
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
Alcione Araújo
O esquecimento é uma suave mentira que move a vida:
nos esquecemos de que vamos morrer porque a espera da morte nos paralisaria. Também esquecemos quem somos: me sepulto nos meus recônditos tão profundamente que preciso de um psicanalista para ajudar a me desenterrar. Se me olho ao espelho e pergunto quem sou eu, não consigo responder.
Quando Édipo quer saber quem de fato é, Sófocles o pune com o horror trágico. A cultura social me impõe papéis que são mais necessidades dela do que minhas, e eu os represento. A ficção é uma mentira que o meu imaginário quer acreditar porque, insatisfeito na moldura estreita da minha vida pessoal, quero ser muitos outros, adquirir vivências do que não vivi nem viverei.
Enfim, no limite, a vida é um constructo da cultura - apenas o nascimento e a morte são realidades, e há controvérsias sobre a existência de uma essência humana: somos superposições de camadas como cascas de cebola.
Alcione Araújo
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
Daniel e Tiago, livres no tempo
.
.
Dois momentos, dois garotos como irmãos, dois meninos igualmente amados e cuidados por duas mães, Priscila e eu. Nós duas devemos ter feito algo de muito bom em outras vidas para merecer esses dois filhos tão nobres e valentes.
domingo, 9 de novembro de 2008
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
Barack Obama
Vamos conferir.
http://elections.nytimes.com/2008/results/president/speeches/obama-victory-speech.html#
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
Encantada
...
Esta é uma sequência do filme Encantada, da Disney, que eu adorei, até chorei. Uma amiga diz que é por causa do Dr. Shepherd, do Gray´s Anatomy. Bem, pode até ser, mas o filme é muito lindo.
Durante o filme, a gente pode reconhecer passagens famosas de todas as histórias de Princesas, desde Branca de Neve, Gata Borraheira, Bela adormecida, até as mais modernas. Aqui é uma recorrência àquela cena da Gata Borralheira, onde ela - com sua voz encantada de princesa - chama os animais da floresta para ajudá-la na limpeza da casa, com esperança de assim poder ir ao baile que o Príncipe herdeiro daria na mesma noite, para encontrar a sua Princesa.
O máximo aqui, é que ela vai até a janela, canta para os animais chegarem, porém ela está em Nova York. Naturalmente os animais atendem ao chamado, mas são bem diferentes dos bichinhos que ela conhece, e a surpresa é grande. Bem, mas ela é uma Princesa, ora! Com sua meiguice de Princesa diz: - Oh, sempre é tempo de fazer novos amigos!
Vale a pena ver os extras do DVD. Vários dançarinos de outra cena maravilhosa, a do parque, são antigos profissionais da pesada, gente que fez Violinista no Telhado, West Side History e daí pra fente. Divertido, bem feito e emocionante.
terça-feira, 4 de novembro de 2008
Pra que serve um celular
...
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Quem tem um bichinho querido, sabe a saudade que a gente sente deles. E eles da gente.
Rio de Janeiro, o Vídeo
...
Este é o vídeo Rio de Janeiro, com música de Elsa Soares & Anderson Lugão. Com direção de Bijari e finalização de Ricardo Nintz.
Foi super premiado e a gente entende a razão; só assistir.
...
domingo, 2 de novembro de 2008
Anos 70 - Walkyria Suleiman - Babi - Nina
EU NÃO ENTENDO DE NADA
1973
Pela folhagem da noite
Duas estrelas
Duas estrelas entre o verde
E a distância de uma vida escondida.
As palavras, as histórias, os fatos
Tudo constantemente separado
Pela falta de imaginação.
O quente
O quente silêncio a escorrer pelo quarto
A inundar vermelhamente o quarto.
Olho os quadros na parede
E reparo, de repente
Na solidão do meu tapete.
Tantos ruídos do outro lado
Tanto barulho que
Absolutamente não reconheço
Nada me é familiar.
E essa noite continua
Sem que eu me situe
Sem que nada esbarre em mim
Ou me reconheça
Como um velho amigo de escola.
Nem sei mais o que pensar
Pensar
Compassadamente
No tempo
De repente
Pronto
Já estou eu
De novo a esperar não sei bem o quê.
Mas eu sinto
Eu sinto
E isso é desespero!
Eu sinto a impotência de esperar
Da espera do GRANDE acontecimento
Mas que acontecimento?
O entendimento...
Eu não compreendo nada do que me acontece.
...
CIMENTO MOLHADO
1973
Eu tenho tido impressões
As impressões são um mistério
Algo que ultrapassa a minha vontade
Ou o conhecimento.
Quando a gente sente alguma coisa
É sempre motivado
Ou mesmo
É uma vontade de acreditar.
A intuição
É como fazer força pra se lembrar
Lembrar de algo que nem foi
É gratuita.
Mas a impressão
É como se a gente ouvisse o próprio nome
Sabendo-se que não existe ninguém a nos chamar.
É como se a alma fosse um cimento molhado
A espera de um nome
Que se desenhasse no momento exato da passagem
E ficasse
Eternamente gravado.
...
COMO SE SABE DO FIM?
1973
Hoje vou ouvir alguma música
Tipo chorável
Tomar um porre
Reler velhos cadernos
Fumar trinta cigarros.
Depois
Dormir com aquela
Indisfarçável esperança
De que amanhã será um novo dia
De que amanhã estarei nova.
Porra,
Será que esta noite vai acabar assim?
Impunemente?
Tá bom,
Eu sei que a noite acabou
Mas eu não acabei ainda!
(como é mesmo que se faz
nestas horas?)
...
LABAREDA
1971
Pro Geraldinho
O vento entrou calmo pela janela
Te encontrou agitado
Procurando estrelas.
Ondulou a cortina dos teus olhos
Explodiu teu sorriso
Inundando teus lábios
Escorrendo pelo rosto branco.
No teu sangue azul
Os talheres do mundo tilintaram.
Nos teus olhos negros
Toda porcelana se quebrou.
Sem seres príncipe
Sem seres deus
Fizeste tocar os sinos do mundo
Os pássaros dançaram nas tuas mãos agitadas
Que tocaram sonhos durante a madrugada.
Você se procura e sorri
Suas mãos sorriem
Pois sempre existirão madrugadas
Por que você é labareda.
Todas as fogueiras do mundo ardem no teu peito
Todas as chamas se incendeiam nas tuas mãos.
E elas queimam o mundo
Derretem os edifícios
Racham os vidros
Mas ninguém sabe....
Que quando o vento entrou calmo pela janela
Suas mãos meigamente buscaram meu rosto
E brincaram
Como duas crianças
Embaraçando meus cabelos.
...
MARINHEIRO
1971
Pro Geraldinho
O encantamento da noite
Me aconchega na minha cama
Me traz sua voz quente
Desperto do sonho e tenho você
Sonoramente manso
Olho as estrela
Encomendo-as pro nosso dia.
De repente uma tristeza calma
Medo de te amar,
Ou ainda
Medo de não te amar merecidamente.
Olho meu rosto
Penso se ainda poderei sorrir
Quando avistar teu olhar
Desembarcando com sua canoa de cordas
No oceano das grade metrópole.
Fica assim tudo tão pouco
Fico perdida na minha cama
Procurando por entre os lençóis
O encatamento que parece ter se desencantado
Olho pro céu uma última vez
A estrela, você em cada estrela
Fecho os olhos
E guardo embaixo do travesseiro
O meu maior amor
Pra você marinheiro
Que tem as mãos calejadas
De tanto tocar as cordas da vida
...
NAU
1972
Fim de noite
Nau silenciosa
Flores na lareira – eira, beira –
Vilas pequenas dentro da grande cidade – idade –
Não falo, choro –oro-
Penso nos meus sonhos de perder – arder –
Penso nos eu sonhos de encontrar – doar –
Diz quem é você
Fale do azul
Conte-me do longe – hoje –
Do outro lado do parque.
Fale da razão
Espere
Fale da primavera – era, era –
Que o resto será perdido.
Não, não lhe pergunto do amor
Pois não encontrei espaço para voar.
Tudo no amor é viagem – coragem? –
O resto?
O resto não importa – morta -
...
NOITE NA PRAIA
1972
É noite na praia
É noite na grande cidade
É noite em todas as cabeças.
É triste estar ciente do céu
E do mar que não quero olhar
Das pessoas que me cercam
Do mundo.
Desguardado de dor vejo seu olhar
Sem mágoa ou adeus ele se aproxima
E se perde na sua falta de expressão.
Seu olhar, por algum motivo, me fere.
A lua clareia minha mão
E sinto meu coração bordado de areia.
Tudo está claro demais pra haver dúvida
Pra que hajam temores.
Não sei do mar
Nem de estrelas
Por algum motivo que não entendo
Só sei de você
...
NOSSOS INSTANTES
1973
Pro Frede
Pela porta lateral da casa aberta
Entra meigamente o sol
E os ruídos silenciosos da alma
Se confundem
Na calma tarde do meu corpo.
Virar o rosto devagar
Olhar rápido e profundo
O lento,
O agitado,
A confusão clara
Que como um vento me habita.
A vontade de ter um sono calmo
Como um cansaço
O descompromisso com o corpo.
Uma lembrança engraçada
De uma paz
Uma lembrança esfumaçada.
Um pedaço de cabelo que cai no rosto
E que distraidamente eu acaricio
Um pedaço do passado
Que cai doce no meu corpo.
De repente
A impressão da casa ser
Uma grande rede
A balançar no mundo
De um lado para o outro.
A impressão de ser
De não estar
De só sentir
E acreditar que até o fim desse momento
Eu ouvirei
No meio destes ruídos silenciosos
O teu silêncio familiar.
Entra meu amigo
Entra rápido nessa casa.
Fica comigo
E sente
Como o meu corpo
A calma desse tempo.
Me guarda como a um instante
Que inesperadamente chega à lembrança
Que é um segredo
Que te faz sorrir.
Um instante que passa rápido
Mas que,
Como um pedaço de cabelo no rosto
É acariciado,
E como o passado
Cai doce no teu corpo cansado.
...
RIO DAS MORTES
1971
Olho pros lados e desespero o tempo
Penso no que dizer.
Rôo as unhas e penso no que dizer.
Invariavelmente você não me entende
Você nem finge que me ouve
Conotações de cada um
Mas por favor não conote errado
Quando de repente eu disser
Que quero teu corpo.
Pecar amando? Ah meu menino, é como se Deus mostrasse seu RG.
Mas não vamos falar nisso!
Falar do proibido
É estar fora das aspirações seculares.
E os séculos correm no meu sangue
E eu me transporto a Impérios passados
A lendas misteriosas
A amores fatais.
Volto pra você
E sinto o sangue minguando nas veias
Como este rio em tempos de seca.
Paro no caminho
Olho as placas do grande trevo
Elas não conseguem dizer
De que lado está a minha estrela
De repente as placas se cobrem
De musgos e imposições intransponíveis
O mundo está visceralmente contra mim.
Fecho as janelas
Tranco as portas e choro.
Minhas lágrimas irrigam as folhas
Me enraízo na terra
E uma ciranda de nuvens
Brinca distraidamente à minha volta.
...
SEM DESTINO
1972
Uma voz que não se ouviu
Uma distância interminável
Nas coisas que não aconteceram
Uma noite calma demais
Pra minha alma inquieta.
Um violão calado
Um poema sem fim
Magoado.
Uma dor cansada Tudo isso
E a dor das coisas que não foram
Das que passaram
Se esvaziaram.
As opções, a grande mágoa
A saudade.
Um cachorro late e eu, simples humana
Abro janela e lato para ele.
Um pássaro atravessa meu olhar
Passa sem jeito, batendo-se em tudo.
Foge com medo, sei que já foi pássaro de floresta.
Fugiu hoje pássaro de gaiola
Não se foge quando filhote
Só depois de perseguido
Dentro dessa primavera sem flores
Dói o inverno dentro do meu peito
Inunda meu corpo
Transborda minha alma
Choro.
O cachorro silenciou.
Olho-me
Fecho os olhos
E acabo a vida sem fim
...
SAÍDA SEM RUA
1970
Sem silêncio e sem tristeza
Saída sem rua, sem caminho, sem estrada
Apenas um grande verde e um imenso nada.
Com as nuvens correndo
E a casa,
O grande templo estático.
Sem sinos na Igreja fria e cinzenta
Sem fragmentos de vida
Ou velhas cartas.
Sou velho , sou criança
Sou poema, sou jornal
Sou aquilo que você não é.
Não me esquecendo de nada
Esqueço do tempo
E volto atrás daquilo que não fui.
Eu canto a canção como quero
Como um grão do infinito.
Sem pedaços de você
Sou do céu.
Eu seu que você jamais
Será aquilo que não é.
Mas eu canto mesmo triste.
E vejo a rua sem saída
Sem verde
Sem nada.
A Igreja continua cinza
A torre continua branca
E o canto continuará
Na boca dos mortos.
Vou à procura do que não fui
Para nunca mais ser.
...
FANTASIA
1976
Pra Carolina
Você chega com seu olhar de gata
Me amassa a roupa
Desarruma meu cabelo
E escorre por entre meus dedos
No momento em que penso que é minha.
Me pergunta coisas
Questiona as ordens
E desconversa o que não lhe interessa.
Você está sempre assim
Fresca e limpa
Ensaiando um sorrido ondulante
Me fazendo crer, à vezes,
Que a vida é uma grande dança.
Você chora e ri
Pula e se cansa
E quando penso que acabou
Você recomeça mais forte
Mais depressa.
Me chama de feia
E diz no escuro
Que nosso abraço parece fantasia:
- Mãe, você me queria?
...
RESPONSABILIDADES
1979
Éramos três amigas,
Tomando cerveja e fumando
Curtindo a alegria de fugir do cotidiano.
As crianças brincando no quintal
O trabalho feito e a vontade de estar juntas.
Falávamos naquela tarde
Da nossa energia criativa que luta em se manifestar
E nas maneiras que a subordinamos
Tendo sempre me vista o real, o útil, o possível
E por que não dizer,
Os impedimentos imponderáveis que nos colocamos
Agora que crescemos e devemos ser,
No mínimo,
Práticas e responsáveis.
Quanta besteira,
Quanta imaginação pra dissimular a covardia e o medo.
Enfim, vamos tocar essa vida pra frente
Por que essas crianças vão crescer
E a gente vai mesmo é si fudê.
...
EU SOU?
1978
Sim, eu sou.
Sou triste e desanimado
Não por consequência ou despeito
Nem me fiz assim com o tempo.
Sim, eu sou.
Sou poeta.
Rimo o poema rimando a vida
Fazendo do ruim o pior ainda.
Sim, eu sou.
Sou desgraçado
Mas sobretudo feliz
Desgraçado por ser assim
Alegre e triste
Feliz
Por ser essencialmente coitado.
Sim, eu sou.
Mas ninguém sabe
Pois ser feliz e desgraçado
Ser alegre e triste
Ser coitado
É não ser nada
Quando se é assim como eu
Fingido e amarrado.
...
VIAGEM
1974
Não está sendo nada agora, aqui
Pensando nas noites desconhecidas que virão
E mesmo as mais próximas ficam longe
Perdidas.
É terrível pensar na tua ausência perto de mim.
Terrível
Que basta-se a si mesmo
Em qualquer situação de vida
De riso
Ou daqueles olhares que
Têm tanta expressão sem chorar
E o terrível
É não vir o choro.
Lembro só agora
Daquela manhã cheirando a verão
Que fomos almoçar
E era junho
Junho sempre é bom.
Dezembro é sempre triste
Sempre azul cinzento
Sempre confusão em todas as cabeças
Dezembro é um domingo
Que dura um mês inteiro.
Serão quatro meses de domingo
De uma tristeza cinza
A inundar meu quarto.
...


