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terça-feira, 2 de agosto de 2011

Tem Que, Tem Que, Tem Que

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Conhecem aquela passagem de Bridget Jones, em que ela acorda no domingo e pensa que é a única mulher no mundo que acorda sozinha na cama?
Pois é, eu acordo sozinha, não vejo nenhum problema e este não é o mot deste post, mas é uma dica.

O que realmente é estar fazendo algo, estar dando sentido às nossas vidas, estar participando, seguindo seu destino, realizando sua missão e, outros imperativos que ouvimos de montão desde pequenos?

Porque será que temos que realizar algo? Onde está escrito, onde foi proferida esta maldição? Taqueipariu, como diz o Roberto, que perseguição….

Tenho vontade de fazer nada, nada mesmo, ficar deitada, ouvindo os sons da rua, sentindo a segurança e carinho da casa que criei pra mim. Mas não, isso não pode ser. Tenho que sair, que ir às festas, bares, apresentações, vernissages, e em mais duzentos outros lugares em que as pessoas que estão bem, comumente vão arrastadas pelo imperativo capitalista da diversão.

Ah, e vem gente querendo colocar tristeza e melancolia no meu fazer nada. E o pior, é que eu acredito. Fico contaminada, fico tentando achar a razão de eu não querer ser igual a todo mundo e viver na rua. Fico me culpando, sentindo que estou desperdiçando minha vida.

Tenho que fazer um malabarismo mental, tipo pensar que se eu estivesse lá no Alasca e estivesse acontecendo a maior nevasca, ah, delícia, podia ficar em casa sem que ninguém, inclusive eu mesma, me culpasse de não quere sair de casa. Mas nasci num país tropical, tenho que tomar sol, passear na cidade, andar nos parques, tomar sorvete, malhar, ai que tortura tropical meu Deus.

O duro de tudo isso é que acabamos por acreditar que existe algo de errado na gente. E toca a inventar depressão, solidão, incompreensão, genética e psicanálise.

Perguntas que nunca nos fizemos em sã consciência, assomam nosso palácio de sossego. Querida, você tem que arrumar um namorado, tem que ter algum projeto, tem que se ocupar….. tem que, tem que…. Tem que! Detesto essa formulação que me tolhe, que me reduz a um monte de obrigações e me colocam ao rés do chão, tendo que ser e sentir tudo igual a todo mundo.

Quando vejo gente como a Amy, ou a Janis, gente que tinha uma vocação, um objetivo, gente que fazia algo, se matar assim, deixar a vida, tenho certeza de que o buraco é mais em baixo. E quero que ninguém venha espiar no meu buraco, tentando me ver lá dentro e diagnosticar minha alma.

Tem época da vida, em que precisamos desesperadamente nos ocupar, precisamos sair de casa, queremos nossa própria vida, não temos tempo de pensar em nada a não ser sobreviver. Mas tem épocas também, que podemos parar e pensar sinceramente se fazer algo demanda mesmo tanto esforço e tanta negação.

Me parece que só quem anda por aí, com fogo no rabo, cercada de compromissos e pessoas, está vivendo a vida. Quer dizer, não me parece, parece que é assim.

E eu fico pensando na égua, onde amarrei minha égua, onde foi que eu resolvi acreditar nessas máximas e perdi a ingenuidade do viver. Assim, como uma cachorro que dorme o dia todo, sem se preocupar se vai dormir à noite. Como uma criança que come quando tem fome, sem minhocar se vai ter fome na hora do jantar.

É, deve ter existido um tempo neste mundo, onde as pessoas não eram medidas com essa régua tão castradora e punitiva. Dever ter havido uma naturalidade maior, onde não éramos julgados por atos tão banais como estes, onde nosso jeito de ser não era um item na relação de doenças. Se esse tempo não existiu, ele vai existir, porque não pesamos em nada que não possa ser passível de acontecer. Não, não temos essa imaginação toda, tão solta.

E me sento na minha cama, observando as fotos nas paredes, os objetos do meu viver, as histórias…. Sinto a maciez dos meus lençóis, a ternura do meu travesseiro, ouço a música que vem finnnnnninha, pedindo passagem dentro do dia, que vem de algum tempo desta terra, e queria ficar assim, neste momento suspenso na eternidade, onde apenas sou, onde não faço porra nenhuma. E isso basta!

fotos: Sleep__by_miken2kol4u
e sleep_by_MadzZ
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36 comentários:

Paulo Francisco disse...

Num dia nublado como este, fazer porra nenhuma é tudo de bom.
Hoje eu fiz... eu fiz o que queria, fiquei por aqui sem fazer porra nenhuma.
um beijo grande

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Paulo

que bom, fazer porra nenhuma, ser porra nenhuma, apenas viver....poxa, é pedir muito? Mas e a culpa?

ai, que bom mesmo que vc me acompanhou....ehhehehe!

Helcio Maia disse...

É, só não farei minhas as suas palavras, por ter algumas em estoque e precisando de uso. Como amante confesso do ócio incidental, que sempre me sussurrou coisas belíssimas, considero que não me imponho sequer criatividade, originalidade ou qualquer outro requisito aprisionador. "Ter que" soa muito mal aos meus ouvidos e abaixo deles também. A música (nem sempre fininha), a Lua, latidos vadios de cães, fatias de conversas alheias, farelos de pensamentos que se misturam aos restos de dias fatigantes, tudo isso horizontaliza meu ser, que se rende
ao dolce far niente, ciente de que será o mel da vida naquele momento.
Desobrigo os pés de caminhos que talvez eles não admirem, entrego à mente a semente do silêncio, para que dela se alimente.
Não preciso ser produtivo quando o que desejo produzir é simplesmente...paz! E sem testemunhas, sem reconhecimento de firma, sem couvert.

placco araujo disse...

Oi amiga querida... Eu sempre passo por aqui, mas nem sempre me sinto chamado a postar algo, daí procurar de-repente textos mais velhos, mas que me chamem..

Não procure muita lógica nos meus posts.. as vezes gosto de algo, pela força que tem, e o replico (como foi o caso de hoje, que aliás nem consegui localizar o nome da pessoa que postou)

Só não faço isto com seus posts, pois são tão densos e tão seus, que
não se encaixariam num texto meu..

Mas devo admitir que gosto muito quando passas por lá..

Um beijo grande...

CAIS DO ORIENTE disse...

PERFEITO, lindona!!!
Matou a charada!!
Não precisamos fazer NADA...isso mesmo, não fazer porra nenhuma é bom à beça!rs
Eu, também, faço muito isso, quer dizer nada faço...apesar de viver numa cidade que seduz, e que nos convida a sair, sempre.
Beijos grandes
Nádia

Alexandre Pereira Cruce disse...

Apenas sê...já e sempre, pouco tempo de pois, após o cafezinho ou deixe em seguida, após pedidos formulados em seus sonhos. Por necessidade sua. Elogios a preguiça!

Beijos

placco araujo disse...

Meninas... a escolha das palavras que usamos, é feita à nossa revelia, então acho muito sério esta ode à tal porra nenhuma...

No more sex in our life?

A Mina do cara! disse...

tem que, tem que, tem que, tem que... é assim mesmo...

olha, vou falar, não consigo ficar em casa, parado, sem fazer alguma coisa. meu sonho é pensar assim: ai que vontade de ficar quieto.

sou muito ativo, quase hiperativo mesmo...

beijo

Dino Costa disse...

O mundo ia ser muito chato se todos fôssemos iguais, fizéssemos as mesmas coisas, da mesma forma. Amei seu post. Vou facebooka-lo.

Dino Costa disse...

Mas "ter que" é paulistês em último grau...a forma casta é "ter de"...mas quem é que quer ser casto hoje em dia? ;-P Viva o paulistês.

Artes e escritas disse...

Domingo, tem que...nada. Descansar é bom também. Um abraço, Yayá.

Flávia Amaro disse...

Adorei o texto. Compartilho de sua opinião. Viva o ócio criativo e a possibilidade de desfrutá-lo sem peso na consciência. Abraços!

Por que você faz poema? disse...

Às vezes é o que basta, realmente.

E "São Paulo é como o mundo todo. No mundo, um grande amor perdi".

milu disse...

Meu Deus, falou e disse tudo!!!
Ultimamente este tem sido meu dilema
pessoal...temquetemquetemque...uma culpa que invade...
Só quero "IR PRA BEIRA DO MAR ESPERAR O SOL..OL..OL..LOLLL.."
Bjs.

guru martins disse...

...mas nada
te impede
faça
aliás não faça!

bj

C. disse...

Esse texto tá à la Martha Medeiros, achei perfeito!
Parece demodê mesmo gostar de se enclausurar no ócio, na cama, no quarto... A pergunta mágica é sempre "tá tudo bem?" "que tal uma análise?" PQP!
E o que nao é demodê é estar sempre com cara de feliz, mesmo que a primeira vista nossas máscaras apresentem as outras pessoas pessoas felizes. Mal sabem esses que nem sempre é possível mentir dor que se sente com sorrisos de falsa alegria.

Sylvio de Alencar. disse...

Talvez não nasçamos com esse carma, mas, enfiam ele guela abaixo da gente.

Desde criança ouvimos dizer os adultos que não aguentam mais em si: menino, vai fazer alguma coisa!!!!!! - que é que tu tá parado aí olhando pro nada!! - cabeça vazia é oficina do esquisito! - num vai ficar em casa não, vai com a gente!! - ô meu fío, que é que tu tem, tá tristinho? Vai dar uma passeada... - cumé que é meu, vai ficar aí sem fazer nada????.... E por aí vai.

Acabamos enfiando na cabeça que temos que ficar e ser como aqueles casais que dançavam 3 dias sem parar pra ganhar uns prêmios de merda, nos anos 50....: uns zumbis ambulantes desnorteados que não sabiam o porque de estarem ali.

Esse tipo de culpa, não tenho. Embora tenha que fazer algumas coisas que a maioria já fez, como me de dicar a alguma atividade de maneira séria, leve e amorosa. Mas, isso é outra história.

Realmente, vc tem uma escrita legal... Admiro muito quem tem esta capacidade. Percebo que, aqui no blogger, uns dez por cento a possuem; daí que, nestes casos, vamos lendo, lendo, lendo...; deslizando suavemente pelo texto.

AbraSô!!

PV: vallamo
Vall, amo!

Sylvio de Alencar. disse...

Peguei lá no Face..., agorinha!

"Oia sinhô.
Como se diz à moda do outro.
Vou te contar.
Se o sr acreditar.
Esse mundo ta virado.
...Fico asveis sentado.
Mas não to atoa não.
Fico vendo quem eu sô...
Sabe, sou forte como toro.
Só vô fazer um cigarrinho.
Mais oia sinhô, o sinhô é dotô.
Eu sei só de vê.
Mas vou te contar minha estória.
Porque fico aqui asveis sentado.
Eu tenho paz eu tenho tudo que tenho que deu pra pega.
É aqui que vejo que tenho a vida no céu.
Tomo meu gole, depois vou pra casa.
Descansa... quer ouvi minha estória?
Já vou te contá...

xupeta disse...

Ando bem avançado em materia de recusas. Este ano consegui faltar do meu aniversario.

Mas uma culpinha as vezes bate, afinal faço parte desta maquina.

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Helcio
olha isso "Desobrigo os pés de caminhos que talvez eles não admirem, entrego à mente a semente do silêncio, para que dela se alimente."

te invejo, minha mente está sempre lotada, preciso ficar inerte, sem fazer nada, na esperança que ela se cale.

Sempre uma mundo cada coment teu!
obrigada

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Placco
cada pessoa que tem a ver com a gente, nos dá presentes diferentes. Eu adoro ler o que vc escreve aqui e lá no teu blog. Às vezes te acho melancólico, e menino, tenho vontade de saber o que acomnteceu, vontade de te ouvir, sei lá.

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Nádia
uma linda e inteligente como vc, imagino a quantidade de convites que recebe. Mas sei, pelo que leio de vc, que vc gosta de ficar sozinha....

te gosto

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Mina do cara.....
sei, sei..... eu tbm sou hiperativa na mente.

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Dino....
é tem que, olha lá....
obrigada pela força e presença

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Yayá....
tô dum jeito que todo dia é domingo.....

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Fávia....
o ócio criativo, que linso isso.....mas aí vem o peso na consciência....será que me curo?

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Edney
que honra vc aqui......
queria um dia sentir que realmente algo basta.....

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Milu, Milu....
essa coisa de ir pra prais cantar....... sei não, pode ir contando!

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Guru
eu sou meu carrasco
e minha mente mimnha prisão

Walkyria Rennó Suleiman disse...

C
tá vendo, isso que eu chamo de campo morfogenético brabo

nunca vi esse texto da Martha, mas ela. como eu, falamos dessas coisas que incomodam muita gente.
Só acho 3 coisa diferentes: eu escrevo de graça, eu não sou boa moça, e me acho mais densa que ela....
hahaha.... deixa eu besteirar um pouco!
querida...as máscaras....nem sempre sabemos vesti-las, ainda bem!

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Sylvius.....
como vc é completo, como vc pensa tanto, mas em linha reta, sempre chegando aos finalmentes...

pois é vamo lá amor.....

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Xupeta
vc sempre me superando e se superando..... ai, imagino vc não indo ao seu niver.... te conheço. Junto com Angelita?

Amore..... a culpa é uma merda mesmo

Sylvio de Alencar. disse...

Estava pensando aqui comigo agora...: o que pensamos, não é o que somos... Né Wall? Talvez essa, seja a tragédia.

Bjs querida.

Sylvio de Alencar. disse...

Encontrar o caminho é fácil (ai, que vontade de colocar aspas!).
Tenho a impressão de que (depois de termos lido alguns livros específicos), podemos alcançar uma certa coerência. Mas...! Mas...!
O que faço, é simplificar as coisas na maneia de pensar, e no meu agir. O choro as vezes pasa perto (ou, está sempre por perto), mas não se expressa. A educação masculina obtera esta expressão.
Bem, o choro, o pensar simples, são apenas manifestações...
Abandonar o que estamos acostumados, o que nos apraz, o que está encardidamente entranhado na gente (a busca pelo prazer por exemplo), é tãão difícil! E são justamnte as coisas que desencadeiam a..., hummm, a infelicidade.
Isso que escrevi, são só palavras. Faço isso enquanto (não) sigo o caminho para me encontrar.

Abraços a vocêis.

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Nessa noite SYLVIUS...

lendo vc, me deu um frio na alma. A tua fala, verdadeira, sentida, chega em mim carregada de tudo que vc passou na tua vida. Que passamos....

meu querido, eu colocaria aspas em tudo, são pérolas!

Sylvio de Alencar. disse...

O que você nos fala, também é.

Bjs.


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