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O véio Ibrahim meu pai, foi sempre um sujeitinho tinhoso e engraçado. Não que ele quisesse fazer graças de modo proposital; não, nada disso gentefina. Era de sua natureza ser irritadiço, irônico e peculiar, tudo isso revestido de uma graça sem par.
Conto um causo para ilustrar. Eu devia ter entre 7 e 9 anos, e tínhamos uma fazenda em Barretos, terra natal do véio. A viagem era um verdadeiro rali, com inúmeras rodovias, estrada de terra, viscinais, e resumindo; eram 500 km que percorríamos em 24 horas ou mais, dependendo do clima e da vontade de Deus.
Isso porque íamos em 4 crianças, empregados, cachorros e o periquito do véio, meus avós e vários carros. Era uma caravana dos Suleimans. No carro da criançada – Aero Willys e Kombi -, a comida corria solta, pois meu avô não viajava sem matula.
Mas enfim, quando a gente finalmente chegava na fazenda, meu pai rolava do carro e se estirava no gramado diante da sede e olhava o céu, enquanto as mulheres e os serviçais tiravam a farta bagagem dos carros.
Nós, as quatro filhas, corríamos pra cima de nosso pai. Deitávamos a seu lado, brincávamos e brigávamos entre nós, pela melhor posição, fazendo daquele momento de paz do véio, um suplício - se bem que nessa época o véio Ibrahim não tinha nem 40 anos, era um gatão.
Numa dessas vezes, ele sentou-se no gramado, prá lá de nervoso, olhou bem pra nossa cara, colocou a mão em posição ameaçadora e gritou: Porra, caralho, com 400 alqueires nesta merda, vocês quatro querem ficar logo no meu metro quadrado?
É, meu pai sempre foi engraçado e querido por todos, menos por mim...srsrrs. Mas essa é outra história.

Contei isso pra ilustrar esse lance que as pessoas têm de querer ficar isoladas em seu metro quadrado, em suas bolhas.
Vi um documentário certa vez, que analisava justamente isso. Que quanto mais alta a classe social, menos contato as pessoas queriam com estranhos.
Claro né, quanto mais pobre você é, menor sua privacidade, não tem quarto próprio, às vezes até dorme na mesma cama com outros parentes, pega condução, entra em fila, esse tipo de coisa que vai brutalizando a sensibilidade, te deixando à vontade no empurra empurra da vida. Gentefina, é incrível isso. Num ônibus, as pessoas de classe mais baixa, não estão nem aí de ficarem encostadas ou praticamente em cima das outras. Mas enfim, não é este o ponto não.
O ponto é que eu percebo, para além desse documentário psico-socológico, que ninguém gosta de proximidade. Por exemplo: quem nunca esteve num consultório médico, ou numa sala de espera qualquer, e ao escolher um lugar, sentou-se numa cadeira vaga que não tivesse ninguém ao lado? Fala sério, gentefina, todo mundo dá preferência pros lugares sem vizinho. Até no cinema, quando a gente senta ao lado de alguém, e tem outro lugar vago, o cara fica meio puto, achando que, como o véio Ibrahim, com tanto lugar vago, o cara vem sentar justo perto de mim? porra caralho!
É, aí vem esse lance de dar abraço. Oquei, faz bem, alimenta a alma, aquece o coração, mas é um problema pra ligar esse mecanismo. Falo por mim, gentefina, travada da Silva Xavier, piso em ovos, de codorna, ao ser abraçada. Será que estou muito encostada, ai, tô respirando forte, tô com cheiro de cigarro... e agora, continuo abraçando ou já deu? Largo ou espero ser largada... e depois do abraço, quiqui eu faço?
Oquei, exagerei, mas no fundo tem sempre algum desses ingredientes no meu abraço. Claro que já dei abraço bom, calma gentefina, mas estou falando dos que não foram bons.
Não vou enrolar mais. Quero dizer que tem essa mágica linda no abraço e que, por conta do meu metro quadrado, eu perco. Tem um sensor que apita, dá choque e arrepia quando alguém entra no meu metro quadrado. Às vezes eu desligo o bicho e digo: amigo, amigo. Outras não acho o botão, e fica aquela confusão no meu sistema.

Ontem eu tive chance de dar um abraço bom. Um desavisado entrou no meu metro quadrado. Disparo ininterrupto, código vermelho, travamento automático de todas as portas..... perdi um abraço.... ô dó! Justo agora que meu abraçador mor, o Daniel, está tão longe.......
Sei que fui dormir mais tarde, e sonhei. No meu sonho, numa hora que não tinha nada com nada, um homem, que nem sei quem é, me deu um abraço. E eu senti.
Senti aquele conforto, ouvi meu coração bater, minha respiração se acalmou, meus olhos se fecharam, e eu vivi uma grande paz.
Acordei assim, muito abraçada. E garrei a pensar tudo isso que escrevi aqui.
É gentefina, num é fácil não......
Nas fotos, véio Ibrahim de ray ban, o abraço da Priscila e o abraço da Tânia, minhas irmãs nessa vida.