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domingo, 12 de junho de 2011

Paraíso, livre arbítrio e suicídio

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Tenho sim!
Tenho muito. Tenho todo apreço, afinidade, cumplicidade, admiração e orgulho até, eu diria, dos suicidas.

Mas vamos começar do começo, atitude louvável quando o meio se apresenta tão distorcido, inconcebível e pouco aceitável, como é a vida de todo mortal nessa Terra.

Quando Adão e Eva -que já deu pra notar, estão na minha mira, há algum tempo-, estavam ali no paraíso, a vida era uma beleza. Mas como era essa vida? Peixinhos, passarinhos, frutos diversos, verduras, água cristalina, natureza em abundância. Tudo era permitido, tudo era festa geral 24 horas por dia, isso claro, se pensarmos que eles eram escravos do tempo. 

Oquei, então não, tudo era alegria por toda eternidade. Ou seja, dois neguinhos soltos na selva num total desprendimento, inclusive do tempo. E o Senhor de tudo aquilo, Deus, Criador e todo Poderoso, como todo senhor que se preza, tinha uma lei, claro, tinha que ter, senão não era senhor. A lei era: não comer determinado fruto.

Pensem comigo: Se tudo era festa, porque então Deus inventou essa história pra ferrar a liberdade do casal? Vamos combinar que eles nem sabiam que eram diferentes, nem se tocavam ou se viam.

Um dia, pra história seguir seu curso, sim, porque essa festa toda não tinha o menor sentido, veio a cobra, também criada pelo Deus Todo Poderoso, porque em nenhum lugar está dito que ela chegou de mansinho de outra parte do universo, com documento falso e malandragem. Bem, sem mais delongas chegou a cobra e disse pra Eva comer a fruta e dar pro Adão também, pra não bancar a mesquinha logo de cara. Eva, aceitou no ato. Mas gentefina, que poderíamos esperar de uma costelinha? A Eva era uma tonta, e Adão também não ficava atrás e me pergunto, o que eles faziam o dia todo no paraíso.... 

Bem, mas vá lá. Os dois comeram a pobre da maçã, que é considerada erroneamente, se a gente for pensar ao pé da letra, a fruta mais nobre em termos de saúde pra nós, a parentalha dos expulsos. Vai daí que, subitamente perceberam que eram diferentes e fizeram aquilo que metade da humanidade faz e a outra quer fazer: transaram.

Me pergunto, a essa altura da história: então antes eles não faziam sexo? E como, pelamordedeus, O Todo Poderoso pensava em construir a humanidade? Ou Adão e Eva eram apenas um luxo, um brinquedinho, ou ainda, indo mais longe, uma aposta que Deus havia feito com Lúcifer que, segundo consta, anjo predileto de Deus, opôs-se firmemente à criação dessa espécie?


Oquei, mas para não perder o fio da meada, o casal desavergonhado foi expulso. Lá, no portão do paraíso Deus disse que eles seriam condenados a viver uma vida com limite de fábrica, que teriam que plantar e colher seu alimento, que ficariam doentes, e que Eva, por sua lascívia, pouca vergonha, assanhamento e outros impropérios recém criados no momento pelo Locatário Ensandecido, geraria filhos que pariria com dor. Tá lá gentefina, letrinha por letrinha no Gênesis.

Ora pois, como até os portugueses diriam, então antes a Eva não geraria filhos e o casal, que só se tocou, literalmente, após comer o fruto proibido, não era afeito a sexo e por conseguinte seriam eternamente sozinhos no paraíso, aquele de passarinhos, frutas, regatos….???

E assim foi. Foram expulsos, Adão e Eva, possivelmente prenha, vestidos e com vergonha de suas partes íntimas recém descobertas e deram de cara com o quê? Passarinhos, cachoeiras, rios, frutas, animais…..
Não sei, mas algo me parece estranho nessa mudança de perspectiva. A única coisa nova era não serem mais servidos por anjos e querubins (tinha escravo no paraíso?) poder transar à vontade, se reproduzir e ter, finalmente, o tal do livre arbítrio. Porque no paraíso, com apenas uma restrição – pelo que se saiba- eles eram dominados. Meia mentira, meia punição, meia injustiça, ah, vocês sabem, já conta como coisa inteira.

Assim, podemos deduzir, que o livre arbítrio, dom supremo e sublime da raça humana, foi um castigo. Ou foi e é, uma graça instrasferível, ou é uma desgraça. Não tem meio termo aqui.

Fica óbvio que essa história era uma parábola, uma metáfora, pra não dizer uma piada, não tem nada de lógico a não ser o fato de que a desobediência dos nosso ancestrais nos valeu o livre arbítrio.
Sigamos….

Qual o maior bem que temos senão a vida? E quem nos dá a vida? Deus? Não senhores, Deus não era a fins da reprodução, como vimos até aqui, e como ficou comprovado com a expulsão da dupla non grata. Mas como, ai Jesus, como Deus queria criar uma raça…. Por osmose? É, pode ser né, não duvido de nada mais. 

Ou será que Deus queria criar uma raça seguindo o dogma da virgindade de Maria, que acredito, diga-se de passagem, que gerou outro ser em estado de consciência alterado, ou seja, não participou do ato carnal, não viu nada acontecer. Ela e José eram iniciados eram Essênios, e coisa e tal. Mas não pode ser, isso só aconteceria mais tarde, quando Deus amoleceria um pouco e mandaria pra Terra seu Filho, pra bagunçar mais ainda a humanidade, mudando de cabo a rabo, metade das leis que ele levou alguns séculos para perceber que eram um pouco castradoras e desumanas. Oquei que tem um pedação da humanidade que ainda segue essas leis e que nem acredita que Jesus era Filho do Deus arrependido. Viche, tem que seguir bem atento tudo isso pra não se perder e virar Testemunha de Jeová, ou outra quebrada que a história propicia de montão.

Na falta de conhecimento do que Deus queria com aquele Neverland, o fato é que não deu certo e ele atacou de Laos Cambodja com toda sua fúria, que não era pouca naquela época, basta dar uma folheada no Velho Testamento.

Logo, o livre arbítrio veio assim como um prêmio de consolação, e agora, de novo, pergunto? Quem nos deu a vida? Papis e mamis. Deus deu a possibilidade disso acontecer no momento em que criou a cobra e a maçã, e Adão e Eva. Ele tinha lá suas dúvidas mesmo, e ficou muito decepcionado. Rogou tudo que foi praga no pobre do casal. Mas eles ganharam suas próprias vida, suas escolhas, a dor e a delícia de serem o que eram, e sobretudo, numa vida com tempo indeterminado, eles podiam então dar cabo dela, a hora que bem quisessem. Eles descobriram que eram seres humanos, plenos, conscientes, aptos, com suas particularidades e vivências, que os faziam únicos.

Demorou, mas expliquei porque tenho admiração pelos suicidas. Me parece eles têm o entendimento absoluto do que é o livre arbítrio. Tem coisa mais louca do que poder decidir TUDO, mas tudo mesmo na vida, mas não poder decidir se continuamos ou partimos desta, sabe-se lá pra onde?
Não gentefina, é outro paradoxo maçãzistico. Pode tudo tá, só não pode se matar.


Ninguém das altas esferas disse isso aqui pra galera do porão. Foi invenção de alguém ali nos primórdios da humanidade, e pasmem, de um lado dos primórdios, porque para a maioria dos orientais, ignorantes - ah, pobrezinhos – dos ditames ocidentais, o suicídio inclusive, pode ser muito pomposo e aclamado, transformando um cidadão corrupto, em exemplo de contrição.

 Então, era isso que eu queria dizer hoje.

Quando aguentamos dores, humilhações, injustiças, privações, tragédias de todo tipo, tamanho e qualidade, ainda nos é permitido a morte. Tem que ser. O livre arbítrio é soberanos pra tudo, ou não é livre arbítrio porra nenhuma e temos que rever tudo, mas tudo mesmo nessa droga de lugar que, começa onde finda o paraíso.

Abreviar a própria vida, é a coroação da nossa vontade, da nossa dignidade, ou somos um bando de idiotas, esperando viver em outro lugar, o que não vivemos aqui.

Toda essa história de Gênesis, de pecado original, de castidade, não me convence não. Se houve algum plano, ele é mais que isso.
Porque peraí: se os Deuses queriam saber como era viver esse mundo material, já não deu não? O plano deve ser outro, e sinceramente, ao diabo com o plano. Quero apenas poder exercer meu livre arbítrio, já que foi a única herança, embora maldita, que meus ancestrais me legaram. E esse livre arbítrio serve para que eu decida, soberanamente, o dia da minha morte.

Mas, entrementes, quero viver muita coisa ainda, se o tempo e a raça que me rodeia, assim me permitirem.

Mas minha cabeça fica assim, pensando nas incongruências da vida, as minhas, das pessoas, e sobretudo, do tipo de conselho que sou obrigada a ouvir quando acho tudo isso uma grande bosta.

24 comentários:

CAIS DO ORIENTE disse...

Wal linda!!!
Belo texto! Uma viagem pela criação do mundo, livre arbítrio, liberdade no paraíso...enfim ...VIDA !
Muitoooooo bom!!!
Vc se supera sempre, até na colocação sobre o suicídio...rs
Beijos grandes !
Nádia

Beatriz disse...

sua inquietação questionadora pulsa tão forte, que o suicídio não lhe caberia por simples exercício do seu
livre-arbítrio.
adoro mesmo é seu livre-pensar.

tá melhor, amora?

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Nadia

vc parece passarinho, coisinha fugidia e brilhante, que passa e deixa um perfume, um rantro, uma coisa boa no ar.
Obrigada por me ler, por toda paciência....

Walkyria Rennó Suleiman disse...

A Batriz...ehhehe

véi, eu morro todo dia um pouquinho, como todo mundo. Tem dias que morro mais.
Tô é pior, se isso fosse possível.

mas sigo matutando, mesmo doente.
blikos véi querida

Barbara disse...

Não tenho a menor condição de responder a isto - sèriamente, não.

Só sei que odeio o livre arbítrio.

E os simbolismos - Amazona, pergunte a um rabino, porque as igrejas cristãs não nos ensinam nada do que está por trás destes simbolismos.

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Bárbara,
Entendo o que vc diz. Eu tbm odeio o livre arbítrio, muitas vezes. Principalmente quando ele me confronta e eu, sinceramente, não sei o que quero.

Saber que vc acha que eu sou capaz de superar conflitos desse tipo dentro de mim, sei lá, sabe, parece me fortalecer. É sua força sempre presente.
Obrigada.

sam rock disse...

La desesperación de hundirse hasta tocar fondo, tiene su contrapartida cuando guardas aire en tus pulmones y asciendes veloz hacia la vida, hacia la alegría de ver la luz del sol, la luna o las estrellas. La alegría de nadar hacia la orilla para poder sentir bajo tus pies la solidez de la tierra. Nuestras experiencias nos pertenecen para bien o para mal, no se compran en los mercadillos de la vida.

Un abrazo

guru martins disse...

...vá meu bem
e boa viagem!!!

bj

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Roque

sempre me emocionam as suas respostas. Essa sua capacidade de ir além, de fazer teu o sentimento e traduzi-lo de forma única, vinda diretamente de teu coração.

Devo dizer que, além de tudo, você sempre abre janelas e portas na minha alma.

Walkyria Rennó Suleiman disse...

guru

ah, agora que vc deixou.....ehehhe, ficou mais fácil ir, ou ficar, ou qualquer coisa.

R.B.Côvo disse...

Estou participando de um concurso literário e preciso de votos. É simples. Se você tiver facebook entre na sua conta e acesse este link:
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Daí é só logar na página do lado direito no topo "login with facebook" e votar no botão vermelho abaixo da foto. Para ir ao texto vai na categoria escrita, na segunda página. O texto é M. de Ricardo Barbosa.

Conto com sua ajuda!

Pode votar todos os dias até o final de julho, você também concorre a prêmios.

Obrigado!

Artes e escritas disse...

Sinceramente não é o tema preferido do meu piloto de avião. Ele tem que me levar bem direitinho...Pilotos deprimidos pedem férias para tratamento de saúde, um dos maiores problemas dos aeronautas é a depressão. Um abraço, Yayá.

Manuel disse...

Cara Princesa, este escrito foi dos melhores que tenho lido por este mundo da Blogoesfera.
Magnifica a forma como, pegando numa história que nos foram contando ao longo dos tempos, consegue levar-nos enlevados em conceitos e, ao mesmo tempo, com muito humor consegue deixar uma mensagem muito importante.
Como sempre, ADOREI.

Tania regina Contreiras disse...

Enfim, alguém me surpreende assim. Wal, pra encurtar conversa, também penso assim. Livre arbítrio é livre arbítrio. Ou é ou não é. Tudo bem que às vezes ele asfixia e chego a pensar que seria mais livre sendo menos livre, mas...sei lá, entende??? :-)
Verdade é que sempre entendi os suicidas.
AMEI o texto...
Beijos,

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Tania...
tbm me surpreendi quando consegui deixar bem claro pra minha mente, aquilo que era claro no emocional.

Meu pai dizia que um hopmem livre tinha duas camisas. Uma limpa, outra lavando. Ou seja, a gama de opções que podemos ter, de certo modo,tira a liberdade. Ainda não sei explicar bem isso....mas vc me entende.

De novo, tenho que dizer, que vc acompanha minha vida, vc e outras pessoas queridas. faz muita diferença.
obrigada

Walkyria Rennó Suleiman disse...

R.B.COVO
ok, pode fazer propaganda sua no meu blog, eu deixo.

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Yayá...
vc tem razão, pilotos deprimidos não sabem conduzir um avião.
Mas não tyô deprimida não, ou sempre estou, sei lá, estou apenas pensando, querendo fundamentar coisas que me ensinaram, procuram entender o que penso mesmo, e não o que me fizeram pensar.

Mas sim.....mesmo assim, seu piloto vem me visitar, e isso é uma alegria!

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Manuel...
olha minha carimnha de contente...
fez parecer um texto e tanto, e talvez até seja ne'....
sei lá, o importante, como disse pra Tânia, é ter vcs me acompanhando nesse caminho.

Diego Marques disse...

Wal que saudades!
Depois de te lido seu texto passei a te admirar ainda mais! É cômico e realista!

Na bíblia existem muitas incongruências, por essas e outras não sou cristão!


bjos

Marcantonio disse...

Bem, partindo do mito do paraíso, é até natural a proibição ao suicídio, impede-se assim a fuga da colônia penal. Rs. Mas, desconfio que as coisas se passaram diferente: faz sentido alguém cumprir pena sem ter tido alguma culpa? Foi assim que o homem, estando na pior, tratou de inventar Deus, o Paraíso, a culpa e a expiação que garantia um retorno ao Paraíso. E um tal exercício de fé não suportaria deserções subversivas capazes de enfraquecer o ânimo geral: "Como assim? Você não vai esperar o retorno ao paraíso? Vai deixar a gente aqui com cara de tacho? Nada disso, senta aí, toma mais um trago comigo, bebe aí rapaz! É tão chato beber sozinho..."

Sério: só não concordo que o Ocidente leve a culpa por isso, afinal trata-se de coisa da cultura judaico-cristã que não se iniciou propriamente no ocidente, né? Pensemos em Ajax que se suicidou ao se sentir desonrado por não receber as armas de Aquiles, em Sócrates, etc. O próprio Aristóteles dizia não compreender como a maioria dos homens podia considerar a vida um bem em si mesmo, independente das condições terríveis de existência. Não é não?

Um beijo, Wal

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Diego, my boy

eu sou muito da cristã....
mas olha sou palhaça e penso muito, e nenhum dogma pode me deter....
saudade de vc

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Marcantonioooooo

vc é impagável. Sei, sei, mas olha, o suicídio antes da IGREJA, era considerado um bem, uma propriedade e muitas vezes uma forma de recuperar a honra, assim como vc colocou muito bem. O suicídio sem permissão, esse é o do paraíso inventado. Como sempre, va vai, volta e vai mais além.
Obrigada pela presença

Anônimo disse...

Lívre Arbítrio, é a capacidade que qualquer pessoa em construir o mundo que deseja e viver nele do jeito que quer... Por outro lado, pode perder o livre arbítrio para o próprio mundo que criou, ser escravo dele e não enxergar outra cosia além dele.

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Anônimo

Vc despertou um lance, entrei em outras dimensões de mim mesma. Ser livre para escolher, e se aprisionar na escolha.

Ok que eu já havia percebido o quanto sou escrava de mim mesma. Mas esse lik, que foi uma escolha em libredade que agora me aprisiona, é demais, é até libertador.

Não sei bem o que farei com essa informação, mas vc sabe que, isso muda algo, me coloca a pensar e a me ver mais de perto.
Obrigada.....


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