.

.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Dois pesos... Maria Rita Kehl

 .
.
Maria Rita Kehl - O Estado de S.Paulo
 - texto escrito pela colunista, motivo de sua demissão do Jornal ESP

Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas.
O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.
Se o povão das chamadas classes D e E - os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil - tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.
Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por "uma prima" do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.
Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da "esmolinha" é político e revela consciência de classe recém-a dquirida.

O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de "acumulação primitiv a de democracia".

Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.
Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.
.

26 comentários:

Jorge Manuel Brasil Mesquita disse...

A discussão que por aí grassa, em relação à Bolsa-Família, é praticamente, a que se gera no interior de certos partidos de direita com o nosso Rendimento Mínimo de Inserção Social. Valoriza-se a vigarice e subestima-se o seu papel de valorização social entre os que pouco ou nada têm para sobreviver. A discussão é pura casmurrice do irracionalismo.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Lisboa, 15/10/2010

ROBERTO disse...

Pois é, pois é. Aí neguim vem falar comigo que o GOVERNO LULA é que cerceia as liberdades...

Wal Marques disse...

Uau!Que belo texto!
Força o suficiente para descortinar a realidade...ponto para essa moça,que diz o que pensa e o que milhões de brasileiros gostariam de gritar!!!

Adorei seu Blog,me senti super bem por aqui...entrei aqui atraída pelo seu nome...lembrei que meu pai,queria porque queria, que o meu nome tivesse um "y".....mas mamãe não deixou...minha mente foi tão longe agora...rsrsrs

Ja estou seguindo vc,se tiver um tempo venha conhecer o Donna Wal e se gostar siga também vou adorar!!

Bjs. de uma "outra" Walkiria.

lucidreira disse...

Parabeniso ao autor e a o blog por publicar este artigo tão corajoso e relevante, falando o que os mais esclarecidos leitores desta página desabafem e sinta-se a vontade de opinar sobre o assunto.
Abraço

Gi Freire disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gi Freire disse...

Walzinha
Tem prenda pra vc no Vastas!
feliz aniversário minha linda!
Gi

Blog do Mensageiro disse...

Wal:
1. Parabéns a você, nesta data querida.
2. Muitas felicidades, muitos anos de vida.
3. O mesmo veículo que se vê impedido de divulgar informações sobre a operação Boi Barrica, limitado pela censura, indiretamente a impõe á sua colaboradora...
4. E pra wal nada! Tudo!

sam rock disse...

La nube que trae un viento,
las palabras que traen pena,
otras palabras las limpian,
otro viento se la lleva.

Feliz fin de semana, un abrazo, Walkyria.

Sylvio de Alencar. disse...

Anteontem, comecei uma 'viagem' pelo blog do paulo Henrique Amorim, e fui longe: passando de notícia em notícia, de link em link, blogs, opniões, todas olhando a eleição pelo lado do governo atual, como essa articulista acima; fui longe, me informei sobre assuntos que não se falam muito, sobre as jogadas do Serra e seu partido, sobre o Paulo Preto, o pensamento de Serra quanto a efetividade do Merco Sul, e as conseqüências perniciosas deste olhar; as greves, a segurança, a Saúde, as vendas de estatais lucrativas, a míope visão neo-liberal, que como o comunismo, nem é mais válida.
Enfins, dei um longo bordejo por lugares em que pessoas como eu são viceralmte contra o Serra e o que ele representa.


Com isso, cara amiga, quero lhe mostrar que, por ignorância, eu não me perco; mas, por falta de opção, talvez eu 'erre'.

Deixando este assunto para lá (com certa 'naturalidade'), expresso aqui, carinhosamente, meus amorosos votos de um Feliz Aniversário. Que essa alegria de estar-se presente encontre eco em nossos corações e sentimentos, sempre; por todos os séculos dos séculos!
Amém!

sam rock disse...

Help, Walkyria.

coquesoto@mundo-r.com

Gerana Damulakis disse...

Feliz aniversário! Podemos comemorar em novembro, com um mês apenas de atraso? Bjos mil e felicidades!

alam disse...

querida wall
feliz aniversário
grato pelo carinhoso emal
estou devendo retorno, mas ainda não me sindo suficientemente recarregado para tal
foram 2 meses intensos
bjs
alam

betina moraes disse...

wal, meu amor...

ontem eu estava com um problemão... engraçado como é a vida. eu disse para a minha filha mais velha (ela lê o seu blog comigo e ADORA!) no dia 14 que no dia 16 é o seu aniversário... ontem, enquanto eu estava presa na minha impossibilidade de vir lhe dar todo o afeto que desejo, minha filha olhou para a minha cara uma hora e disse: pior é que você não vai poder desejar feliz aniversário para a wal, né, mãe?

eu te amo, com ou sem aniversário, mas no se aniversário eu te amo mais!

um beijo, com toda a força de um abraço de irmã.
















Manuel disse...

Como tenho dito, em politica não meto o bedelho.
Vós que sabeis bem o que querem serão os únicos que devem opinar, discutir e decidir.
Que o façam bem.
Um beijo

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Jorge
como é de seu feitio, pegou o post, espremeu e disse o cerne da coisa. pura discussão, perda de tempo de quam não preza a vida humana.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Roberto
meu, tô tão de saco cheio dessa gente....

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Wallllll
já tô na tua cola. Adorei as dicas do teu blog!

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Lu
vc não sabe o quanto fico feliz quando encontro gentefina e inteligente, que sabe ler a história. Vc ésempre bem vindo, sempre

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

André....
obrigada pelo parabéns. Vou fingir que não vi o adendo, interferência na música...hehehe

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Roque
nessas nuvens passam também meu carinho e amizade por você.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Sylvius

vs sempr me impressiona. Sua vontade de saber, sua humildade, sua coragem.... adoro vc.
E obrigada
amém

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Geraninha....
já estamos comemorando....um mês antes.
Ai, delícia!

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Alam
sei como é isso.

Tome seu tempo, amigo querido!

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

BB
te respondi no versos e ideias....
mas queria saber o que houve com vc.
beijos
minha amadona

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Manuel...nem em time de futebol!
beijo grande

Sylvio de Alencar. disse...

Já li duas vezes este texto...

A resposta que mandei ao amigo que me enviou, foi longa; muito longa para ser posta aqui, de certa forma.

Legal o que ela escreveu, uma idéia isenta, limpa de resquício pluripartidário, eu diria que foi como uma aula.
Inteligente essa moça.


voltar pro céu