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domingo, 14 de junho de 2015

Para que serve o Poupa Tempo - Por LUDWIG ZARCO

Apresento-lhes os Contos de figura ilustre, que convenci a revelar ao mundo, seus escritos meticulosos e precisos sobre a natureza, principalmente a humana, esse ser que tanto nos intriga e diverte.
Copio aqui, exatamente seu desejo de ficar anônimo, escrito com palavras simples e potentes.
Que assim seja.

"Walkyria, um pseudônimo que muito me agrada é “ LUDWIG ZARCO “. Este nome tem força extrema e exprime a um só tempo intensidade e defeitos que vejo em mim identificados. 

Mais do que isso não preciso revelar a você."



Para que serve o Poupa Tempo

          Já há algum tempo, ouço falar das vantagens do serviço Poupa Tempo, sem, entretanto, valer-me de tais serviços de interesse público. Tive agora o prazer de conhecê-lo de uma maneira um tanto quanto insólita e bastante inusitada. Aproveito para apresentar-me: Adolpho Lima, como sou conhecido no mundo forense, advogado e sócio majoritário da sociedade “ Faria Lima e Rebouças Advogados”,  estabelecida na Avenida Nove de Julho, no Itaim.
      
      Pessoa muito querida por quem já me apaixonei enésimas vezes, estava precisando de uma mãozinha     para pagar o licenciamento de seu carro, o mais rápido possível, situação que era de meu total desconhecimento. Ela eu conhecia bem : Patrícia Leal. Casualmente, encontrei-a , despertando em mim de novo uma emoção enlouquecedora. Acredito que nela também.  Ficamos horas a fio,  em pé , na estação Augusta do metrô,  conversando e relembrando o nosso maravilhoso passado e, entre um assunto e outro, contei-lhe que estava sem carteira de habilitação há vários meses. Ela lembrou-me então que conhecíamos um despachante comum, talhado na solução de casos como o meu. Mas não no dela.
      
      Daí me contou que havia sido parada por um policial militar, em um comando nas imediações do Estádio do Pacaembu , para verificação de documentos e teste de seu estado para direção de automóvel . Bêbada estava, segundo ela, mas não foi esta circunstância o alvo da autuação e apreensão de seus documentos.

      Havia se esquecido de efetuar o pagamento do licenciamento de seu veículo, possivelmente por ter outras prioridades no mês anterior de pagamento e não imaginava que a falta de licenciamento era motivo de apreensão de documentos. Disse-lhe então que, por sorte, não haviam apreendido também o seu carro, como se costuma fazer, ao que ela me respondeu: “ Graças a Deus, na hora, havia uma Juíza de Direito, criando o maior “barraco”, dando “carteirada” nos guardas e por isso o policial mandou que eu fosse embora o mais rápido possível, esquecendo-se do teste do bafômetro .”

      Perguntei-lhe então:  “ E por que você não procurou o despachante para resolver esse problema e efetuar o pagamento ? ”. Disse-me  que estava sem recursos e que o despachante havia pedido uma semana para liberação dos documentos, o que daria um custo  alto e demoraria muito. Quando tivesse dinheiro, iria ao Poupa Tempo, que solucionaria o caso no mesmo dia de sua ida.

      Ofereci então para ajudá-la, tendo ela, após  certa , mas pequena, resistência, aceitado minha ajuda. Combinamos de nos encontrar no dia seguinte para retirada do dinheiro em alguma agência do Banco Itaú e após, irmos ao Poupa Tempo, na antiga Praça Clóvis Bevilacqua ( alguns identificam o local como Praça da Sé  ). Depois disso, quem sabe, almoço com vinho e uma tarde a dois.

      Em razão de compromissos profissionais assumidos, enquanto ela aguardava meu telefonema, acabei por atrasar-me e só por volta das 13,00 horas fiz a ligação. O trânsito, nesse dia, estava caótico. Ela iria atrasar-se bastante para encontrar-me. Por isso, resolvi, até mesmo por sugestão dela e contrariando meus princípios e hábitos, ir ao Banco Itaú para saque do dinheiro. E lá, no Banco, Patrícia passaria com seu carro para pegar-me. Registre-se aqui que a quantia não era tão pequena e eu, à evidência, era  marinheiro de primeira viagem, no que tange a saques em quantia elevada. Escolhi , por comodidade,  a agência mais próxima de meu escritório, ou seja, na Avenida São Gabriel, onde meus funcionários de forma cotidiana efetuam os pagamentos de minhas contas pessoais ( como pai de quatro filhos, sou escravo dos carnês e dos boletos ), além das contas de  meu escritório de advocacia.

      Por não ser um “ habitué” de agências bancárias e também pela minha cabeleira branca e idade provecta, devo ter dado mil   bandeiras, enquanto estava na fila e depois no próprio caixa.  O funcionário do Banco pediu-me que recebesse o dinheiro, que não era pouco, num local interno da agência, para onde me dirigi. Qual não foi a minha surpresa, quando uma mulher, agente de segurança do Itaú, pediu-me que não saísse logo porque havia um motoqueiro na fila que inspirava desconfiança e que nunca havia sido visto naquela agência. Uns quinze minutos após, saí, encontrando-me no saguão da agência com Patrícia, que tinha ido a meu encontro. Ela  havia estacionado o carro no estacionamento ao lado  do Itaú . Nesse momento, veio a segurança  dizer que o “motoboy” havia saído da fila e ido embora. Patrícia disse-me que cruzou com tal motoqueiro, com cara de malandro, ao entrar na agência.      

     
Decidimos mesmo assim sair, pegarmos o carro no estacionamento ao lado do Banco e irmos logo ao Poupa Tempo porque já passava das 14,30 horas. Ao sair do estacionamento e ingressarmos na Avenida São Gabriel, vimos a uns 50 metros adiante o referido “motoboy” e uma motocicleta parada em frente a uma Padaria próxima -  que, diga-se de passagem, faz o melhor sanduíche de mortadela de São Paulo . Apesar de o carro em que nos encontrávamos ter vidro escuro , tão logo passamos em frente ao “motoboy”, ele montou na moto e veio em nossa direção. Seguimos pela São Gabriel e não viramos à direita na rua Itacema, como seria o mais lógico . Ele vinha nos seguindo. Resolvemos então entrar na rua Jesuíno Arruda . O rapaz da motocicleta, com capacete e traje de “motoboly” também entrou na Jesuíno Arruda, mantendo uma pequena distância de nós. Sua moto era preta, assim como sua vestimenta e capacete.  Pelo retrovisor  íamos observando o possível assaltante, que, ao que tudo indicava, estava esperando a oportunidade para abordar-nos, começando a correr a adrenalina em nossas veias. Embora apreensivos, estávamos vivenciando uma cena de aventura , em um pequeno trecho de ruas , em  nossas vidas . Com bastante emoção, embora num curto trajeto.

      No cruzamento com a rua  Renato Paes de Barros, decidimos parar em frente à Delegacia que ali está localizada. O  possível gatuno, por sua vez, virou à esquerda na própria Renato Paes de Barros, mas parou na esquina com o motor ligado, como vimos assim que descemos do carro. Entramos então num Posto de Atendimento da Polícia Militar, acoplado à Delegacia, e dissemos que havia uma motocicleta suspeita nos seguindo e que estava encostada agora ali na esquina. No mesmo momento, uma policial militar perguntou :   “ É uma moto preta, dirigida por um rapaz todo de preto? “.  Com a nossa confirmação, dois policiais, que também estavam no Posto de Atendimento, saíram correndo, com os revólveres em punho, com o objetivo de alcançar o referido meliante. Enquanto corriam pela Renato Paes de Barros, a policial atendente nos informou : “ Com certeza vocês foram sacar dinheiro no Banco Itaú da São Gabriel.

Suspeitamos que há um caixa  do Banco,  mancomunado com esse assaltante, da moto preta. Já recebemos inúmeras queixas de assaltos após saques nessa agência. Infelizmente, ainda não conseguimos pegar o motoqueiro para que ele abra o bico e nos conte quem é o caixa bandido. Já temos a agente de segurança nos auxiliando e que já desconfia de alguém. Mas por enquanto não acusou ninguém porque não tem prova. Assim que pegarmos o motoqueiro, vamos fazer ele entregar o serviço”.
   
      Alguns minutos depois chegaram os dois policiais esbaforidos e bastante cansados. Haviam corrido até a rua  Joaquim Floriano, atrás do motoqueiro, sem sucesso. Pudera, um dos policiais era bastante gordo e o outro tinha cara de anêmico e subnutrido. O drible do ladrãozinho era inevitável nas duas jocosas figuras.

      O motoqueiro sumiu do mapa. Os policiais  gentilmente nos escoltaram até o meu escritório. Se não tivéssemos parado na Delegacia, certamente seríamos assaltados uma vez que, naquele dia, houve o maior congestionamento da história. Da Delegacia até meu escritório, são poucas quadras. Entretanto, levamos mais de uma hora para chegarmos, com escolta e tudo, inclusive sirene em um dado momento. Certamente, foi a única boa ação daqueles policiais naquele dia, malgrado o trânsito infernal.
      
            Por isso, deixamos o Poupa Tempo para o dia seguinte, quando a novela prosseguiu.

Patrícia não dormiu direito naquela noite. Segundo me disse, por volta das onze e meia, quando me ligou, “  tinha sentido muita emoção no mesmo dia “. Sua cabeça estava um verdadeiro redemoinho, com muitos relampejos e sensações boas e ruins a um só tempo. Decidimos então postergar o Poupa Tempo por mais um dia e trocarmos a ida por um bom bate papo acompanhado de cerveja em um boteco conhecido. Foi uma delícia! Uma tarde inesquecível!

Voltemos ao Poupa Tempo. A quantia necessária ao recolhimento das taxas de licenciamento do carro já estava com Patrícia desde a hora magica da escolta policial. Não costumo e não gosto de carregar pacote de dinheiro e , no caso,  havia muito dinheiro em notas de vinte reais.

Chegamos ao Poupa Tempo por volta das 10 horas da manhã. Demoramos mais de uma hora para ser atendidos, apesar da fila preferencial aos sexagenários.. Esclareço:  tenho mais de 60 anos. Patrícia é bem mais moça, não tendo chegado nem aos cinquenta. Ainda falta muito.

A funcionária que nos atendeu, perguntou-nos, antes de mais nada, se tínhamos cartão de débito do Banco do Brasil, sem o qual não poderia ser aceito o recolhimento. Patrícia indagou então se não era possível o pagamento em dinheiro. A funcionária disse que sim, mas questionou: “ Vocês não tem todo esse dinheiro aí com vocês, aqui  na Praça da Sé ?  “. Na verdade,  Praça Clóvis Bevilácqua, onde a agência de atendimento se situa, no meu entender, repita-se. Quando dissemos que sim, ela retrucou espantada: “ Mas não é possível, é muito dinheiro ! “

Patrícia retirou de sua bolsa a totalidade da quantia necessária. A funcionária, ao ver aquela quantidade de notas de cinquenta e vinte reais, coçou a cabeça, com cara de poucos amigos e falou : “ Vai demorar para eu contar todo esse dinheiro. Vocês não estão com pressa, estão ?”. Para não discutir, já que passava das onze e meia, saí de perto e fui andar um pouco, deixando Patrícia ali no caixa do Poupa Tempo com a funcionária Valderice , como li na tarjeta enganchada em sua blusa.

Valderice, conforme contou a Patrícia, enquanto checava uma a uma cada nota , só tinha sido contratada naquele mês, não tendo muita familiaridade com contagem de dinheiro. Perdia-se na contagem e na checagem inúmeras vezes, recomeçando tudo de novo. Patrícia, por seu turno, resplandecia felicidade e seus olhos verdes estavam iluminados. Como a vida de cada um revela momentos singulares. Andava eu de um lado para o outro, impaciente e com minha carga de tolerância quase a zero e só me acalmava quando notava o semblante de Patrícia, naquele momento. Para mim, já estava achando que aquilo não ia acabar nunca e o mau humor já  me consumia a cada minuto ali vivido  . Era uma e meia da tarde e a contagem ainda não tinha chegado a seu fim .

” Por que tinha que ter ido acompanhá-la ao Poupa Tempo, se tinha uma série de coisas a resolver em meu escritório ? “ perguntei a mim mesmo, morto de fome .

 “ Por que o Poupa Tempo não tem máquina apropriada para contar dinheiro para tornar ágil o atendimento aos cidadãos que dele precisam ? “, pensei.

Observei então que as pessoas que vão ao Poupa Tempo são resignadas e quase todas, sem exceção, tiram o dia para solucionar lá apenas um único problema documental. Licenciamento de veículo de padrão superior, como era o caso do carro de Patrícia, quase nunca chega ao Poupa Tempo. Licenciamentos similares são serviços de despachante. Nós estávamos contrariando o cotidiano do Poupa Tempo e por isso me senti um intruso naquele território.

Saímos de lá, quase às três horas da tarde, após o pagamento de todas as taxas necessárias e desmembradas para recolhimento, uma a uma. A máquina registradora do Poupa Tempo não aceita recolhimentos acima de cinco mil reais de uma só vez, como era o nosso caso. Falo nosso caso porque me senti nessa situação toda, como se estivesse tratando de uma questão comum a Patrícia e  a mim.
As pessoas precisam muito do Poupa Tempo, como concluí. Contudo, o Estado prestador de serviços precisa aprimorá-los para melhor atendimento e para que efetivamente cada cidadão ganhe tempo , dirigindo-se àquele órgão. Cinco horas para regularização e pagamento de taxas de licenciamento de veículo é simplesmente um absurdo !

Absurdo ou não, saímos após andando pela Praça da Sé e entrando na Catedral, a pedido de Patrícia. Fazia mais de trinta anos que não entrava naquela igreja. Não consegui rezar nem uma Ave Maria sequer porque simplesmente não rezo. Patrícia rezou contrita e espelhava uma alegria imensa quando saímos da Catedral. Fomos até o Metrô juntos e de braços dados. Beijamo-nos calorosamente quando nos despedimos. Ela tomou o trem para a Vila Mariana. Eu para a Praça da República, que não era o meu caminho para o escritório mas que me permitiu ir para o Bar da Dona Onça, onde almocei pensando em tudo que vivi naqueles dias.

Não vi mais Patrícia. Ela não me ligou como havia prometido. Eu não lhe telefonei. Sinto uma saudade louca, mas meu orgulho não me permite procurá-la. Talvez ocorra o mesmo com ela.

Quem sabe !?!...

PS: Esta história é apenas ficção. Qualquer semelhança com fatos reais vividos por alguém é mera coincidência.

São Paulo, 18.6.2011. Escrito num dia de ócio total .
 
   


 

5 comentários:

Sam disse...

seu espaço é vertiginoso
e você o escreve bem.

vou ficando.

abra
aço.

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Sam, obrigada por sua companhia. Tão raro hoje em dia, quem ainda leia blogs. Tudo rápido no face. Obrigada mesmo.

Sam disse...

Walkyria

nada a agradecer, odeio o facebook, as selfies do capeta e toda a trama para nos amaldiçoar para sempre no vale da vaidade.

não que eu não tenha facebook, vaidade e selfies, mas preciso me lembrar o quanto odeio tudo isso, por isso criei o meu blog.

vamos ficando, né?

abra
aço.

sherlina halim disse...

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aloha aku ia oukou, i ka ike oukou hoʻolako i ka loa kiʻi, a me hopefully pono


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