minha genuína vontade de que todos pudessem viver em liberdade e felicidade. Com as coisas mais triviais pras pessoas que como eu, nasceram com tanta porcentagem de vantagem.

É o mínimo que posso fazer, neste 10% que me tange.

55 comentários:

Juci Barros disse...

Fantástico!

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Juci
obrigada por me ler, por ter essa paciência comigo. Vamos firme minha amiga!

Marcantonio disse...

Sob impacto da leitura, só posso fazer eco à Juci. Fantástico!

Sylvio de Alencar. disse...

'Culpa' é que nem capim tiririca: se espalha, se enraíza, gruda, espeta e pode ser dolorido de tirar. Só capinando numa boa!
"O que busca é consciência. Mas consciência não é culpa, e amor não é medo," diz nosso Brother Maior.
Claro, percebi que este sentimento não é o principal em sua conversa, só fiz um adendo.

A 'consciência social' que nos presenteiam é meio podrinha: a que recebi me fazia sentir-me superior, os que eram 'superiores' a mim me faziam sentir-me inferior, os 'inferiores' me achavam um bosta, E aí a merda tava feita. Afinal: qual era o meu lugar?
Criei minha filha deixando claro a ela minhas duvidas quanto a essa 'escala social', passei-lhe valores sociais atrelados à qualidades humanas, desmistifiquei o 'rico', e o 'pobre': são condições. O que tem atrás destas 'condições' é o que vale.

Se você se orgulha tanto de seu filho, então, é porque acertou em sua educação - ele tem a sensibidade do humano.
Parabéns a você, felicidades a ele, sorte a nossa!
:)

PV: brikado
Às vezes a gente tem que dar uma brikada em nossa vida, isto é: damos um breque e uma brincada... Pronto! Já podemos continuar a tocar o bonde!

José Gonçalves disse...

Olá Walkyria,

Parabéns pela Luta travada ao longo da vida tentando distinguir o certo do errado, tentando ver muito para além das paredes que limitavam a vida de qualquer um.

Um abraço e até sempre,

José Gonçalves
(Guimarães)

Blog do Mensageiro disse...

Arrasou, hein?

ROBERTO disse...

Sensacional.

Eu não suporto o Cazuza mas lembrei de uma que cabe, eu acho:
"eu sou burguês mas eu sou artista / estou do lado do povo".

sam rock disse...

Walkyria usted no tuvo culpa de su nacimiento hace cinco décadas -aunque agradezca su alumbramiento y la vida que le toca vivir- . Por tanto, tampoco tiene culpa de las miserias que nos envuelven y, a menudo, nos dicen que hay otros mundos, y están a la vuelta de la esquina, como también caminan a nuestro lado la alegría y la felicidad.

Un abrazo

Jorge Manuel Brasil Mesquita disse...

Cada um tece a vida com os escolhos que encontra pelo caminho para fazer dela um caminho sem pedras no sapato. O pior é que nem todos têm sapatos para fugir às pedras que encontra pelo caminho. Vida besta.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Lisboa, 27/09/2010

Djabal disse...

Talvez com outros motivos, ou com os mesmo que você elencou, Jorge Luiz Borges também compartilhava da sua solução. Dizia que a ética era suficiente como padrão de comportamento. Daquilo que se devia ou não fazer. Para dizer bem a verdade, ninguém sabe nada de nada. E estamos a todo momento vendo os entendidos fazerem coisas que nos deixariam ruborizados, se esta vergonha ainda existisse por aí.
Fazendo o mínimo estará junto ao méximo. Parabéns, beijos.

Senhor da Vida disse...

Magnifico, de fato existem valores que aos olhos de muitos, parecem bobagem, mas dignidade é tudo!

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Marcantonio
fico super feliz quando vejo vc aqui. Sua poesia e arte sempre me inspiram.
Obrigada.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Sylvio
vou aprender com vc a dar uma brikada na minha vida. Às vezes, sou muito chata.

Essa coisa de classe social é fhoda. Ela acontece no chefe de obra, no capataz, no sargente...tem sempre um inferior. E um superior. Onde é mesmo que a gente tá?

Por isso vale mesmo o que está dentro, como vc disse.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

José
Desde cedo percebi essa luta interna, esses sentimentos contraditórios e poluídos de que é feita a nossa alam. Acho que vc tbm percebeu.
Obrigada por tua presença.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

José
Desde cedo percebi essa luta interna, esses sentimentos contraditórios e poluídos de que é feita a nossa alam. Acho que vc tbm percebeu.
Obrigada por tua presença.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Fala André
meu tufão, vendaval, relâmpago necessário.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Roberto
rsrsrs eu tbm não suporto o Cazuza....

olha, o Millôr diz que para se fazer opção pelos pobres, tem que ser rico. Gosto dessa.

Lembro tbm, que nos anos 70, vários amigos meus filiados à terceira internacinal, foram expuldos por apoiarem a formação do PT. Pq, segundo a comuna, era um partido advindo da bueguesia, pois representava um sindicato, orgão criado pela burguesia.

Sei lá, acho que vale ter alguma noção das coisas.... pra opinar, o tem que ter embasamento, como vc sempre ressalta.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Roberto..
ah, eu gosto muito de ter vc aqui

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Roque
sempre alerta nos sentimentos masi profundos e sinceros de nossos corações.
Sim, não temos culpa, mas temos tanto...podemos tentar igualar essa balança, pelo menso na nossa vida cotidiana.

Talvez seja essa uma forma de heroísmo.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Jorge
ah, que delícia, vida besta mesmo. veja, temos tanto e não nos entendemos.... e temos sapatos. E quem não tem?
Foi ao cerne!

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Djabal...

é verdade, sabemos nada de nada. Tentamos cegamente encontrar caminhos. Somente a ética pode pautá-los.

E... todo mundo sabe, bem dentro de si, quando está fazendo mal a outro alguém.
Obrigada por tua inteligência e sensibilidade despeja assim, nesse céu.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Meu SEnhor mais querido...

sim, vc sabe do que estou falando.
A trivialidade do possuído, cega a gente às necessidades alheias.
bj enorme

Gerana Damulakis disse...

Excelente!
Tão excelente que não resta o que dizer, só repetir: excelente!

ROBERTO disse...

Opa... que bom! Então, continuo voltando.

Carol Morais disse...

Olha, se for pra sentir culpa, que sintamos em tudo que fazemos.
Eu costumava sentir muita culpa por tudo que tenho e que outros nao tem. Pela saude, etc. Mas nao podemos viver imersos nesse tipo de culpa, nesse mundo chato.
O mundo eh desigual. Isso eh ruim de se dizer, mas precisamos aceitar e encara a realidade de uma forma ou de outra. O que eu faco? Eu procuro tentar ajudar como posso. Nao com dinheiro, pq isso tb eh dificil pra mim, mas com o que aprendo e o com o que eu sei.
Eu tb rezo e torco para que um dia isso mude, pq sei que amanha isso nao vai acontecer. Pq, se acontecesse, e todos fossemos iguais e vivessemos na mesma situacao, infelizmente o mundo nao andaria. Isso eh uma pena de se dizer, mas eh assim. A unica coisa que eu acho ridiculo sao os extremos: pobreza demais e riqueza demais. Isso eu nao tolero.
Mas eu entendo tua culpa. E, mesmo que a culpa que vc carregue nao seja sua, eh isso que nos move a sermos pessoas melhores, eu acho.

Um cheiro linda!!

Carol Morais disse...

*encarar

e desculpa pela falta dos acentos e bla bla bla

Elefante de Costas disse...

Olá, Walkyria.
Estou impressionado com a sua clarividência, a sua consciência e sua lida.
Um abraço!

alice disse...

fico feliz por si, wall. nitidamente merece todas as percentagens :) um beijinho grande.

betina moraes disse...

Eu não sei se percebeu, minha querida mais querida, mas eu demorei para conseguir comentar o texto.
Na sexta tive uma notícia bizarra: meu primo, um homem de 55 anos, bem nascido, rico, com nome e sobrenome suficientes para ser o que quisesse, morreu de overdose, na porta da mãe, com craque, mas não sem antes lutar com os vizinhos, querer quebrar tudo que havia pela frente e humilhar-se por sua condição de dependente químico. Ele morreu no mês de agosto, mas eu só soube na sexta passada. Minha tia, com 82 anos, viúva, mãe de apenas dois filhos, teve o desmantelamento de ver morrer o filho assim, bem no corredor do prédio onde mora. Não questionei nada. Lembrei apenas que quando o meu pai morreu em 1973 e minha mãe nos levou para a casa de minha tia, mulher do irmão de meu pai. Meu primo (Ricardo, chamava-se Ricardo) estava no auge das promessas de sucesso, ia fazer 18, era loiro, olhos verdes, cabelos longos, pele dourada pelo sol glorioso de Ipanema. Eu o via como um deus. Eu que tinha meus 4 anos de vida me lembro de tê-lo visto algumas vezes assim, como um deus. Não o via muito depois que ele fez 25, ele sumia e aparecia, cada vez mais magro e menos deus.
Custei a poder comentar o post. Mexeu comigo o fato de seu texto ser um mapa de algumas questões que me entristecem. Juntei a boa vida de Ricardo e seu fim macabro ao que vejo quase que diariamente com as famílias que tento humildemente ajudar na superação de suas misérias e frustrações e não deu para falar. Hoje vim, pois preciso te dizer (depois de alugar o teu espaço para desabafar, ou confessar, não sei bem) que você é uma em um milhão e eu tenho orgulho por ser sua amiga. Seus filhos são pessoas de muita sorte!

O texto é, definitivamente, uma das melhores avaliações que eu já li a respeito da diferença em nossa sociedade.

Um beijo, wal, um beijo imenso.

Elefante de Costas disse...

Walkyria, eu aparecerei todos os dias, por ser três e por ter recebido este pedido individual.
Agora, pretendo lhe trazer todos os dias também. Quando vi que não havia um novo, reli este texto com muito gosto, que é tão importante e claro.

O Elefante de Costas.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Garana...
sua opinião sempre, mas sempre me interessa. Acho que temos muito o que conmversar.
bjão

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Ô roberto
Só me honra a sua presença.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Meu querido elefante e suas outras figuras.

Eu adoraria que vc viesse todo dia aqui.Mas, quando no teu blog pedi pra vc dar as caras, era pra vc escrever todo dia lá, pq amei teu jeito, tua forma de falar sério entre piadas. Gostei muito da tua escrita.
Era isso.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Alice
puxa estou em falta com vc. E olha que amo tua poesia. Mas a vida tá que tá...sabia.
Obrigada por tua presença!

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

BB
que posso te dizer.... senti tua falta, fiquei até preocupada, pq veja, e se acontece algo e eu nem fico sabendo, podia te ajudar ela algo, sei lá.

Mas sabe, esse mapa me entristece, por isso fiz o desenho do mapa.
Entendo sei desabafo e entendo que tem tudo a ver, vc, como sempre entendeu o que eu disse.

Agora, veja bem, além de tudo, ainda tem gente que tem mais sorte na vida, assim, como eu disse e vc citou seu primo. Mas e daí? Que fazemos com isso?

Entendo vc, minha querida, e eu não sou uma em 1 milhão. Sou uma, perto de vc, onde vc estiver.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Carol
como não te amar de paixão?
Veja, vc deu a solução, como sempre. Se a culpa é minha ou do Zé Mané, não tem a menor importância, se eu puder usar isso pra crescer, pra ser melhor. Não pra aporrinhar os outros com lamentações.

Querida......cada vez que vc escreve, mato a saudade. Depois volta, mas vc tbm volta. E isso é lindio.

«╬♥ LADy M«╬♥ disse...

SimPLISMENTE FANTAISCOO...BJS OTIMA SEMANA

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Lady M ♥*ღ*♥*ღ*♥*ღ*♥
um montão de beijos procê!

Carol Morais disse...

Eu sou um bumerangue cheio de acucar de confeiteiro.
=)

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Carol
é mesmo, a mais bela ntradução. Sai rodopiando, tonta, mas cehia de direção. Que vem da essência. E espalha açucrinha fininho, como a neve.
bjin

betina moraes disse...

wal do meu coração,

:)



PV: gramarra

gramática da "marra"

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Betina
mimha flor!
*⊱✿◕‿◕✿⊰*

ju rigoni disse...

Wall, minha querida, um texto lindo que reflete o quão humana você é. Erros, minha linda, todos cometem. E nem sempre podemos chamá-los de erros, se cometidos quando se caminha na estrada do coração, do desejo de acertar.

Preciso vir por aqui com mais calma. Estou em falta com um monte de gente e visitando devagar; convalescendo de uma pneumoia. Antibióticos e coisas tais que não combinam com minha cervejinha. Ai, eu mereço!

Bjs no coração, lindona. E inté!

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Minha linda Ju....
temos entre nós, desde muito, um acordo no coração. Vc não precisa ficar aqui comentando pra que eu entre no teu blog, e vice-versa. Essa ética blogueana não combina com a gente. Tá me enjoandno na verdade.

Mas santa, vc ainda não sarou?

ju rigoni disse...

Em verdade não vim apenas porque você comentou lá no meu blogue. Vim pela oportunidade; pelo fato de estar na net no aqui e no agora, coisa que vai se espaçando cada vez mais. Quanto à sua pergunta, a resposta, infelizmente, ainda é não. E esta é a segunda vez este ano. Ainda estou com problemas de baixa imunidade; o colesterol nas nuvens. Tenho ignorado a recomendação médica; repouso não consigo fazer. Bjs, querida. Inté!

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Ju, minha neguinha, claro que não foi pq eu comentei....vc não é disso, eu sei. Adoro quando acontece de "estarmos"....
Querida, só fico chateada que vc não possa beber e fumar sem dor, e a valer. Olha.... tudo passa viu.
Vc já ouviu falar de antroposofia?

betina moraes disse...

wal! que flor lindinha! ah! ah!

tania freitas disse...

Bom, achei o texto bonito, como sempre. Mas minha estória é muito diferente e vejo a vida diferente também. Claro: uma coisa é conseqüência da outra.

Meu pai e minha mãe foram migrantes que saíram com uma mão na frente a outra atrás, ele da Paraíba e ela do Espírito Santo, para se encontrar no Rio de Janeiro. Eles moravam no que já era então aquela favela de Ramos, no Rio, abrigados ali depois da enchente durante a qual nasci. Com as águas de março de 66. Minha mãe diz que nasci duplamente nua, sem uma peça de enxoval porque a enchente levou tudo. Fui obstinada desde pequenina, como ela gosta de dizer com aquela poesia das mães. Ia entregar as roupas que minha mãe lavava para as madames, isso já na Baixada Fluminense para onde nos mudamos quando meu pai conseguiu comprar um terreninho lá. Lá cresci. Depois, adulta, fui para a zona norte do Rio (Méier, Vila Isabel) e, mais tarde, já com 30 anos, aqui pro Nordeste, fazendo o 'caminho de volta' que meu pai nunca quis fazer. Estou em Natal há catorze anos, por escolha minha.

Meu pai queria ser compositor, publicar seus poemas e canções, alimentando sonhos de celebridade, mas passou a vida trabalhando em obra, como pedreiro, depois mestre de obras. Lá em casa às vezes faltava o básico se a gente falar em coisas materiais, mas isso nunca foi motivo de drama nem se tornou um tema na minha vida. Não me organizei em torno da pobreza ou da carência, como tanta gente faz, até quando tem bem mais do que tínhamos. Organizei minha vida e minha identidade em torno da metade cheia do copo: a família pequena mas unida, meu gosto pelos estudos e pela literatura, as brincadeiras, a clareza com que eu sabia o que queria para o futuro. A vida gosta de quem gosta dela. Por isso, amei seu texto sobre as cortinas da sua mãe, aquela paixão de viver.

Vivemos dentro das condições objetivas que herdamos e temos muitas oportunidades para modificá-las, para melhor ou pior. Cada elemento em volta, animado ou inanimado, faz diferença, tenham sido escolhidos ou impostos. Ter poder sobre isso, sim, faz diferença. A impotência é uma droga, ter que se sujeitar a condições ruins à força é uma droga. Então, o negócio é nos agenciarmos com aquilo que nos fortalece, subir no cavalo e ir pelear com gosto. Estar vivo é o que importa, a única condição que não pode faltar.
Quem 'decide' ser infeliz será e irá encontrar uma penca de justificativas para continuar sendo. Enquanto isso, outros são atirados na lixeira assim que nascem, fazem uma bricolagem qualquer com o que encontram por lá, montam num burrico e saem por aí curtindo, transformando lixo em ouro. É a atitude, a 'decisão', a 'escolha'. Só isso. O negócio é não fazer drama, não adubar as coisas ruins. Tem gente que faz questão de adubar todo santo dia, com método, e depois não sabe como sua vida ficou daquele jeito. Se investissem esse tempo e energia em adubar o que sua vida tem de bom provavelmente o resultado seria outro. Vá lá, talvez eu esteja sendo superficial. Dizem que a alma humana é complexa. Mas, eu vejo muita mistificação por aí, muito narcisismo.

Desculpe haver me alongado demais. Mas, isso foi provocado pela leitura do teu texto, que me pôs a dialogar com tua estória e a refletir sobre esses temas que estão sempre presentes na minha vida - já que sou de certa forma estrangeira no meio em que vivo hoje (não estou reclamando). E assim precisava contar a minha própria estória sobre diferença de classes. Eu ainda sou 'diferente' e cuido muito da minha diferença. Nunca fiz plástica no meu espírito nem deixei minhas redes sociais pra trás. Só somei a elas outras.

Te digo uma coisa: ninguém precisa da tua culpa, por mais que te tenhas habituado a ela. Joga isso fora. Sensibilidade de fato nada tem a ver com classe/posição social. As ações, sim. Pode ter certeza que a parte que te toca em tudo de bacana na tua vida não são somente esses 10% que você se credita. Bem capaz que seja os outros 90.

Beijo

Lua Nova disse...

Talvez seja culpa, talvez seja só consciência e responsabilidade social. Não somos culpados pelo que não escolhemos. Sou uma pessoa que acredita no livre arbítrio, a partir do momento em que temos responsabilidade pelos nossos atos (o que varia de pessoa pra pessoa)e acredito sim, que a partir daí, somos responsáveis por tudo que nos aconteça. Mas não pela nossa origem.
Cada um de nós pode fazer a diferença nesse mundo, pelo que fazemos e até pelo que não fazemos, e quanto a isso vc está tomando todas as providência.
Parabéns pelo texto, pelos sentimentos, pelas atitudes.
Sempre achei por intuição e pelas coisas que vc escreve, que vc é uma pessoa especial. Acho que não me enganei.
Beijokas.

Sylvio de Alencar. disse...

Os comentários feito por Betina, e Tania Freitas, impresionam; e se encaixam com perfeição neste post.
1) Independente de uma posição social, as tragédias acontecem, ou, podem acontecer com todos; é óbivio mas nos esquecemos disso.
2)Temos uma tendência (a grande maioria de nós), de nos atermos ás 'infelicidades' sociais, quando poderíamos focar nas atitudes, e pensamentos, positivos que norteiam pessoas como a Tania; que, se não fossem em número suficiente, o Brasil não existiria como nação.

Que o Roberto, e todos 'nozes', participemos por um longo tempo deste blog.

Abraços!

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Tânia
Vc não foi superficail, e nem se alongou. Gostei muito da tua história, ela é maravilhosa mesmo. Principalemnet na parte de ter uma família unida e pronta pra de ajudar.

Acho que não me fiz compreender. Eu não contei minha história, falei apenas dos privilégios que alguns possuem de graça.

A minha história é bem diferente disso. Tive tudo, nasci em berço de ouro.

Mas fiz uma opção já aos 15 anos, época que por causa da minha insubordinação, tive juiz corregedor até os 18 anos. Veja o que isso significava pra vc ter uma ideia. Aos 18 anos pude sair de casa, com uma mão na frente e outra atrás, e morando no Crusp, na maior pobreza.

Fui despejada, já com filhos, por não conseguir pagar aluguel. Aliás, com 21 anos eu tinha 2 filhas e nem casadda era, e nem sou.
Enxoval é algo qque nunca tive.

Fui abolida da minha família, e passei décadas sem vê-los. Bem, não vou continuar não, pq não era isso que queria dizer com o post.

Queria dizer, que embora eu tenha feito uma opção bem clara pela pobreza, coisa que apenas ricos podem fazer, mais tarde percebi que a educação que tive e a época em que vivi, me foram favoráveis.

Ninguém precisa da minha culpa mesmo, nem eu, mas vou na linha do grande filósofo Marcuse, e sei, que tenho algo a dar pra essa humanidade. E esse algo é meu exemplo.

OIbrigada Tânia por ter me contado sua história, me acrescentou, me alegrou e te admiro por isso.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Lua Nova
as palavras são tentadoras, e muitas vezes fugidias. Sim talvez essa culpa gere consciência. E aí sim, escolher com nosso livre arbítrio, o que faremos então, de posse dessa consciênca.

Sim, podemos fazer diferença mesmo, e nem temos essa noção, ainda bem.... mas nossos atos repercutem mesmo.

Muito obrigada por me ler, por comentar, por se dar ao trabalho de ler meu coração. Sou especial sim, assim como vc o é, e a cada dia tenho que manter essa especialidade, pensando nas escolhas, pensando nas consequências... pensando com o coração na repercussão da minha vida.

Lua Nova, continue essa pessoas especial que vc mostra ser.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Sylvio
que a gente possa mesmo continuar juntos, pensando, refletindo, sendo espelhos, mantendo integridades e diferenças...... e amor!

Sylvio de Alencar. disse...

Num sabia que vc tinha passado por tantas agruras...!
Rolou uma notícia (a muiiito tempo), que alguém se jogou lá de cima no Crusp... Aliás, o que rolava de histórias de lá dava pra encher um livro.

Que possamos sim!
Amém!

Abrçs!

miudinho assim disse...

Lindo, Wall. Sua escrita e seus conflitos me comovem. Tocam de jeito a lembrar e encarar os meus. Por isso inspiram. Bj grande. Gui


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