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Dias destes, li um livro ótimo, que me capturou pela capa e nome. Nunca havia lido nada do autor, nem conhecia, a bem da verdade. Comprei, me deliciei, virei fã.
Mas o motivo do post, é que o vidente do livro, o Santinho, faz uma revelação bombástica: que o mal do Brasil era a maldição do pau torto. Pau torto, no caso, seria a letra J, que todo mundo pode ver, que é mesmo um pau torto. Mas então, leiam o texto, é mesmo muito bom e profético.
Carlos Trigueiro
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"Num fim de tarde, em entrevista coletiva a correspondentes estrangeiros sediados em Nova Iorque, Santinho revelou:
- Que a sua teoria do pau que nasce torto, ou seja, da letra J, que influi nos destinos do Brasil, baseia-se em dados irrefutáveis não tem nada de profecia, nem feitiço;
- que o desmando do pau torto começou em 1494, quando D. João II, às cegas, incluiu parte do Brasil no Tratado de Tordesilhas;
- que, em 1532, D. Jão III retalhou, a torto e a direito, o país em capitanias;
- que os jesuítas influenciaram a história do Brasil muito mais do que se sabe;
- que o domínio holandês não vingou no Nordeste brasileiro por causa do olho grande do príncipe João Maurício de Nassau;
- que Joaquim José da Silva Xavier (Tiradentes) foi derrotado por Joaquim Silvério dos Reis, no episódio da Inconfidência Mineira, por causa do duplo J no nome;
- que o general Junot, comandando tropas napoleônicas, fez D. João VI meter o rabo entre as pernas e fugir com a família real para o Brasil;
- que José Bonifácio de Andrada e Silva, além de "Patriarca da Independência", foi o primeiro brasileiro a ocupar um ministério;
- que o político mais lúcido do Império, abolicionista e monarquista, Joaquim Nabuco, acabou jururu, no exílio;
- que na história recente o ciclo do pau torto foi explícito em 1954, com Getúlio Vargas, pois, naquele tempo, milhões de brasileiros escreviam "Jetúlio";
- que o poder quase foi parar nas mãos de Juarez Távora, porém veio Juscelino Kubitschek, que passou o poder a Jânio Quadros, que renunciou e foi sucedido por Jango Goulart, que foi derrubado pelos generais (que, como se sabe, em país de analfabetos pode ser "jenerais" e não faz a menor diferença);
- que o maior movimento cívico brasileiro, conhecido por "Diretas Já", não deu certo por causa da influência do J;
- que a notícia da morte de Tancredo Neves ao seu sucessor foi dada no Palácio Jaburu, em Brasília;
- que no final da hegemonia militar o poder político foi devolvido aos civis pelo general João Figueiredo, que o passou a José Sarney do jeito que todo mundo sabe.
Satisfeitos com a retórica de Santinho, os jornalistas - sempre ávidos por novidades - perguntaram se as sucessivas crises provocadas pelo Movimento dos Sem-Terra (MST) teriam solução, visto que a distribuição da terra no Brasil, em comparação com os Estados Unidos, está atrasada duzentos anos.
Respondeu Santinho: "Nunca haverá solução definitiva, não há espaço."
Jornalistas: "Como não há espaço? O Brasil tem mais de oito milhões de quilômetros quadrados!"
Santinho: "Serão sempre insuficientes, enquanto não houver espaço na consciência dos possuidores de terras."
Quanto à questão de ex-presidentes da República que, bem ou mal, já entraram para a História, chegando ao ápice dos cargos públicos, indagaram os jornalistas: "Como se explica que esses senhores retomem ou queiram retomar ao cenário político em cargos inferiores, de prefeito, senador, embaixador, governador?"
Santinho respondeu como repentista que teve sua rabeca censurada vinte e um anos: "No Brasil, as elites dirigentes vivem em estado de sodomia política; então, a pergunta não devia ser feita a vidente, porque a resposta é evidente."
Leram tudinho? Bons garotos... agora cuidado heim, nada de seguir a maldição e votar no "J do pau torto".