- As pessoas têm que assumir as suas limitações. Por exemplo, por mais que alguém se esforce, ela nunca vai enxergar a própria bunda.
Cá cá cá, todos riram, aliviaram-se das tensões do assunto que a gente estava tratando, e boa, ficou por isso mesmo.
Eu, do meu lado, garrei a matutar, “Como assim? Que história é essa? Que coisa mais louca e idiota que ele disse. É claro que não posso enxergar minha bunda, afinal, meus olhos são na frente, não atrás”.
Ok, pode parecer loucura, mas eu continuei pensando nisso, enquanto, com o canto do olho, olhava pro Romeu. E não foi preciso muito pra eu me apaixonar pela idéia. Se eu não posso enxergar nem a minha bunda, imagina a quantidade de coisas em mim, muito mais importantes do que a bunda, que eu não consigo ver? Pois é macacada, acho que vem daí a expressão “o cara não se enxerga”, ou “ele não tem espelho em casa”.
Isso é muito sério, primeiro porque, definitivamente, precisamos do auxilio luxuoso de alguém para enxergarmos coisas em nós - por exemplo a bunda - , que não podemos nem nunca poderemos enxergar. Segundo, que se não fosse o olhar do outro, muitas coisas passariam despercebidas para nós. Haja vista a quantidade de atitudes iguais a dos nossos pais que perpetuamos, e que insistimos em criticar – como, aliás eu já comentei aqui, depois de passar um fim de semana com meu pai, onde, ele me irritou tanto, não pelas coisas que ele fez, mas porque eu me percebi fazendo tudinho igual a ele.
Resumindo, a gente tem mesmo, a exemplo dos olhos da face, um ponto cego nos olhos da alma.
Ai meu Deus, é engraçada essa vida, vamos rir macacada que é “causo” de riso mesmo.
Bom, tudo isso é só pra dizer que deve ser por essa razão que a fotografia exerce na gente - mesmo com o advento de tanta tecnologia - tamanho fascínio. A gente quer ver a foto da fulana na revista, a foto da mãe dela e do namorado dela. Quem não gosta de revistas, assim como eu, tem que manipular a mente, porque o olho vai lá dar uma volta e vê, e vê com todas as letras a chamada da capa: "Sensacional, Maria dos Anzóis nua em pelo” e dá aquela vontade de abrir a revista e ver a foto, daquela pessoa que, por Deus, eu nunca quis ver nada, que dirá uma foto nua em pelo e cabelo.
Pois é, quando a foto é nossa então, valha-me Deus, a gente para o filme - Pera ai, volta, hum, deixa eu ver, nossa, estou diferente, ah! eu não sou assim tão magra, ou gorda, ou vesga - what ever. Quando chega a nossa foto, o interesse é animal.
Então vamos voltar ao pensamento original. A gente também não pode ver a própria cara. Então, se ver assim, numa foto, é uma experiência avassaladora. “Poxa, é assim que eu sou? Tradução: é assim que os outros me veem, enquanto eu me imagino de outra forma?
A gente precisa do outro mesmo. Eu costumo dizer que minhas amigas são minha biografia ambulante. Eu digo isso e aquilo e elas fazem, nã nã nã com a cabeça e me dizem, as chatas, com as minhas palavras, uma coisa que acaba por contradizer totalmente minha afirmativa anterior e que, via de regra, eu já havia me esquecido.
Sou obrigada a pensar, a repensar, e dar o bracinho a torcer.
É muito lindo isso, alivia, faz a gente dar importância ao que merece, e de quebra, ver a própria bunda.
Isso gente, se nesse mundo maluco, você conseguir plantar, cultivar e cuidar de uma amizade. O quê não é pouco, acreditem..
Então era isso.
No videozinho a seguir, tem uma montagem de fotos que o Daniel fez de mim, sua própria mãe, motorista, cozinheira, diagramadora, letrista, revisora, costureira, conselheira, cabeleireira, enfermeira, lavadeira, e agora, modela.
Foi pra Faculdade (o trabalho) e o professor disse que eles teriam que fazer um ensaio fotográfico, sem máquina digital, onde o mote fosse a naturalidade, lembrando-se de passar um astral, um clima, tipo um editorial de moda sem moda. É duro entender, mas é o subliminar, minha gente.
O Daniel achou que, nada mais natural do que a mamis aqui, acordando numa manhã de domingo. Dá pra perceber pela cara de bolacha descabelada.
E para ter sentido o romance que escrevi acima, pra mim ficou assim: “hum...será que eu posto isso no blog? Será que vão me chamar de bonitona encalhada? Ou será que vão achar que eu tô me achando”?
O fato é que eu gostei, porque a auto-estima é uma coisa muito volúvel, quase líquida mesmo. E às vezes - como eu e um amigão comentamos (o Alam) - , auto-estima é feito boi bravo: você tem que laçar o bicho no muque.








