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Quem acompanha esse céu, sabe que adoro as festas de mudança de estação. Primavera na Páscoa, São João no inverno, São Micael no outono e Natal no verão. Mas detesto dia das mães.
Quando pequena, era um dia que eu fazia uma baboseira qualquer na escola e dava pra minha mãe, que acumulou desenhos, porta-retratos, colares de macarrão, pulseiras de pedras falsas, vindos de suas quatro filhas, em quatro diferentes escolas.
Depois, com 21 anos, eu já tinha duas filhas. Vou dizer gentefina, não foi fácil ser mãe solteira e concubina nos anos 70. Nem batizadas minhas filhas puderam ser. Oquei, minha mãe deu um jeitinho e batizamos as meninas em casa mesmo.
Por alguns anos, por conta de brigas familiares, não passei o dia das mães com a mamis, e quis que minhas filhas não dessem importância para essa data, já que pra mim era uma data triste. Elas ensaiavam bolos de neston com azeitona – juro -, faixas, músicas, mas sabe, era uma bagunça e eu não sabia o que sentir.
Depois, feitas as pazes familiares (pois se há uma coisa que deve ser economizada, é briga familiar, pois a gente acaba fazendo as pazes mas com mágoas profundas no coração - assim, sugiro não brigar, é mais cômodo gentefina) e de enfim retornar às boas com a família, era um pega pra capar. Uma não podia almoçar, o outro só podia na hora do almoço. Um queria uma pizza no final da tarde porque tinha compromisso à noite. O outro queria um jantar porque chegaria de viagem tarde. Minha mãe não queria era nada, porque estava doente, dava folga pra cozinheira, era um embaço. E a Mamis, nem sabia onde era a cozinha da nossa casa. Meu pai não queria jantar nem almoçar fora, pra não morrer com uma nota preta com suas 4 filhas, genros, netos e agregados.
Deu pra sentir o clima?

Eu sempre estava disponível, menos por santidade do que por organização. Ciente dos embaços que os seres humanos podem criar, ficava no aguardo e no comando de uma verdadeira guerra de vaidades, quem, onde, quando….um saco. A fortaleza era a casa da minha mãe. Não era dia das mães, era dia da avó.
Presentes, minha mãe tinha o péssimo hábito de reclamar de todos ”isso eu não uso, isso acho o fim você me dar, não acredito que você me deu isso, olha, pode levar de volta”. No quesito presente, sempre me dei bem. Eu escrevia cartas, que ela adorava. Na ocasião de sua morte, não encontrei nenhuma….. mas tenho a maioria gravada em meu disco, senão o rígido, o mole mesmo, do coração.
Aí a véia more, desintegra a família, outra leva de brigas….. acabou o dia das mães. Minhas filhas, criadas no “faça como você quiser que eu não sou o DOICOD", nunca ligaram para datas. Nenhuma, na verdade. Meu filho Daniel, liga, me fez muito agrado já e muita cartinha, mas tá ficando homem, é diferente, e se vê no meio dessa mulherada toda. Sendo de temperamento distante e pacífico, pra não dizer ausente, fica na dele, aguardando os acontecimentos. Iniciativa? essa qualidade passou longe da minha casa.
Enfim, no mais profundo recanto das minhas ilusões, espero um dia das mães, onde os filhos surpreendam, onde os filhos façam algo pras mães. Um almoço, uma apresentação, um café da manhã na cama - eu que bebo café preto e um simples pão francês - uma carta….. gentefina, sou humana, sangro, não posso negar.
Dia desses assisti ao seriado The Middle. Muito bom. Teve o episódio do dia das mães, hilário. No dia dos pais, tudo dava certo, claro, a mãe supervisionava o café da manhã, o presente, os afazeres dos filhos, tudo mesmo. No dia das mães, era aquela bagunça na cozinha, que ela iria limpar, óbvio. Acordavam a pobre antes da hora, com um café da manhã asqueroso e, presente.... bem, o pai havia esquecido e comprava qualquer utilitário doméstico de última hora. No caso, uma bolsa inflável para escalda-pés. Me senti melhor, mais acompanhda nessa sina. Mas gentefina, não abrandou minha raiva do dia das mães.
Finalizando a ladainha, vai a foto do santinho da mamis….. e mais, onde quer que você esteja mamis, porque
notícias você não manda mesmo, saiba que te amo, e que agradeço por tudo que você me deu. Sei que foi o seu melhor. E…..surpresa! Me ajuda muito ser como sou. De verdade mamis, não me trocaria por ninguém.
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