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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O MEU metro quadrado!


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O véio Ibrahim meu pai, foi sempre um sujeitinho tinhoso e engraçado. Não que ele quisesse fazer graças de modo proposital; não, nada disso gentefina. Era de sua natureza ser irritadiço, irônico e peculiar, tudo isso revestido de uma graça sem par.

Conto um causo para ilustrar. Eu devia ter entre 7 e 9 anos, e tínhamos uma fazenda em Barretos, terra natal do véio. A viagem era um verdadeiro rali, com inúmeras rodovias, estrada de terra, viscinais, e resumindo; eram 500 km que percorríamos em 24 horas ou mais, dependendo do clima e da vontade de Deus.

Isso porque íamos em 4 crianças, empregados, cachorros e o periquito do véio, meus avós e vários carros. Era uma caravana dos Suleimans. No carro da criançada – Aero Willys e Kombi -, a comida corria solta, pois meu avô não viajava sem matula.

Mas enfim, quando a gente finalmente chegava na fazenda, meu pai rolava do carro e se estirava no gramado diante da sede e olhava o céu, enquanto as mulheres e os serviçais tiravam a farta bagagem dos carros.

Nós, as quatro filhas, corríamos pra cima de nosso pai. Deitávamos a seu lado, brincávamos e brigávamos entre nós, pela melhor posição, fazendo daquele momento de paz do véio, um suplício - se bem que nessa época o véio Ibrahim não tinha nem 40 anos, era um gatão.

Numa dessas vezes, ele sentou-se no gramado, prá lá de nervoso, olhou bem pra nossa cara, colocou a mão em posição ameaçadora e gritou: Porra, caralho, com 400 alqueires nesta merda, vocês quatro querem ficar logo no meu metro quadrado?

É, meu pai sempre foi engraçado e querido por todos, menos por mim...srsrrs. Mas essa é outra história.

Contei isso pra ilustrar esse lance que as pessoas têm de querer ficar isoladas em seu metro quadrado, em suas bolhas.
Vi um documentário certa vez, que analisava justamente isso. Que quanto mais alta a classe social, menos contato as pessoas queriam com estranhos.
Claro né, quanto mais pobre você é, menor sua privacidade, não tem quarto próprio, às vezes até dorme na mesma cama com outros parentes, pega condução, entra em fila, esse tipo de coisa que vai brutalizando a sensibilidade, te deixando à vontade no empurra empurra da vida. Gentefina, é incrível isso. Num ônibus, as pessoas de classe mais baixa, não estão nem aí de ficarem encostadas ou praticamente em cima das outras. Mas enfim, não é este o ponto não.

O ponto é que eu percebo, para além desse documentário psico-socológico, que ninguém gosta de proximidade. Por exemplo: quem nunca esteve num consultório médico, ou numa sala de espera qualquer, e ao escolher um lugar, sentou-se numa cadeira vaga que não tivesse ninguém ao lado? Fala sério, gentefina, todo mundo dá preferência pros lugares sem vizinho. Até no cinema, quando a gente senta ao lado de alguém, e tem outro lugar vago, o cara fica meio puto, achando que, como o véio Ibrahim, com tanto lugar vago, o cara vem sentar justo perto de mim? porra caralho!

É, aí vem esse lance de dar abraço. Oquei, faz bem, alimenta a alma, aquece o coração, mas é um problema pra ligar esse mecanismo. Falo por mim, gentefina, travada da Silva Xavier, piso em ovos, de codorna, ao ser abraçada. Será que estou muito encostada, ai, tô respirando forte, tô com cheiro de cigarro... e agora, continuo abraçando ou já deu? Largo ou espero ser largada... e depois do abraço, quiqui eu faço?

Oquei, exagerei, mas no fundo tem sempre algum desses ingredientes no meu abraço. Claro que já dei abraço bom, calma gentefina, mas estou falando dos que não foram bons.

Não vou enrolar mais. Quero dizer que tem essa mágica linda no abraço e que, por conta do meu metro quadrado, eu perco. Tem um sensor que apita, dá choque e arrepia quando alguém entra no meu metro quadrado. Às vezes eu desligo o bicho e digo: amigo, amigo. Outras não acho o botão, e fica aquela confusão no meu sistema.

Ontem eu tive chance de dar um abraço bom. Um desavisado entrou no meu metro quadrado. Disparo ininterrupto, código vermelho, travamento automático de todas as portas..... perdi um abraço.... ô dó! Justo agora que meu abraçador mor, o Daniel, está tão longe.......

Sei que fui dormir mais tarde, e sonhei. No meu sonho, numa hora que não tinha nada com nada, um homem, que nem sei quem é, me deu um abraço. E eu senti.

Senti aquele conforto, ouvi meu coração bater, minha respiração se acalmou, meus olhos se fecharam, e eu vivi uma grande paz.

Acordei assim, muito abraçada. E garrei a pensar tudo isso que escrevi aqui.

É gentefina, num é fácil não......

Nas fotos, véio Ibrahim de ray ban, o abraço da Priscila e o abraço da Tânia, minhas irmãs nessa vida.

14 comentários:

Helcio Maia disse...

Sinta-se abraçada, menina! Em sonho, sim, mas abraço bom mesmo é aquele que faz a gente sonhar. Espero que o alarme dispare e que o coração não pare de bater.

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Hélcio
eu me senti abraçada por vc muitas vezes. Todos os seus comentários aqui me aquecem, de um modo incrível. É por essa razão, que não páro o blog, porque preciso destes abraços, seus e de algumas outras pessoas.
Obrigada sempre!

placco araujo disse...

Pois eu posso dizer que já cheguei a penetrar (se bem que o verbo aqui pode soar dúbio) este seu pequeno metro quadrado, e até onde sentí, não ouvi sirenes ou alarmes... mas talvez eu tenha adentrado e saído muito rapidamente e foi um leve beijo e não um abraço... Realmente, um abraço compromete mais...tem-se que de fato abrir a porteira (usando sua imagem rural). Eu não estou neste exato momento muito prolixo, mas gostaria de dizer que teve momentos neste periodo (que não me encontrei com você) que fiquei com vontade de lhe dar UM GRANDE ABRAÇO, e sinto que você desligaria os alarmes...pois na verdade era tudo o que você desejava naqueles momentos... UM SORRISO SINCERO, UM ABRAÇO...(tem música até...).

Um beijo grande gentefina...

Edson

Sonhadora disse...

Minha querida

Entrando no teu metro quadrado e deixando o meu abraço...em silêncio e levemente.

Sonhadora

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Edson
pois é verdade.... tudo que vc disse. Nosso 1º encontro no super, eu toda fechada, depois me senti tão bem.
Mas a verdade mais verdadeira, é que vc me deu muitos abraços aqui, e vc sabe. Aqui e no seu blog. Sabe, virtualmente é mais fácil receber. Porém, tem que ter muita verdade e força, virtualmente, pra chegar dentro da gente.
Ainda vamos dar esse abraço.

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Ah Sonhadora,
minha amiga do outro lado do oceano. Vc me abraçou tantas noites, tantas madrugadas. Até me emociono ao lembrar. Sou MUITO grata, muito mesmo. Fique bem, minha Linda Sonhadora.

Anônimo disse...

quanta humanidade
quanto desespero
quanto de espero
quanto de resquício
quanto de beleza
O "quantum" da física - desse você não escapou e foi abraçada no sonho ou seja, a energia que ficou trancada, alguém algo alguma coisa te ajudou a destrancar
num ato
corajoso e amoroso

ando vivendo numa bolha, querida e entendi tudo de coração e de desespero e de espero e de tudo que faz com que sejamos arautos da própria e pessoal miséria , própria e pessoal glória

você existe plena , amazona! até travada .

Barbara

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Bárbara
tá vendo, vc não pode se deixar, nem pode me deixar. Eu preciso de gente como vc, que sabe ler os outros, ler lá, na essência. Eu nem tinha percebido isso, que algo se destravou em mim. Que devo dar mais carinho a esse momento. Por favor.... não me deixe não.

Deixa que eu invada tua bolha, e por favor, invada a minha sempre!

Anônimo disse...

vamu brincá de bolhas.......
vamu brincá de bolhas........

Barbara

Walkyria Rennó Suleiman disse...

ahahahahha
Bárbara,

sempre me achei da turma dos bolhas...
vamos brincar de bolha, é seu lado sutil, criança, destemido e humorado que te segura.... que linda, no meio da tormenta, lembrando-se de brincar...
vem brincar, vem minha querida.

CEM PALAVRAS disse...

Wal,
Eu também não abro mão do meu metro quadrado. É uma maneira de controle que a gente tem sobre nós mesmas.
Quando estou a fim, eu abro a cerca do meu metro e deixo todo mundo entrar. Mas quando estou com a macaca...nem se aproxime. E quando você está numa tremenda paz com a mente flutuando e de repente... invadem o seu m². A gente não tem direito nem de ficar quieta???
Colo e abraço eu quero sempre. Ninguém precisa pedir licença. É só chegar perto de mim de braços abertos e eu me derreto toda. Mas foram muitos anos de treinamento para conseguir isso. Ainda bem que eu aprendi.
Muitos beijos

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Cem Palavras
de verdade?
esperava vc aqui....
porque como já te disse no teu blog encantador, suas palavras me ajudaram a ir pra cama e dormir, muitas noites.

E olha, pura generosidade, porque eu apareço no teu blog muito pouco. Aqui vc não vem retribuir, e isso é uma abraço maior que o universo, que engloba meu metro quadrado e o desfaz.

Não sei se tenho tempo ainda de fazer este treinamento. Não sei mesmo, mas admiro que vc tenha chegado nessse ponto, porque é uma luta se abrir, e é digno de grande respeito.
Minha flor, obrigada viu!

Tania regina Contreiras disse...

Wal, eu defendo meu metro quadrado com unhas e dentes... Escorpiniana do lombo amarelo, como diz uma senhora simples cuja filha é astróloga, e ela só sabe que os escorpiões de lombo amarelo são os piores...rs Verdade, minha amiga, é que também banalizaram muito o abraço. O que é o abraço? Dois chakras cardíacos se unindo, dois centros energéticos trocando vibrações. Eu só abraço alguém quando o coração permite, quando ele diz sim, porque, naquele momento é coração no coração, e é preciso ter certeza de que estamos permutando, trocando afetos em algum nível. Abraço é entrega. "Meu coração no seu coração". E, dito isso, deixo aqui o meu abraço! rs
Beijos,

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Ah Tania, Tania,Tania

isso tudo rolou e eu pensei, fui lá dentro de mim, na escuridão, guiada apenas pela vontade de me conhecer e o medo da descoberta.

Fiquei MUITO triste comigo, pq perdi o abraço. Aí, quando fui abraçada dormindo, foi como se Deus tivesse me dado um alento, porque ele é pai.

Ok, mas depois do que vc disse, e pelo fato de eu ter me movido, escrito isso e publicado, percebo que ali estava a dinâmica desconhecida, sim Tânia, o coração só fala ao coração.... Eu posso e sei abraçar.....
Obrigada Queridona!


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