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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

O Facebook está contra a alegria- por Evgeny Morozov

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Uma das ideias mais influentes e perigosas, e menos consideradas, a surgir neste final de ano no Vale do Silício é a de "compartilhamento sem fricção". Articulada por Mark Zuckerberg, o fundador do Facebook, em setembro, a ideia pode reformular a cultura da internet tal como a conhecemos -e não para melhor.

O princípio que embasa o "compartilhamento sem fricção" é enganosamente simples e atraente: em lugar de perguntar aos usuários se eles desejam compartilhar com os amigos seus produtos favoritos -os filmes a que assistem online, a música que ouvem, os livros e artigos que leem-, por que não registrar automaticamente todas as suas escolhas, livrá-los da tarefa de compartilhar essas informações e permitir que seus amigos descubram mais conteúdo interessante de forma automática? Se Zuckerberg conseguir o que quer, cada artigo que leiamos e cada canção que viermos a escutar seria automaticamente compartilhada com os outros -sem que tivéssemos nem de apertar aqueles irritantes botões de "curtir".

É precisamente isso que o Facebook deseja fazer com sua ideia de aplicativos sociais, que rastreiam tudo que uma pessoa consuma no site (e, nem seria preciso dizer, consumimos mais e mais informações sem sair do Facebook). Não é impensável que o Facebook em breve venha a desenvolver aplicativos capazes de rastrear também o que fazemos fora de seu site. E a essa altura, não estamos mais falando de uma questão de tecnologia, mas sim de uma questão de ideologia -fazer com que esse "compartilhamento sem fricção" pareça completamente normal, e até desejável.



Na verdade, já existe tecnologia que permite que o Facebook consiga o que quer. Algumas semanas atrás, o gigante das redes sociais foi forçado a admitir que estava mesmo rastreando as atividades online até mesmo de usuários que não estavam logados em seu site. (Imagine se um funcionário do supermercado mais próximo de sua casa o seguisse pela cidade em um carro equipado com câmeras, depois de você fazer compras por lá: é exatamente isso que o Facebook está fazendo.)

Mas o que significa o "compartilhamento sem fricção" para aqueles dentre nós que se preocupam com a qualidade da vida pública e o futuro da democracia? É claro que um motivo simples para resistir a um futuro no qual tudo que fazemos será registrado e compartilhado com outros é o medo de uma vigilância onipresente. O Vale do Silício conseguiu contornar com sucesso esse tipo de preocupação ao alegar que muitos usuários do Facebook não objetam ao "compartilhamento sem fricção" porque ninguém estaria interessado de verdade em que canções eles ouvem ou que livros estão lendo.

Verdade -mas essas alegações em geral subestimam a capacidade dos anunciantes, dos partidos políticos e das polícias secretas modernas de prever muitas outras coisas com base em curtas sequências de dados que parecem completamente inocentes. Existem muitas pesquisas acadêmicas que documentam o quanto é fácil prever a reputação sexual de uma pessoa por meio de uma análise de sua lista de amigos no Facebook.

Não seria difícil adivinhar seu nível de renda estudando os valores que gasta comprando música e vídeos online. E a raça também pode ser prevista -com base em estereótipos grotescos sobre preferências culturais das pessoas de uma dada raça com relação a música, filmes, livros e assim por diante. Estudar que artigos uma pessoa lê online pode ajudar a prever suas preferências políticas. Tudo isso somado cria um retrato singular e bastante preciso de um usuário. E, claro, ao contrário do que acontece com os bem protegidos arquivos policiais, essa informação estaria disponível para quem quer que deseje usá-la ou abusá-la.

Mas os problemas não se limitam à monitoração em larga escala. E se empresas que fazem negócios com o Facebook desenvolverem o hábito de usar os estereótipos surgidos dos dados que revelamos a elas a fim de nos enquadrar em suas estreitas categorias -por exemplo, "hipster de nível universitário que gosta de música indie e vota na esquerda"? Isso não seria tão terrível se essas empresas não utilizassem essas categorias para formatar ofertas personalizadas de conteúdo dirigidas a nós.

No entanto, devido ao "compartilhamento sem fricção", essas empresas terminam operando com aquilo que o jornalista tecnológico norte-americano Eli Pariser define como "má teoria de personalidade": elas partem de suposições incompletas sobre quem somos baseadas em livros, filmes e músicas que já consumimos, e tentam descobrir em que categoria pré-existente de marketing nos enquadramos, para nos fornecer conteúdo que outros usuários enquadrados na mesma categoria apreciam.

O perigo disso é bastante claro: nós, usuários de Internet, logo estaremos privados de espaço para crescimento intelectual, porque seremos bombardeados por links para material que provavelmente apreciaremos.

O "compartilhamento sem fricção" reduz o espaço aberto à provocação, à ousadia, ao desequilíbrio estético, e a Internet se tornará a pior paródia do Vale do Silício, onde todo mundo supostamente sorri e se sente "bacana" o tempo todo.

Mas existe algo de ainda mais repelente nessa ideia. O motivo para que compartilhemos links deliberadamente, na rede, é acreditarmos que esses links conduzam a conteúdo interessante, estimulante, divertido, perigoso ou horrivelmente ruim. Temos de fazer julgamentos sobre o que vimos, temos de avaliar -artigos, livros, canções. A maior parte dessas avaliações é rasa, claro, mas ainda assim nos forçam a exercitar nossa faculdade crítica, a operar como curadores -mesmo que para uma audiência formada por apenas 10 amigos.

Pode haver muitas razões para não gostar desse mundo de crítica democratizada. Muitos críticos profissionais se apressam a condenar as resenhas sucintas de livros disponíveis na Amazon pela perda de prestígio da crítica literária tradicional. Mas, ao menos da perspectiva de promover a cidadania, de ter mais gente envolvida com a cultura -em lugar de apenas consumindo silenciosamente aquilo que lhe é oferecido-, essa tendência sempre foi positiva.

No entanto, a ideologia do "compartilhamento sem fricção" quer promover um envolvimento muito diferente com a Internet, nos termos do qual os usuários não são imaginados como críticos prontos a discriminar entre tipos diferentes de conteúdo, mas sim como robôs sem alma cuja função única é consumir conteúdo e produzir gráficos, tendências e bancos de dados para que ainda mais conteúdo lhes possa ser vendido. Já não compartilharemos aquilo que gostamos de modo consciente; em lugar disso, o Facebook compartilhará tudo -bom, ruim, interessante ou chato- em nosso nome.

Claro, nossos amigos poderão continuar descobrindo sobre o que estamos lendo ou ouvindo -ainda que pareça pouco provável que alguém consiga acompanhar tantos fluxos de dados provenientes de tantas pessoas-, mas ninguém mais esperará que pronunciemos nossa opinião sobre as coisas. O importante não será nossa avaliação sobre um livro, canção ou filme específico, mas o fato de que tenhamos consumido esse conteúdo, que agora poderá ser usado para prever o nosso "tipo de personalidade", nos vender publicidade e, quem sabe, nos recomendar novos livros.

É hora de percebermos que o Facebook está eliminando a alegria, o caos e a natureza idiossincrática da Internet, e substituindo tudo isso por sorrisos artificiais, eficiência tediosa (e portanto "sem fricção") e uma interação abrangente mas branda e inane com a cultura. A menos que percebamos as consequências do "compartilhamento sem fricção", o futuro fácil e sem problemas que o Vale do Silício promete pode se provar desastroso para aqueles que desejam fomentar o pensamento crítico.
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Evgeny Morozov é pesquisador-visitante da Universidade Stanford e analista da New America Foundation. É autor de "The Net Delusion: The Dark Side of Internet Freedom" (A desilusão da rede: o lado sombrio da liberdade na internet). Tem artigos publicados em jornais e revistas como "The New York Times", "The Wall Street Journal", "The Financial Times" e "The Economist".. Lançará em 2012 o livro "Silicon Democracy" (A Democracia do Silício).
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20 comentários:

ROBERTO disse...

Concordo... o FB está deixando a internet uma merda só... mas ainda acredito que nem só de facebook vive a net e, além do quê, quanto mais a net fica uma merda, mais a gente volta a sair de casa.

Walkyria Rennó Suleiman disse...

ahahahhaha ROBERTO

verdade véi, verdade, e eu estou aprendendo um lance antigo, de novo. Se não posso vencer o barato, não me uno a ele não. Vou em silêncio usando o bicho a meu favor.
bjs Roberto, ai, adoro que vc venha aqui.

Marcantonio disse...

Excelente artigo! É isso mesmo.

A parte da má teoria da personalidade fala de algo que, na verdade,já vem de antes do advento do Facebook, claro, mas, de fato, ele pode levá-lo ao extremo; desconfio que não só por parte das empresas e do marketing, mas entre os próprios usuários.

Mas será que a gente consegue ser uma espécie de críticos infiltrados dentro do Facebook? Eu me sinto meio estúpido estando por lá, mesmo exercendo um papel irônico. Se essas previsões se concretizarem (e não é difícil imaginar isso pelo andar da carruagem - ah, as carruagens! rs) aquela porcaria vai virar algo similar à caverna do Platão, estaremos lidando com sombras projetadas somente. E quem vier de fora falando do mundo real vai ser estraçalhado, porra, porque o que deve ter de traseiros dormentes por aí não é brincadeira...

Sabe que sou tão desconfortável nesse estado de coisas que fico me imaginando uma espécie de Henry Thoreau daqui a um tempo, em relação à internet? Talvez no futuro, semelhante ao que as contradições ecológicas possam fazer em relação aos excessos do sistema de produção, essa desmedida do mundo virtual, leve à revalorização de algumas coisas essenciais que agora não parecem interessar mais.

Abraço.

Regina disse...

Facebook é uma chatice, entrei com esforço e fico para continuar tendo algum contato fácil com amigos (o icq já dava conta disso 15 anos atrás, mas quem manda é sempre o modismo). Vou ficar feliz qdo ele morrer.

eleonora marino duarte disse...

o "o futuro fácil e sem problemas que o Vale do Silício promete pode se provar desastroso para aqueles que desejam fomentar o pensamento crítico." é a parte que me toca de todo o texto, exatamente o que penso, o restante, o futuro, o presente, o face, o book, tudo isso é o que sempre será, a mesma coisa que vale para cada coisa de nossas vidas: cada um faz o que lhe cabe melhor. quem é superficial vai continuar sendo superficial com uma foto no face ou fazendo pose com um livro do Žižek!(que eu amo e que na minha opinião é o cara!) quem tiver alguma profundidade crítica vai se ferrar no face ou com o vizinho, pois é assim que é.
eu tenho usado o face como blog e tenho tido o mesmo que tive nos blogs que tenho, tem gente que lê o que escrevo por gostar do meu trabalho e continua assim via face, tem gente que nem sabe do que estou falando mas vai lá e chuta comentário bem genérico apenas para manter a coisa fluindo - lê-se coisa fluindo como: eu vou no teu blog se tu for no meu, mesma coisa para face, eu curto o que publicas se curtires o que publico. e assim vai a coisa maior que é, o ser humano é egoico!

o face é como o quintal da minha casa, eu planto a planta que eu quiser ver fazer a sombra.

beijos, wal... amada!!!

Anônimo disse...

Vou deslizando nessa coisa - do meu jeito - e estou do jeito que você colocou aí acima.
Não me uno - uso o negócio.

Barbara

obs: desde o cpf não temos privacidade alguma - o fb é só uma intensificação da coisa.
Mas ....estamos no mundo ainda - cirandemos então.

CEM PALAVRAS disse...

Wal,
Excelente postagem. Não foi a toa que desencantei com o facebook.
O que eu mais prezo na vida é a minha privacidade. Não abro mão disso.
No início eu achava legal, havia uma troca boa de informações e interesses. Reencontrei amigos que não via há anos e que moram distante. Depois que o pessoal do orkut foi migrando para o fb e este se popularizou, ficou uma mer...!
Mesmo só tendo adicionado amigos do mundo real, sei que estou exposta. Já penso em cair fora.
Muitos beijos

Adriano César Curado disse...

Minha amiga, você apresentou uma postagem forte mas realista.

Eu temo que um dia as pessoas não saiam mais de casa, que se vejam presas à Net, onde encontram amigos, fazem sexo, compras, passeios etc.

Li uma vez que não sabemos lidar ainda mentalmente com essas novas tecnologias e por isso criamos abusos e cometemos tantos erros. A crianças nascidas na era digital talvez saibam lidar bem com isso, mas nós não.

Linda sua postagem, meus parabéns e bom final de semana.

Beijos...!

dade amorim disse...

O artigo é muito bom, vê as coisas como estão pintando, sem que grande parte dos usuários do face se toque.
Tentei fazer como a Eleonora, usar como blog, mas sinto que o melhor é continuar nos blogs de verdade. Esse aliciamento de mercado me deixa ranzinza, não tenho paciência pra essas coisas. Sinto cheiro de paranoia quando entro no site, vejo pessoas tentando tirar proveito de outras e os donos da coisa tomarem conta dos associados como se fossem todos débeis mentais. Não dá pra abrir mão da capacidade de crítica para ser filhinho do feice, entregar cada vez mais a vida, tão curta, a interesses que não são os nossos.
Beijo, Walkiria, e parabéns pelo post.

Tania regina Contreiras disse...

Postagem forte, heim? Li e li todos os comentários e ainda me pergunto o que faço no FB.

Beijos,

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Marcantonio

eu gosto muito de ler seus pensamentos, eles são densos, ricos, prolixos, mas não perdem o ponto. Sim, tbm me sinto desconfortável de estar no face. Dá pra se ima ginar um Henry Thoreau mesmo. E então sim, reavaliaremos a criação.

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Cem Palavras
Expostos estamos logo ao nascer, mas podemos dar uma fechadinha na porta né....srrsrs.
bjão

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Regina
Cara, nós que tyemos ICQ de 4 dígitos....srsrrsrs. Pois é "miga" vou curtir a morte do Face.

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Adriano\
obrigada por vir e deixar tua impressão!
bjão

Walkyria Rennó Suleiman disse...

ßß
o quintal da minha cada é tão lindo........
é a minha cara, e não o meu face
bjos mana

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Dade
este é o ponto. Não dá pra usar alface como se fosse cenoura, e nem face como se fosse blog. O que dá nos nervos é estar aberta aos vícios e desvarios de toda paranóia. Legal Dade, vamos pelaí...

Walkyria Rennó Suleiman disse...

É Tania...
tô pensando tbm. Uso pra divulgar meu blog, e minhas fotos. Mas pra quem? e tem vez que fico lá presinha numa história, ou lendo coisa que me foi trazida de bandeja...sei não, numa dessas vou acabar consumindo a cabeça de algum santo, na bandeja...

Eliane F.C.Lima disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Eliane F.C.Lima disse...

Walkyria,
Como a amiga lá em cima,também acho o FaceBook muito chato. Uma baboseira. Bom mesmo é ler um texto como o postado aqui. Pois eu gosto é de textos e de gente inteligente, que sabe o que diz. E esse dado positivo a gente não pode negar à Internet.
Um 2012 cheio de paz.
Eliane F.C.Lima (Literatura em vida 2)

Pastelaria disse...

Um presente de Natal ou de Ano Novo... como quiserem!

A Pastelaria Studios Editora desenvolve , já há alguns meses, um trabalho que mistura poemas e textos com música original e fotos de autor .
A aceitação pela parte do público que nos visita ... tem sido excelente ! Pois no período de seis meses já temos cerca de
9000 visualizações, no nosso canal do Youtube

Cá vai a nossa proposta :

Até dia 1 de Janeiro de 2012 , sintam- se confortáveis , inspirem-se e escrevam !
Escrevam um texto , um poema , uma crónica ...o que lhes sair da alma .

Iremos escolher ( escolha difícil!!) , as três obras mais originais.

Como prémio realizaremos um Video para 3 trabalhos eleitos .

No início do ano , iremos organizar uma Antologia , com os textos, poemas e crónicas que nos chegarem ... e que sejam qualificados para edição.... Acreditamos na vossa qualidade!!

Transformamos as vossas obras em sonhos acordados !

envio das obras , por e mail ao cuidado de - Teresa Maria Queiroz
pastelariaestudios@gmail.com

Boas escritas ...inspiradas!!

As obras serão divulgadas , à medida que forem chegando, na página do Facebook da Pastelaria Studios Editora

https://www.facebook.com/pages/Pastelaria-Studios/131097843655617

saludos
abraços
Teresa Queiroz


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